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Nota: este texto divide-se em três partes independentes, assim, o início e o final da leitura ficam a critério de cada um. Quando a fonte estiver em itálico, significa que Enrique Vila-Matas está falando. Eu conversei com o escritor, por e-mail, no final de fevereiro de 2018. Depois de cinco anos pesquisando a sua obra, pude trocar algumas impressões com ele a partir do lançamento, pela Companhia das Letras, de Mac e seu contratempo e da nova edição de Bartleby e Companhia. Enrique respondeu às minhas perguntas em uma madrugada de domingo. Sempre pendendo entre a ironia e a repetição de suas temáticas literárias, o mais interessante em sua fala, para mim, é o fato de que, aos 70 anos, ele sabe muito bem onde chegou. Destaco isso porque, após décadas questionando, em seus textos, a posição do escritor e a relação entre o anonimato e a fama, Enrique Vila-Matas tornou-se uma espécie de antagonista de si mesmo: estabelecido no papel de famoso escritor e leitor da contemporaneidade, porém, ainda em busca do discurso da literatura como arte menor. O narrador de Mac e seu contratempo afirma: “a repetição é o meu forte”. Esse é o tom que Vila-Matas escolheu como seu, a vontade constante em reproduzir narradores que operam na ordem do paradoxo entre a ficção e a realidade. A contradição “autor-narrador” alimenta a sua obra e ele repete-se, como escritor, por meio da problemática da identidade e da impostura. De seus mecanismos, no texto, fica a maneira como a subjetividade atravessa o pós-moderno. E como a temporalidade encontra o espaço e vice-versa. Sigo, então, essas pistas para pensar de que formas Enrique Vila-Matas continua a organizar a literatura contemporânea a partir de escolhas, às vezes, mambembes, cheias de buracos e espelhos pela metade. E, justo por isso, pela quebra, são alternativas que possibilitam repensar a literatura por meio do viés da pós-modernidade.

 

Fracasso e repetição

Em Mac e seu contratempo, o narrador, aos 60 anos, é o símbolo do grande leitor que resolve dedicar-se à criação literária. Um iniciático na escrita, mas, ao mesmo tempo, antigo em seu desejo pela literatura. O livro, lançado em 2017, chega ao Brasil, em setembro, e figura como a primeira publicação inédita do escritor após o fim da Cosac Naify, sua antiga casa editorial por aqui. Vila-Matas, então, volta às prateleiras brasileiras por meio da maior editora do país, a Companhia das Letras, consolidando, assim, a sua obra em um sistema de distribuição mainstream pelo território latino-americano.

Penso em Mac como um narrador que se firma na posição de exímio leitor porque é desse mesmo lugar que Vila-Matas também fala, em especial, com relação aos países deste lado do Oceano Atlântico. Desde o primeiro momento, minha relação com a América-Latina foi, misteriosamente, maravilhosa. Já tratei de explicá-la de cem formas distintas, mas não cheguei em nenhuma certeza, salvo uma: o melhor será que continue assim. Dessa maneira, Mac e seu contratempo abarca a característica do leitor que efetua um tipo de apropriação da literatura para que, então, a reescreva e a repita à sua maneira. E nesse processo muito será perdido e, em paralelo, muito também será recriado. Um tipo de gangorra criativa que sempre sustenta a obra vilamatasiana.

Nos seus encontros com Sanchéz, famoso escritor barcelonês, Mac encontra a oportunidade de aplicar esse tipo de revisão da literatura. Na sua juventude, o narrador leu o romance de Sanchéz, intitulado Walter e seu contratempo, e foi acometido por sensações confusas que o levaram a não concluir a leitura. Algo estava em falta, no livro, e Mac será o responsável por rastrear essa ausência e, de certo modo, revertê-la.

Todos os equipamentos de linguagem e de temática que regem a obra de Enrique Vila-Matas estão presentes no livro. Entre eles: a ideia de fracasso, do desaparecimento, de alguém que não consegue escrever até que, enfim, consegue e da literatura como trampolim para algo minoritário, da ordem dos que não pertencem ao todo. Nos últimos anos, Vila-Matas intercala os seus livros entre as questões das artes visuais contemporâneas – como Não há lugar para a lógica em Kassel – e voltas atentas ao seu projeto literário, ou seja, as contradições do sujeito pós-moderno em face da literatura como doença e cura, insistência e desistência.

