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Presença e Distância. Lidas assim, isoladamente, essas duas palavras parecem de alguma forma conter vibrações em polos opostos. Como se uma negasse a existência da outra. E, no entanto, é sobre a convivência delas de que trata o debate que se segue nas próximas linhas. Presença como convivência, estar junto, sentir na pele. Distância como respiro, tempo de reflexão, contemplação, espaço para o pensamento. Dois elementos cada vez mais caros a um contexto que, como parte de uma linha cíclica que a História tem, costuma trazer de volta à superfície espectros que já dávamos como enterrados. Porque se os espectros a intensamente sobrevoar o espírito do tempo no desfecho dos anos 10 do século XXI trazem sintomáticos gestos de intolerância tanto ao encontro corporal das pessoas (encontros de peles que precisam se chocar em suas diferenças para que se viva a poesia da imprevisibilidade de ser humano) quanto ao próprio pensamento (o anti-intelectualismo como um modo de vida), falar de Presença e Distância nos termos aqui dados são uma conversa importante para que se debata como, mais do que nunca, a própria discussão literária pode ganhar ou perder potência na medida em que se nos aproximamos e nos afastamos dos corpos e do pensamento, entendendo essas duas entidades como algo que, ao contrário do que rege a ciência branca cartesiana, nunca foram separadas.

Sobre a Presença: naquele que é possivelmente seu mais famoso e lido livro, Pedagogia do oprimido, Paulo Freire critica aquilo que chama de uma visão “bancária” da educação, em que educadores mantém com os alunos uma relação de alguém que detém informações que são “depositadas” numa sala de aula, que está ali para memorizar, e não aprender. “Em lugar de comunicar-se, o educador faz ‘comunicados’ e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção ‘bancária’ da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los.” Mais adiante, no mesmo livro, Freire escreve: “Entre permanecer porque desaparece, numa espécie de morrer para viver, e desaparecer pela e na imposição de sua presença, o educador ‘bancário’ escolhe a segunda hipótese. Não pode entender que permanecer é buscar ser, com os outros. É con-viver, simpatizar. Nunca sobrepor-se, nem sequer justapor-se aos educandos, des-simpa-tizar. Não há permanência na hipertrofia. Mas, em nada disto pode o educador ‘bancário’ crer. Conviver, simpatizar implicam comunicar-se, o que a concepção que informa sua prática rechaça e teme.”

Pedagogia do oprimido foi escrito em 1968, quando Freire estava exilado no Chile, e só foi publicado no Brasil em 1974. Foi o livro que mais pessoas levaram debaixo do braço para votação nas últimas eleições presidenciais, segundo estudo realizado pelas pesquisadoras Regina Dalcastagnè e Rosilene Silva da Costa (ambas da UnB). No campo do simbólico, é possível afirmar que, quando um grupo de pessoas leva à cabine de votação um livro que fala sobre as possibilidades críticas da vivência “com”, da comunicação direta, da presença, a inquietação está dada. E ainda que o projeto dos “bancários” (e certamente dos banqueiros) tenha vencido nas urnas, vários movimentos – como esse de levar Paulo Freire para votar – demonstraram que outras curvas podem ser feitas para que se preserve o debate, seja ele no campo da educação ou da construção do pensamento de um modo mais amplo, no espaço do corpo a corpo.

Sobre a Distância: Tem-se falado muito do filósofo coreano Byung-Chul Han pela sua atenção a questões do contemporâneo, particularmente com foco nas mediações de nossas comunicações e como elas revelam um túnel sem saída para o projeto capitalista da humanidade. Há um certo “modismo” na circulação do nome de Han entre algumas rodas. Afinal, seu trabalho sobre a chamada “sociedade da transparência” parece ser em vários momentos uma compilação de boas “sacadas” já disparadas por outros filósofos. Mas há entre essas “sacadas” um ponto de partida rico para pensar em como, ao menos na literatura, é possível falar de construção crítica e, portanto, de espaço para o respiro do pensamento, e a presença e “con-vivência” de que trata o empreendimento teórico de Paulo Freire.

