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Depois de 19 obras publicadas, o gaúcho João Gilberto Noll desembarca na Fliporto, trazendo na bagagem novo romance: Solidão continental. Autor premiado e reconhecido por sua potente linguagem, nessa obra apresenta a experiência ousada de mais um narrador que caminha para preencher o vazio do seu entorno e seu estado de solidão com novas figurações. Rastros de vida em cada página. Isso é o que encontra os leitores até o final desse romance.

Nessa narrativa, a solidão é uma doença avassaladora que atinge o coletivo em tempos de frustrações cotidianas. E, assim o é. O protagonista de Solidão continentalé um indivíduo anônimo, maduro, professor de língua portuguesa, andarilho, que carrega um “desmazelo mental”.

Noll concedeu por e-mail a seguinte entrevista para os leitores do Pernambuco, em que detalha o universo da sua nova obra e sua forte relação com a palavra escrita.

 

Sua literatura pulsa para a vida. O narrador de Solidão continental em uma madrugada de insônia verifica que “o mundo continua doendo”. A falta de afeto e o desinteresse pelo semelhante como são vistos por você nesses tempos de solidão? Para onde caminha esse mundo que dói?

Com 35 anos redigi um romance chamado A fúria do corpo. Seu protagonista é um mendigo, que vive a perambular pelas calçadas de Copacabana, perdidamente apaixonado por uma mulher (também mendiga). Num trecho do livro ele toma ares de São João Evangelista e brada aos passantes seu furor apocalíptico. Ambos se prostituem em troca de qualquer merreca. Se amam. E são imperadores naquele cotidiano que construíram para os dois. Tão perfeito dentro de todo aquele horror, que o homem inomeado tem tempo de pregar para alguma salvação. O protagonista de Solidão continentalé diferente. É um homem que vive no limiar da velhice. Por vezes abandona-se no sono. Quando desperta, vê que continua ilhado e os jornais lhe mostram a mesma insanidade. Ele é apenas dominado pelo mundo que dói e a páginas tantas começa a procurar um amor. O mundo lhe permitirá esse prodígio?

 

Solidão continental tem um protagonista obcecado pela errância, pelo sexo, pelo pensamento, pelo corpo enquanto território de fabricação de mundo, pela língua portuguesa como momento de troca. No entanto, aqui, ele não faz referência à palavra. Seria essa não citação também uma forma de presentificação do vazio na narrativa ou seus protagonistas apesar de escritores não idolatram mesmo a palavra, apenas, a concebem como instrumento?

Há não muito, descobri que o meu protagonista é o mesmo de livro para livro. Ele foi fabulado pela linguagem. Sim, ele vem da minha natureza, certo, mas não do meu eu biográfico. O que me entregou de fato esse indivíduo foi a linguagem, que por sua vez o extraiu do meu inconsciente. É esse o meu processo de trabalho. A cada vez que sento diante da tela para surpreender a dinâmica desse homem me sinto em estado de vazio para que ele possa se estabelecer. Sim, sou um autor de linguagem. Assim, seria impossível que o meu narrador visse na palavra apenas um instrumento de transmissão de fatos. Sim, sempre tive em minha ficção momentos de celebração da palavra. Dessa vez, quem sabe, menos. É certo, aqui fui mais direto: o protagonista é professor de português para estrangeiros, uma forma inaugural (principalmente aos alunos) de sondar a musicalidade de uma língua.

 

A solidão hoje é uma doença que se apresenta em decorrência do mundo desequilibrado em “cotidianas frustrações”. Assim se lê em Solidão continental. O narrador nesse romance relata que tem pudor e sente-se humilhado de relatar esse sentimento a conhecidos e desconhecidos. Você crê que esse homem vê a solidão como uma degradação moral, uma incapacidade de engendrar novos relacionamentos?

Solidão continentalé um dos meus livros que mais especulam sobre a vergonha. Às vezes de uma maneira curiosa: quando ele está a seguir o garoto por um caminho de terra esburacada, ele avalia que é melhor aquele seu sentimento de humilhação do que a sua atmosfera rotineira. Ele tem vergonha de seu vazio e logo que se encanta por Frederico começa a imaginar muitas viagens e um mundo social mais povoado, para não matar um jovem de tédio e não fazê-lo escolher a deserção. Ele conseguirá esse prodígio?

 

O narrador de Solidão continental considera o “jugo do cotidiano” fator preponderante para a alienação do homem em seu isolamento. Como você vê, em tempos de avanços tecnológicos e o mundo em conectividade, a aridez das relações entre os indivíduos? Alguns preferem levar a termo um projeto individual, mesmo quando vivido no coletivo. Essa seria uma saída para os relacionamentos?

Em primeiro lugar este é um homem para quem só resta seu pendor lúdico para com sua identidade. Na emergência do hospital, quando lhe perguntam nome e endereço para que ele possa ser liberado para voltar à sua residência, ele percebe a sua condição de desmemoriado e cria um nome para si. Ou quem sabe seja o nome real? Mas eu sinto que há um impulso zombeteiro na tentativa de lembrança de seus dados mais banais. Então, frustrado pelos seus desamores, ele caminha por um mato nos arredores de Porto Alegre querendo voltar para o pronto-socorro, e nesse caminho ele convive com os bichos. Tem um impulso erótico com uma felina. Admira um beija-flor em volta de uma corola, inveja a operância de uma coletividade de formigas, expulsa sua urina torpe sobre elas. E corre, corre desabaladamente, como que querendo vencer o sofrimento, a morte. Corre com a dúvida se sua maca continua vazia, se os médicos se recordarão minimamente dele ou se dirão que o paciente anterior daquela maca morreu do seu trauma craniano. O que ele fará morto? O livro guarda uma surpresa final.

 

 

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