Dessa maneira, Mac e seu contratempo, como relançamento da obra, no Brasil, funciona de forma interessante para os novos leitores, aqueles que ainda não conhecem as suas repetições muito de perto. Eu lembrei a figura de Vila-Matas como leitor dos latino-americanos pois, de certo modo, esse projeto literário que se encontra em Mac, por exemplo, faz parte das aproximações do escritor barcelonês de nomes conhecidos em nosso continente. A ver: Alejandro Zambra, Roberto Bolaño, Juan Carlos Onetti, Jorge Luis Borges, Alan Pauls, Rodrigo Fresán, entre outros.

Assim, os romances, contos e ensaios de Vila-Matas convergem para uma ideia de literatura na qual o pertencimento é movível e a memória tem a presença do mecanismo de repetição. Distante do projeto literário de seus conterrâneos espanhóis, como o madrileno Javier Marías, Vila-Matas pensa a organização de sua escrita de maneira parecida com Mac – a partir do signo revisionista, do que vai ser posto em dúvida e passível de outras soluções, sempre atento ao texto e às leituras anteriores.

A presença da intertextualidade e da memória da biblioteca que norteia a obra de Enrique Vila-Matas é um dos assuntos mais explorados por pesquisadores e críticos.Porque, afinal, falar da obra do barcelonês é falar da obra de tantos outros escritores, uma espécie de “refazenda” do pensamento literário ocidental; “o meu forte é a repetição”, diria Mac, mais uma vez. Eu intuo que a intertextualidade se converteu no eixo de minha obra. Existe um trabalho recente, muito impressionante, de Cristian Crusat (escritor), no qual ele discorre sobre esse tema e diz que Georges Perec, em 1965, já havia percebido, e assim disse, depois de escrever As coisas, que a literatura encaminhava-se para uma “arte citacional”, a qual, em sua opinião, representava um certo progresso (se é que em literatura pode-se falar de progresso), posto que tomava como ponto de partida aquilo que havia representado uma conquista ou um achado para nossos antecessores, quer dizer, ele apropriava-se do que parecia mais conveniente dentro daquele repertório disponível.

Vila-Matas fala de um ponto de vista no qual a intertextualidade apresenta-se como um encontro valioso com aquilo que antes foi conquistado, algo parecido à caça ao tesouro, porém, esse tesouro, ao ser descoberto, precisa de um tipo de seleção do que serve, ao escritor, como “mais conveniente”. No campo da teoria literária, desde Julia Kristeva, passando por Roland Barthes e Tiphaine Saymoault, o conceito do que é a intertextualidade passa pela redistribuição da língua nos dispositivos textuais. Como fruto do pós-estruturalismo, o texto deve ser o espaço absoluto para a literatura e, ato contínuo, para esse tipo de “arte”, como vista por Perec.

Para a teórica brasileira Tania Franco Carvalhal, em Intertextualidade: a migração de um conceito, a trama do texto literário é onde se perde e se recupera, entre movimentos de alternância de esquecimento e memória, a manifestação da intertextualidade. Dessa maneira, quando Vila-Matas coloca Mac para reler e reescrever Walter e seu contratempo, por exemplo, existe uma vontade de estampar também, na ficção, os seus mecanismos como autor que busca as conquistas mais adequadas para si. Entre rupturas e prolongamentos, novas interpretações de leitura tornam a escrita lugar oscilante.

Dessa maneira, o processo intertextual também traz marca de fracasso e temporalidade, pois existe uma ideia de incompletude que atravessa a poética da memória literária e a torna o quebra-cabeça que nunca será completado. Assim, o sujeito ou o narrador esconde-se numa espécie de labirinto de espelhos no qual, além de ser eu, também se é o outro. Walter e seu contratempo, de Sanchéz, tem como protagonista alguém que manuseia marionetes. De acordo com o narrador, no imaginário popular, a profissão de ventrículo está ligada ao horror. E, no livro, Walter é também criminoso. Ato contínuo, analisar um projeto literário, fundado em fragmentos de outras vozes narrativas, a partir da metáfora da marionete e do crime, reflete, de certa maneira, um mergulho na narrativa do impostor.