Para Han, em Sociedade da transparência, nesta não há espaço para qualquer alteridade, para a diferença, para o choque de ideias e identidades. Na transparência de uma sociedade onde todas e todos estão excessivamente se expondo e se moldando segundo uma plateia a que nos assiste, elimina-se qualquer negatividade que venha a perturbar essa mesma plateia. “À coerção da transparência falta precisamente esse ‘tato de finura’, que nada mais é do que o tato do respeito pela alteridade que não pode e não deve ser eliminada completamente. Frente ao pathos da transparência que domina a sociedade atual, seria necessário exercitar o pathos da distância.” Essa distância, ao contrário do que se pode supor em uma leitura rápida, não é, segundo o próprio Han, um espaçamento entre corpos. Pelo contrário: é entender que é preciso reconhecer a alteridade para estar realmente próximo. Na sociedade da transparência ou “sociedade positiva”, há apenas “contatos sem toque”. “A falta de distância não é a proximidade; ao contrário, ela a aniquila”, escreve.

Se há de fato uma doença social que acomete não apenas o Brasil, mas o mundo subjugado a uma lógica neoliberal de sujeitos isolados, conseguimos entender a necessidade da Presença e da Distância como antídotos possíveis. Na literatura, uma atividade na qual, em sua feitura e em seu consumo, o ambiente do isolamento é tantas vezes um pressuposto, de que forma é possível exercer esse “pathos da distância” a partir dos encontros táteis, da proximidade?

Estamos, não se pode esquecer, no olho do furacão de uma crise editorial sem precedentes no Brasil. A Cultura e a Saraiva, duas grandes bookstores – e o fato delas terem sido conhecidas como bookstores em lugar de “livrarias” diz muito a respeito dessa história – terminaram 2018 com várias lojas fechadas e, no entanto, o número de vendas de livros no Brasil aumentou. Amazon-ização do mercado, dizem. Não é tão simples assim. A equação que sustenta escritores, editoras e livrarias (virtuais ou de concreto) é uma que, cada vez mais, foi cedendo a uma estrutura do pensamento essencialmente atada à filosofia do “contato sem toque”, como diria Byung-Chul Han. A notícia ruim? Sim, a “lógica Amazon” possivelmente vai se tornar muito maior e predadora do que já é. Em tese, isso minguaria a experiência de ir às livrarias, que por si só deveria ser um desses espaços de convivência. Digo “em tese” porque, e essa é a notícia boa, são justamente as pequenas livrarias, aquelas que conseguem estabelecer uma relação de conversa e troca com quem circula por esses espaços, que estão ainda conseguindo sobreviver. Porque a mais-valia desse comércio é justamente a possibilidade de se pensar a literatura a partir da presença e ocupação física dos corpos entre as prateleiras de livros. Esse campo energético não se acha no botão do frete grátis.

Naturalmente, feiras literárias, comercialização de publicações independentes em eventos públicos, circuito de oficinas e seminários, saraus, tudo isso faz parte de um construir coletivo da literatura que se expande para além das bordas de uma certa restrição semântico-acadêmica. Mas há algo que vem crescendo no Brasil nesses últimos três anos, que diz respeito a um pensamento que só se faz a partir da presença e da convivência háptica entre pessoas: clubes de leitura. Mas também não se trata de qualquer clube de leitura. Desde 2015, quando se iniciaram as atividades do primeiro grupo Leia Mulheres, em São Paulo, outros coletivos dedicados a ler autoras e autores que costumam passar à margem dos orçamentos publicitários das grandes editoras começaram a criar novas redes de afeto que têm o debate literário como força catalisadora de experiências de vida.

Evelyn Sacramento, uma das mediadoras do Lendo Mulheres Negras, que existe há dois anos e é realizado em Salvador e em Brasília, traz uma palavra-chave sobre a importância dos encontros presenciais: “Apesar de termos ações também em redes sociais, os encontros presenciais são a concretização daquilo que produzimos ao longo do mês. Nós costumamos dizer que nossos encontros são de cura, expomos sentimentos, compartilhamos vivências, muitas vezes choramos, rimos, divergimos, lambemos feridas e, por fim, recebemos cumplicidade no olhar e nas palavras de nossas iguais, outras mulheres negras”. Pensar a obra de Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Lívia Natália, Cidinha da Silva, Chimamanda Ngozi Adichie, autoras que, entre outras, foram lidas pelo clube ao longo desses anos, como uma experiência expandida de cura coletiva leva a literatura para o campo da resistência. Da chance de transformar os livros não apenas em refúgios, mas sobretudo em possibilidades de elaboração de imaginários desejados em enfretamento direto a imaginários dominados.