Entre homem e boneco, alguém será o trapaceiro, assim como, no processo do intertexto, sempre existirá a iminência da falsa legitimidade. Nesse aspecto, tanto o narrador quanto Walter tornam-se sujeitos da pós-modernidade pois são colocados, por Vila-Matas, em certo tipo de entre-lugar. Ambos não são nem uma coisa nem outra, oscilando entre a posição de escritor e a de imobiliário, ou a de marionete e criminoso. Desse modo, Mac e seu contratempo, como outros livros do escritor catalão, é mapa para compreender os caminhos que o seu pensamento literário formou, nos últimos 40 anos.

De acordo com Silvina Rodrigues Lopes, em A literatura do atrito, existe um desejo e uma saudade que marcam o presente como tempo do mistério. Nesse recorte, quando se empreende a escrita, deve-se responder ao mundo, empreender o testemunho para acolher o “irreconhecível do nosso conhecimento”. Assim, a citação, segundo a pesquisadora, é uma forma de resposta, tarefa vertiginosa que demonstra nosso pertencimento à história, mas não à linearidade de nossa participação. O uso da citação, por fim, é uma partilha de vozes cuja opacidade nos toca e incita. Dessa maneira, a intertextualidade, na obra de Enrique Vila-Matas, também faz parte de uma marcação da historicidade e, por consequência, da espacialidade.

Assim, o espaço de Mac e seu contratempo é caracterizado, como em outros romances do autor, pelas camadas da intertextualidade e por uma atmosfera onírica, cheia de lembranças de infância e de paixões, relações, no geral, que ainda atingem os afetos do narrador. No Bairro do El Coyote, em Barcelona, Mac performa a busca pela literatura por meio de seu diário, uma solução criativa comum na história da literatura. Assim como as anotações de Vila-Matas – intituladas de Dietario Voluble e sem tradução no Brasil – as de Mac também pairam sob uma impressão de morte e de fantasmagoria. A epígrafe do livro é do artista Joe Brainard e traz as palavras: esqueleto, vagabundo e fantasma – o resumo, me parece, do que se espera do sujeito pós-moderno e de seus desdobramentos criativos, sociais e econômicos.

De certa maneira, semelhante a Doutor Pasavento, O mal de Montano e Bartleby e companhia, Mac e seu contratempo também está fundado em um tipo de fracasso que não se encontra apenas nos mecanismos intertextuais. Trata-se da ruína do literário, de narradores que encaram a escrita como patologia e, ao mesmo tempo, como possibilidade de cura. Assim, o romance não é somente ode à “arte da repetição”, mas também catalisador da vontade em estabelecê-la como chave modificadora da literatura. Com isso posto, o literário torna-se, de fato, menor. Uma expressão artística que se pretende reprodução não pode almejar cânones ou discursos dominantes. Enrique Vila-Matas, mais uma vez, reforça a sua escolha pelas margens, da linguagem literária, em Mac e seu contratempo.

Desse modo, fracasso e repetição são como troféus para o narrador. Mac entra para a lista de personagens, na obra de Vila-Matas, que se vê à sombra do escritor suíço Robert Walser, um sujeito para o qual o fracasso era, na verdade, modo de sobrevivência, verdade que não deveria ser exaltada ou excluída. Mac e seu contratempo é o produto, enfim, da arte da repetição. Resultado bastante fiel à obra de Enrique Vila-Matas e, justo por isso, o romance coloca o leitor na posição de quem controla as marionetes, fazendo da leitura movimento estritamente voluntário e liberto no que diz respeito à continuação daquele enunciado.

 

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Perder territórios

A ideia de espaço, dentro da obra de Enrique Vila-Matas, faz parte não só da ordem da narrativa descritiva – muito presente em novelas realistas, por exemplo e em textos publicados antes dos anos 1970 – mas, sobretudo, dialoga com o pós-estruturalismo no que diz respeito ao discurso, a uma teoria da especialidade que surge por meio da linguagem. Na teoria da literatura, de acordo com Luís Alberto Brandão, em Teorias do espaço literário, a temática espacial aparece como sistema interpretativo, modelo de leitura e orientação epistemológica a partir do final da década de 1960, início da década de 1970. Pós-estruturalismo, a questão do espaço está associada à desconstrução, conceito que denota modo de leitura, estratégia política e cultural, e não teoria, conforme assinalado pelo pesquisador. Nesse recorte, nomes como Gilles Deleuze, Michael Foucault e Jacques Derrida formam a base do pensamento para observar o espaço sob o prisma do efeito da diferença.

Derrida, em Gramatologia, afirma que o conceito pretende um tipo de reorganização do pensamento ocidental. A estratégia evoca ações contraditórias que, em certo aspecto, desmistifiquem o sistema filosófico, ideológico, político dominante e decomponham a metafísica ocidental. De maneira parecida, funciona o discurso da espacialidade na obra de Vila-Matas. Importante frisar os nortes pelos quais a desconstrução opera, pois, a obra do escritor barcelonês tem muito de sua base nessa ideia do fragmento, do sistema que se pretende aos pedaços. E, a partir dessa chave, pode-se começar uma linha de pensamento acerca de como se dá o espaço em seus contos, ensaios e romances.

A partir da desconstrução, essa estrutura – do que se é decomposto – oferece a brecha para reordenações do espaço como discurso. Não basta a Paris de Marcel Proust, nem a Espanha quixotesca, ou o México novelista de Sergio Pitol. O que Vila-Matas deseja do espaço literário é o que se oculta entre a página e o seu corpo, ou seja, entre um falso registro e a opção por desmenti-lo. Desmontar a literatura é resultado da travessia que ávidos leitores, como Vila-Matas, empreendem. Então, quando chega o penoso momento de voltar, arruma-se maneiras de alterar a rota já percorrida, reescrevê-la e revisitá-la.

Não foi diferente em Mac e seu contratempo, último romance lançado pelo escritor. O Bairro de El Coyote, em Barcelona, é um dos principais espaços que figuram na narrativa, mas é intercalado por fluxos do pensamento que o levam a espaços mais específicos de sua época escolar ou à livraria na qual estabelece diálogos com seu vizinho, o escritor Sanchéz. Mac, o narrador, trabalhou com imóveis até o dia em que resolveu dedicar-se à literatura com mais atenção. Inicia um diário e, no encontro com o seu vizinho decide praticar movimentos de reestruturação narrativa em uma obra chamada Walter e seu contratempo.

Assim, alguns elementos espaciais presentes em obras anteriores como quartos e janelas – espaços micros que formam um discurso voltado para a negação do espaço absoluto – também figuram na voz de Mac. Não faz muito tempo, eu estive pensando no contraste entre a expansão constante do universo e a vida, tão escassa, na minha casa moribunda, ao sul do nada. Digo de outro modo: eu estive pensando no contraste entre o grande espetáculo do espaço deslumbrante e o lúgubre e delimitado espaço, por exemplo, dos territórios – sempre mentais – que piso em meus livros. Em busca de alguma revelação, dediquei um tempo a refletir sobre o contraste, até que vi: eu não encontraria nada aí. Eu vi que era como o álcool, onde você iria até o fundo da garrafa e esperava, depois, encontrar algo nesse fundo. Mas não encontrava nada, salvo o desespero. O desespero de seguir em um território mental, o de sempre – o que é limitado em temas e obsessões – o espaço mental de todos os meus livros, um território que, em Mac, eu administrei com intenções de humor, talvez, porque me lembrei que a risada era a melhor arma contra os demônios. Nicolas Chamfort a chamava de “a cortesia do desespero”.

O humor e a ironia estão em constância na obra de Vila-Matas e Mac os absorve por meio de elementos como a cotidiana leitura de seu horóscopo. O personagem afirma que, não importa se as previsões não estão conectadas com a sua vida, ele dará um jeito de organizá-las por meio de sua interpretação e, ato contínuo, de sua ficção. Parece importante sublinhar que o espaço do romance, um pouco mais leve em sua temática quando comparado a outros como Doutor Pasavento e O mal de Montano, tenha como cidade principal Barcelona.

Na obra do escritor, o espaço surge pelos seguimentos de um sujeito deslocado, desassociado de seu território, durante a juventude, em busca de novos parâmetros para o seu corpo social e cultural. No franquismo, Vila-Matas morou em Paris, autoexilado, na água furtada de Marguerite Duras. Paris não tem fim é o livro no qual essas memórias aparecem com mais detalhes. Existe uma preocupação com o deslocamento contínuo que perpassa vários de seus textos, uma insistência no caminhar, pelos territórios mentais, que o levam a reconfigurar a geografia e, então, perdê-la.