Também existindo há dois anos, o coletivo Leia Mulheres Negras na Biblioteca, que acontece na zona norte da cidade de São Paulo, tem uma estrutura distinta, mas com respostas muito parecidas. O grupo começou como um projeto de mediação de escritoras negras em algumas bibliotecas e, só no segundo semestre de 2018, tornou-se também um clube de leitura em que não é necessário ler a obra antes, pois ela é lida na hora, por quem estiver participando do encontro: “Escolhemos um conto ou capítulo de algum livro de uma escritora negra, levamos cópias do texto para distribuir para o público, sentamos em círculo, fazemos uma dinâmica para estimular a concentração. Em seguida, convidamos o público a fazer uma leitura coletiva em voz alta, cada um lendo um parágrafo, depois, trocamos impressões sobre o texto, e encerramos sempre falando um pouco sobre a importância de se ler e ter a acesso a obras de escritoras negras”, fala Carine Souza que, ao lado de Iara Moraes, Ketty Valencio e Juliane Sousa, montou o grupo.

“Na última edição do nosso clube, lemos dois contos do novo livro de Cidinha da Silva, Um Exu em Nova York, sendo um deles Maria Isabel, que fala da baixa expectativa de vida do povo negro. Depois de ler o conto, como de costume, levantamos algumas questões para provocar o debate, e uma delas era: ‘quantos aqui conhecem uma pessoa negra que morreu cedo?’. A partir daí, ouvimos muitos relatos tristes e com isso o grupo foi se reconhecendo, tomando consciência e se acolhendo no olhar. Depois partimos para a leitura de Farrina, um conto que fala de afeto, identidade, irmandade e amor entre mulheres negras, uma escolha estratégica que fizemos porque sabíamos que precisaríamos de algo que ajudasse amenizar a dor do último conto”, diz Carine, apontando também para uma seleção dos textos como uma forma de narrativa da cura pensada previamente pelas mediadoras.

“O encontro presencial é essencial para que haja uma aproximação com a leitura, é uma discussão sobre o gostar ou não da obra, indo além. Em muitas cidades os participantes dos encontros viraram amigos. O que achamos incrível. E com a queda das (grandes) redes (de livrarias) e a desvalorização do profissional livreiro, a opinião de parceiros de clube e mediadoras é fundamental na escolha de novos títulos para aquisição ou mesmo troca ou empréstimo em bibliotecas”, afirma Juliana Gomes, que, ao lado de Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, fundou o primeiro Leia Mulheres em São Paulo, inaugurando com isso uma rede que hoje agrega mais de 100 clubes de leitura espalhados por todo o Brasil.

Paulo Vitor, do recém-lançado clube de leitura Escritas Diversas (existe desde agosto de 2018 no Rio de Janeiro), focado em uma literatura de autores e autoras LGBTs, acredita na premissa da aglutinação de alteridades: “Esse movimento todo é muito potente! As trocas baseadas nos livros e nos debates vão nos fortalecendo. Beijo gay em novela não é nada perto do que produzimos de conhecimento, de arte. Estamos percebendo que, num mundo cada vez mais individualista e segregado, a união é a maior forma de resistência. Unir, debater, divulgar e acolher a diversidade é reforçar a prática do respeito e de um mundo mais empático”.