Não à toa, o elemento do desvio surge como motor do seu discurso espacial. Porém, quando se trata de sua cidade de origem, Barcelona, ou de outras cidades espanholas, seus narradores adotam um tom que varia entre saudosista, ferino e onírico. No geral, a sua relação com a Espanha é mediada por certa angústia que, no texto, acaba disfarçada por ironias. Além disso, questões afetivas – relação pai e filho, mãe e filho, marido e mulher – aparecem com mais frequência em terra espanhola. Dessa forma, existe uma organização das questões subjetivas por meio da espacialidade de narradores como Mac.

Parece mais fácil para Vila-Matas administrar intenções de humor nesse espaço, por mais que ele sempre queira deixá-lo, em algum nível – seja na ficção, ou no real, com tantas viagens e conferências que o escritor empreende ao redor do mundo. Assim, as tensões entre Mac, a sua mulher e a noiva abandonada, por exemplo, também parecem mais pertinentes em uma narrativa cujo espaço do bairro é tão importante. De certa maneira, desenvolver relações “em casa” é mais recorrente para os narradores vilamatasianos.

Segundo Yi-Fu Tuan, geógrafo sino-americano que compreende o espaço a partir da perspectiva da experiência, existe uma diferenciação entre os termos lugar e espaço. O primeiro, denota segurança; o segundo, liberdade. Dessa forma, Mac e seu contratempo é um romance em que o lugar predomina e faz com que o narrador não se renda aos delírios do abismo, bastante conhecidos pelos leitores de Enrique Vila-Matas.

Em termos de território e ironia, de fato, o romance permanece mais estável, com menos saídas espaciais mirabolantes decorrentes de caminhadas imaginárias por parte do narrador. Porém, a ideia da espacialidade como elemento do discurso continua lá. No trecho em que Mac vai ao Bar Treno, espaço no qual questões sobre a indústria cultural e a venda de best-sellers são postas em pauta, pelos personagens, pode-se observar a digressão do território mental do narrador como guia. A iluminação horrível que não o impede de entrar no bar é um dos pontos que poderiam passar despercebidos, mas que acabam como de extrema importância para a cartografia proposta por Vila-Matas.

Por fim, a importância do micro, dos pequenos detalhes que transformam o espaço também em circunstância para a desconstrução, fazem de Mac e seu contratempo um romance no qual Vila-Matas parece pressentir certa vertigem diferente. O abismo distancia-se, a paisagem fica menos rarefeita. A vontade de enaltecer o lugar e o aspecto da segurança, para que, diante desse território um tanto quanto delimitado, aquele escritor, em início de carreira, possa desenvolver o seu projeto literário, ironicamente, com mais liberdade. Com menos vontade de cair e mais atenção ao espaço como memória da repetição.

 

Pensamento sem imagem

Em Crítica e clínica, Gilles Deleuze dedica um texto a Bartleby, o escrivão, conto clássico do escritor norte-americano Herman Mellvile. Deleuze o chamou de Bartleby, ou a fórmula pois, segundo o filósofo, a novela de Melville está posta a partir de um método que nega toda e qualquer relação com a linguagem. Ele escreve que as palavras proferidas por Bartleby – “eu preferiria não” – cavam “na língua uma espécie de língua estrangeira” e confrontam “toda a linguagem com o silêncio” fazendo-a cair no abismo desse silêncio. Desse modo, Bartleby é o símbolo de uma negação da linguagem que pretende automatizada ou organizada pelo sistema.

Bartleby e companhia, livro lançando por Enrique Vila-Matas, na Espanha, em 2000, marca o início de uma trilogia – formada, na sequência, por O mal de Montano e Doutor Pasavento – na qual a literatura aproxima-se da ideia do fim, e o escritor, da premissa deleuziana do sujeito que se torna, por meio da escrita, o médico do mundo. Nessa trilogia, existe morte e literatura. Os três são livros escritos depois do “fim da literatura”, como afirmado por Maurice Blanchot, e possuem a ideia de devolvê-la ao mundo. Em Bartleby e companhia, por exemplo, o ato de escrever sobre escritores que haviam deixado de escrever permitiu que eu seguisse escrevendo (entretanto, não foi um ato terapêutico, mas, sim, instintivo). Em O mal de Montano, escrevi sobre alguém que encarna a literatura e, assim, de um modo quixotesco, eu tento salvá-la. Em Doutor Pasavento, alguém estava investigando sobre o desaparecimento do sujeito, no Ocidente, e dedicava todas as suas forças, através da busca dos vestígios de seu herói moral, Robert Walser, a tentar ele mesmo desaparecer.

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Bartleby e companhia foi escolhido como primeiro relançamento da obra do escritor barcelonês, no Brasil, pela Companhia das Letras. A escolha faz sentido do ponto de vista cronológico da obra de Vila-Matas, pois o livro, como começo de percurso, não só oferece um bom panorama dos assuntos que serão tratados nas próximas obras, mas também apresenta um escritor para o qual o projeto literário estava em formação. Dessa maneira, aos possíveis novos leitores, será curioso acessar a escrita de Vila-Matas no início de seus 50 anos, quando a sua escalada como nome reconhecido ainda estava em vias de estabelecer-se no meio literário contemporâneo.

No livro, o narrador decide por organizar uma espécie de compêndio de escritores do não, aqueles que, assim como o personagem de Herman Melville, preferem não fazer, não escrever, em suma, não existir. O narrador, corcunda solitário, faz sua seleção, no formato de notas, dos artistas que abandonaram a escrita. O alerta que visa a presença da “arte da negação”, na literatura contemporânea, continua nos próximos livros, nos quais a questão literária corta os narradores, oscilando entre salvação e danação. A literatura como doença é o mote de O mal de Montano, livro no qual os protagonistas são pai e filho, esse último, afetado pela literatura e a constante falta de silêncio que a acompanha. Em ambas as obras, Enrique Vila-Matas desenvolve as múltiplas vozes intertextuais e o espaço que intercala visível e invisível, a possibilidade do abismo sempre à espreita.

Nas primeiras páginas de Bartleby e companhia, o narrador explica no que consiste essa seleção e como surgiu a sua vontade em efetuá-la: “Já faz tempo que venho rastreando o amplo espectro da síndrome de Bartleby na literatura, já faz tempo que estudo a doença, o mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz com que certos criadores, mesmo tendo consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever; ou então escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, ainda, após retomarem sem problemas uma obra em andamento, fiquem, um dia, literalmente, paralisados para sempre”. Assim, esse narrador, com ganas de enciclopédico, procura trazer à tona escritores que foram contra um sistema que anseia, em última instância, pela compulsão ao trabalho.

Dessa forma, o livro também funciona como espécie de ode ao sujeito pós-moderno que se vê cooptado pelas obrigações neoliberais, na escrita, e prefere não as absorver. Nesse outro trecho, o narrador, ao concluir as suas notas, repensa sobre a ideia de essência que acompanhou a filosofia grega até Platão: algo que tem função central e opõe-se ao transitório. Para ele, não existe uma literatura essencial, pelo contrário, deve-se fugir de tal premissa. “Não pode existir uma essência destas notas, como tampouco existe uma essência da literatura, porque a essência de qualquer texto consiste precisamente em fugir de toda determinação essencial, de toda afirmação que o estabilize ou realize. Como diz Blanchot, a essência da literatura nunca está aqui, é preciso sempre encontrá-la ou inventá-la novamente.”

Assim, a literatura é um espaço que sempre deve ser perseguido ou inventado, como a paisagem, afinal, texto é paisagem e ambos são dignos de deslocamentos e de busca. Desde Bartleby e companhia, Vila-Matas desloca o texto literário de um tipo de establishment e o coloca no espaço da perseguição. A literatura, para o escritor, é um assustador labirinto sem saída que (sempre) vale a pena frequentar. De meus livros, Bartleby é aquele teve maior influência na literatura estadunidense, por exemplo, e se eu citar apenas essa é porque me parece quase heroico que eu tenha conseguido penetrar em um mundo tão satisfeito de si mesmo e tão pouco aberto às literaturas de outros idiomas que não sejam o inglês. Bartleby e companhia cria uma espécie de Literatura do Não que, para mim, nasce da desobediência do personagem de Melville e da obediência de Robert Walser: ambas atitudes são a mesma coisa, representam uma rescisão, uma ruptura total com todo; uma falta original os afasta do charlatanismo daqueles que buscam por comunicar-se, e essa falta é precisamente a sua riqueza.