 

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Intervalo para parênteses pessoais e intransferíveis:

(Como uma das mediadoras do Leia Mulheres Recife, que, em 2018, completou três anos, sinto necessidade neste momento de um relato o menos institucional possível. Tendo isso dito, minha relação com a literatura sofreu um desvio radical por dois motivos. O primeiro: desde que percebemos, durante o próprio Leia Mulheres, que mesmo entre as escritoras, algumas eram sempre mais lidas que outras, fomos buscar textos que nos tirassem do lugar de conforto das grandes editoras, das autoras famosas ou da moda. Esse não é um gesto fácil. Comprar livros de editoras pequenas, que não estão nem nas livrarias, nem na Amazon, requer um esforço extra de entrar em contato direto com quem coloca a mão na massa. Mas entendendo que, ao menos no nosso grupo, havia uma intenção de estabelecermos outras práticas de consumo e contato com os livros, o esforço valeria (e vale!). O segundo motivo: o grupo do Leia Mulheres Recife no Facebook é um que aglutina mais de 1500 pessoas. Nas reuniões presenciais, no entanto, há um grupo flutuante e um outro mais ou menos fixo de mulheres (e alguns poucos homens, estranho...) que varia entre 15 e 20 pessoas (dependendo do livro, esse número pode aumentar). Vez em quando, no Facebook, alguém demanda por algum canal online, geralmente um grupo no Whatsapp, de discussão sobre literatura. Acho válido e importante que esses canais existam, que os booktubers, por exemplo, aqueçam o mercado editorial, mas – e esse é um estatuto de fé meu, e acho que seria igualmente o de Paulo Freire, se vivo estivesse –, interessa-me cada vez menos participar desse circuito que não seja o dos encontros presenciais. Explico: percebo que há pouquíssimo espaço para o choque de ideias nesses ambientes virtuais. Nas reuniões de 15 a 20 pessoas, nós podemos discordar, afetar, sermos afetadas, sem que isso se crie rupturas definitivas ou alijamento de alteridades. A diferença de visões de mundo está no cerne do pensamento crítico. Sem esse atrito, esse ruído, esse “pensamento do tremor” como diria o poeta e filósofo martinicano Édouard Glissant, a literatura (e o cinema, a música, as artes plásticas...) pode virar facilmente perfumaria.

Fim do intervalo para parênteses pessoais e intransferíveis.

Fora do circuito dos clubes de leitura, que muitas vezes acontecem em livrarias menores com espaços reservados para encontros justamente como uma tentativa de manter circulação de pessoas e possíveis consumidores dentro do ambiente, é importante notar também um esforço de intensificar trocas críticas em outras iniciativas que buscam ocupar os territórios ameaçados das livrarias. Uma dessas ações é o Mulheres que Escrevem, grupo no Rio de Janeiro coordenado por Estela Rosa, Natasha Silva, Seane Melo e Taís Bravo. “O grupo surgiu em 2015, depois de uma série de questionamentos sobre as condições tanto físicas quanto psicológicas que envolviam as mulheres escritoras, principalmente escritoras iniciantes”, diz Estela. “No segundo semestre de 2018, fomos convidadas por Heloísa Buarque de Hollanda para pensarmos uma residência no PACC - Laboratório da Palavra, na UFRJ. Essa oportunidade só reforçou o quanto é para nós fundamental estarmos juntas e produzirmos conteúdo crítico juntas. Nos encontros na (livraria) Blooks, os debates geravam pensamento crítico, saíamos de lá completamente afetadas e atravessadas pelas falas de todas aquelas mulheres comprometidas com o debate. Na UFRJ, pudemos focar na escrita de poesia contemporânea produzida por mulheres e, novamente, construímos pontes entre a escrita e o pensamento crítico. Escrevo esses relatos depois de três dias intensos de um curso produzido pelo Farol Estúdio em parceria com a Mulheres que Escrevem justamente sobre crítica literária feminista, ministrado pela Julia Raiz, escritora, tradutora e pesquisadora da UFPR. Mais encontros, mais elos, mais debates, mais construção de pensamento crítico.”