A observação de Vila-Matas acaba por nos levar, novamente, ao texto de Deleuze, Bartleby, a fórmula. Todos esses escritores citados pelo narrador, em certo grau, também demonstram uma vontade de minar a linguagem. A ruptura total com o todo e a presença estranha do indivíduo fantasma, presentes em Bartleby, o escrivão, rondam o livro de Vila-Matas e, em última instância, o norteiam. Desse modo, a lembrança de Walser, escritor para o qual desaparecimento e negação do sistema foram direções importantes no que diz respeito a pensar um projeto literário, faz muito sentido. Mesmo não desistindo da escrita – pelo contrário, Walser escreveu bastante, nos seus chamados “microgramas” constam mais de 3 mil laudas –, o suíço organizou a literatura sob a perspectiva dos que negam as normatizações e as grandes verdades perpetuadas pelo sistema dominante vigente.

Olalla Castro Hernández, pesquisadora da obra de Enrique Vila-Matas, na Universidade de Granada, destrincha a obra do escritor como ponto de tensão entre a modernidade e a pós-modernidade. Em sua definição do sujeito pós-moderno, ela afirma características de “racionalidade precária e instável”, um sujeito “múltiplo, esquizoide, de consciência débil, aberta à alteridade, permeável”, alguém sempre “assediado pelas pulsões e desejos” e atravessado pelo poder. A ideia do fator bartleby, nesse cenário, aparece como resistência. Não se trata, exatamente, de um afastamento do que se entende como pós-moderno ou dos limiares entre esse recorte e o anterior (a modernidade). Afinal, o narrador de Melville não se encaixaria, com perfeição, em nenhum dos dois “modelos” de sujeito. O que se vê no livro de Vila-Matas, assim como em muitas de suas narrativas, são personagens fictícios e reais que não apenas abarcam tais atributos, mas os questionam e os levam a lugares de extrema negação pois apenas assim poderão, talvez, escrever.

Para o narrador de Bartleby e companhia, existe uma vontade de formatar pensamentos sem imagens, assim como para nomes como Robert Walser, Juan Rulfo e o próprio Herman Melville. Diferente do que Georges Didi-Huberman afirma no texto Quando as imagens tocam o real, esses sujeitos não pretendem encontrar, na imagem ou, mesmo na linguagem literária, rastros de outros tempos. A imagem não será uma opção de conhecimento, não irá representar pontos de curvas históricos ou estéticos. Com isso, eu quero dizer que essas figuras cuja escrita torna-se sinônimo de negação e apagamento não possuem aproximações rígidas relacionadas às temporalidades ou às funções que promovem o incêndio de que fala Didi-Huberman em seu texto.

Como lembrado por Enrique Vila-Matas, a riqueza dos bartlebys está justo nessa ruptura que não é da ordem da memória como chama ou como cinza, mas, sim, do processo no qual a linguagem deve ser renunciada. Não existe incêndio porque, em último nível, não se tem o que queimar. Assim, Bartleby e companhia, por um lado, é o livro no qual a ideia de desaparecimento torna-se até mais extrema do que em Doutor Pasavento, porque nele está posta a perpetuação de escritores que, como Bartleby, possuem o ímpeto de transgredir a própria língua e fundar, no interior dela, uma outra. E, isso só me parece possível por meio de desassociação extrema entre ações e registro – de imagem ou de palavras; de sujeito e de espaço.

Em Bartleby e companhia está um tipo de “marco zero” do que Enrique Vila-Matas chama de a arte de desaparecer, afinal, tornar-se fantasma, zumbi, cadáver, vagabundo ou esqueleto requer método extenso que passa, no primeiro momento, pela negação não só direcionada aos patrões que representam o poder do capital ou o poder da literatura. Esse método passa, sobretudo, pela renúncia de algo muito anterior, de uma maneira de organizar o mundo e a escrita que já não funciona mais e precisa ser eliminada, ceifada e desconhecida para que, assim, outra memória do literário possa surgir e, posteriormente, ser submetida à negação mais uma vez e de novo.

 

* Priscilla Campos é jornalista e mestra em Teoria Literária (UFPE).

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