Mais do que uma forma de resistência feita a partir e com um pensamento feminista, o caso das ações promovidas pelo Mulheres que Escrevem, bem como a de clubes de leitura como as centenas de Leia Mulheres no país dizem respeito também a uma virada de modos de fazer esses encontros e, portanto, simultaneamente nos modos de ler e olhar para as diversas paisagens que se abrem com os livros. A leitura como lugar que requer a troca, o debate de ideias e, essencialmente, o encontro físico justo em um momento onde a “sociedade da transparência” se acostumou à relação palco-plateia das redes sociais sem cheiro, textura, temperatura e, claro, sem a diferença muito bem-limada pelos algoritmos, é uma prática que desafia o regime das coisas. Uma que se coloca em corpo-resistência a um projeto de país que pode, para frustração de todo pensamento freiriano, criar modelos de educação à distância para otimizar o conteúdo-depósito que será dado às alunas e alunos.

Estela Rosa e todas as demais participantes desse coletivo estão cientes desse papel: “Começamos com poucas mulheres e agora somos muitas, com nossas diferenças e semelhanças, trazendo à tona uma formação conjunta de espaços democráticos e ensaiando uma organização política possível. A presença física ajuda a construir afetos e laços e acho que foi assim que entendemos que nosso pensamento crítico pode ser criado de outra maneira, usando outras ferramentas que não estas, dadas pelo cânone branco masculino e heterossexual que nos foi imposto. Comprometer horas de nossas vidas ao encontro e ao debate é um ato político, não apenas escrever, mas também estarmos abertas à escuta e à leitura de outras mulheres”. 

As ações para que esses encontros se intensifiquem – e se tornem eles mesmos o caminho possível para a própria crise do mercado editorial – não são poucas. A poeta, tradutora e jornalista Stephanie Borges frequenta os circuitos sudestinos e elenca: “Em São Paulo, feiras como a Plana e a Miolo(s), com pequenos editores, zines, artistas independentes são um sucesso. A programação da Miolo(s) geralmente inclui debates com autores, lançamentos, são eventos que eu frequentava e continuam acontecendo. Criaram a Desvairada, que é uma feira só de livros de poesia, com debates, leituras, que inspirou duas feiras de poesia no Rio: a Terceira, organizada pela Juliana Travassos e pelo Santiago Perlingeiro, e a Feira no Cobogó, no Instituto Moreira Salles. Essas feiras são importantes não só pela possibilidade das pequenas editoras exporem seus trabalhos, alcançarem novos públicos – que já são leitores, mas não se interessam especialmente pelo trabalho de editoras pequenas –, mas porque possibilitam a venda direta, que é fundamental para sustentar esses projetos editoriais que apostam em novos autores brasileiros ou traduções inéditas”, relata Stephanie.

Somente no Rio de Janeiro, durante muito tempo não apenas a capital do país, mas afetivamente a capital das publicações literárias, as ações se multiplicam nos espaços menores. Stephanie, que participa desse circuito, relata: “Nas livrarias, o Leonardo Marona organiza o Poetas de dois mundos, que associa o lançamento de livros de poesia com uma leitura de vários poetas, e esse evento viabiliza que pequenos editores coloquem seus livros na Travessa. Recentemente, poetas e outras cidades tem vindo pro Rio para participar e isso é ótimo. Outro evento que ajuda o pessoal a ter acesso aos livros com preços mais acessíveis é a Feira do Subsolo, que sempre tem uma seleção de títulos com descontos, organizada no primeiro sábado de cada mês pelas livrarias Berinjela e Leonardo da Vinci, no centro do Rio”.

Os encontros promovidos por livrarias menores, por instituições como o Sesc (importante veículo de capilarização do debate para fora dos grandes centros), por ações que ainda conseguem ter subsídios de empresas que ainda apostam num certo “capital cultural” deverão ser, mais do que nunca, focos para onde as energias de quem acredita na literatura como construção de subjetividade – porque é pela e na subjetividade que vivemos e sobrevivemos – devem se concentrar. Em 2019, ano que inaugura uma temporada de incógnitas e temores sobre as possibilidades do devir crítico, para além de pensar sobre como a arte pode criar seus atalhos em espaços de ruínas, é urgente construir abrigos de con-vivência e contemplação das ideias. No meio das bombas? Sim, no meio das bombas.

 

>> Carol Almeida é crítica de cinema e quadrinhos, doutoranda em Comunicação (UFPE), foi editora-assistente do Pernambuco.

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