Poetas da CDD11 A

Jonathan Híbrido, Anahyde Muniz, Anna Beatriz Candido, Ana Leticia Candido, Cícero Landes, Wellington França, Vivi Salles e Rosalina Brito: eis os poetas que organizam o sarau Poesia de Esquina 

 

 

 

Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência eu sinto medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido a tiros de metralhadora
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela
O pobre é humilhado, esculachado na favela
Já não aguento mais essa onda de violência
Só peço à autoridade um pouco mais de competência
(Rap da Felicidade, Cidinho e Doca)


No Rio de Janeiro, a década de 1990 foi marcada por uma série de massacres policiais, tendo como vítimas, principalmente, jovens pretos e pobres. O primeiro desses massacres foi a Chacina de Acari (1990), seguida pelas Chacinas da Candelária e de Vigário Geral (ambas de 1993). Ao mesmo tempo, veículos de comunicação passaram a associar a juventude das favelas ao tráfico de drogas e à violência urbana.

Naquela década, ampliou-se também o Estado penal, por meio do encarceramento em massa de uma população preta e pobre. Tal política, assumida publicamente como de enfrentamento ao crime organizado, necessitava de construções simbólicas sólidas para legitimar seus números inaceitáveis sob o ponto de vista do Estado de direito. Todo esse imaginário de violência operava na construção de inimigos que precisariam ser urgentemente combatidos.

Como um meio de produzir respostas a esses discursos criminalizantes, a cena cultural das favelas e periferias cariocas experimentou uma imensa produção de novas narrativas. Foi nesse período que o funk, mesmo com a imensa perseguição da opinião pública e da imprensa comercial, afirmou-se como a grande expressão de um discurso sobre a cidade, construído a partir da favela.

Em 1995, uma dupla de MCs ganhou o país com o seu Rap da felicidade, ressignificando o lugar ocupado pela Cidade de Deus no mapa simbólico do Rio de Janeiro. Cidinho e Doca cantavam os versos que se tornariam uma espécie de cartão-postal do movimento funk: “Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci / É! / E poder me orgulhar / E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.

Dois anos depois da explosão do Rap da felicidade, um escritor da mesma favela lançava seu primeiro romance, Cidade de Deus, um painel das transformações sociais pelas quais passou a região desde a década de 1960. Saudado pela crítica como uma das maiores obras da literatura brasileira contemporânea, o romance de Paulo Lins foi baseado em ‘histórias reais’. Grande parte do material utilizado para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos – entre 1986 e 1993 – em que o autor trabalhou como assistente de Alba Zaluar em uma longa pesquisa antropológica sobre a criminalidade no Rio de Janeiro. Paulo era estudante do curso de Letras e se dedicava à poesia. Mas ele vinha do samba, é autor de alguns sambas-enredo para blocos de Carnaval. Em entrevista de Heloísa Buarque de Hollanda, ele conta que foi através do samba que acabou conhecendo a “bandidagem toda”, o que ajudou bastante nas pesquisas.

Cidinho, Doca e Paulo Lins, três “crias da CDD”, tematizaram em suas obras as alegrias e tristezas que caminham lado a lado nas favelas cariocas. Para isso, Paulo Lins aliou uma apurada pesquisa de campo às suas próprias vivências no território. Escrever sobre a celebração de duas décadas da estreia de seu romance poderia implicar em seguir um roteiro de praxe: entrevista com o autor, dados biográficos, perguntas sobre o impacto do livro em sua carreira e, por fim, as costumeiras aspas de um punhado de grandes nomes tecendo generosos elogios ao texto.

No entanto, diante da importância da obra e de tudo que já foi dito e repetido sobre ela, seria pouco produtivo seguir por esse caminho. Tomando o livro de Paulo Lins e toda repercussão gerada a partir dele como pontos de partida, interessa aqui pensarmos o Rio de Janeiro visto a partir da Cidade de Deus, 20 anos depois, com novos atores e outras narrativas em cena.

Antonio Candido enfatizou em seus trabalhos a importância da abordagem dos fatos históricos, das condições sociais e dos elementos políticos na construção e na análise do texto literário. Seus estudos procuraram focalizar vários níveis de correlação entre literatura e sociedade, evitando o ponto de vista que ele considerava mais usual: o paralelístico. Para Antonio Candido, seria necessário mostrar, de um lado, os aspectos sociais e, de outro, suas ocorrências nas obras, sem chegar ao conhecimento de uma efetiva interpenetração. Diversos críticos literários se dedicaram a pensar o livro de Paulo Lins sob essa ótica. O texto mais conhecido de todos é, certamente, o de Roberto Schwarz – um dos maiores entusiastas da obra –, publicado em seu livro Sequências brasileiras.

Cidade de Deus realizou uma operação de mão dupla: inscreveu o território dentro da obra ao mesmo tempo em que a obra foi inscrita dentro do território. Em 2002, como é amplamente sabido, o romance foi transformado em um filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles e Katia Lund. O longa-metragem rapidamente se transformou em um dos maiores fenômenos do cinema nacional. O filme experimentou também enorme sucesso em sua carreira internacional, com indicações ao Oscar em quatro categorias: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição.

Desde então, tornou-se praticamente impossível pensar a Cidade de Deus sem a sombra de cada uma das histórias narradas por Paulo Lins, sejam elas intermediadas pelo livro ou pelas impactantes cenas do filme. Mas a recíproca, infelizmente, também é verdadeira (ou ao menos deveria ser): é impossível pensar nas memórias evocadas pelo escritor ignorando que a Cidade de Deus segue como um território alvo da violação dos direitos mais básicos.

NEOFAVELA

“Poesia, minha tia, ilumine as certezas dos homens e os tons de minhas palavras. É que arrisco a prosa mesmo com balas atravessando os fonemas. É o verbo, aquele que é maior que o seu tamanho, que diz, faz e acontece. Aqui ele cambaleia baleado. Dito por bocas sem dentes e olhares cariados, nos conchavos de becos, nas decisões de morte. A areia move-se nos fundos dos mares. A ausência de sol escurece mesmo as matas. O líquido-morango do sorvete mela as mãos. A palavra nasce no pensamento, desprende-se dos lábios adquirindo alma nos ouvidos, e às vezes essa magia sonora não salta à boca porque é engolida a seco. Massacrada no estômago com arroz e feijão a quase palavra é defecada ao invés de falada. Falha a fala. Fala a bala.” (Cidade de Deus, 1ª edição, p. 23)

Se ao tentarmos construir uma arqueologia, no sentido de Michel Foucault, estamos sempre diante do desafio de unir traços de coisas sobreviventes, necessariamente heterogêneas e anacrônicas, oriundas de lugares separados e de tempos desunidos por lacunas, a escolha de Paulo Lins em montar os vestígios de seu arquivo através do processo de escrita de um romance foi extremamente bem-sucedida. Longe do exotismo ou do sadismo de muitos trabalhos de tema semelhante, a forma como ele articulou as diferentes versões das histórias que circulavam no território – muitas delas conflitantes entre si – impressiona pela imensa sensação de veracidade que ainda é capaz de transmitir.

O grande mérito do texto de Paulo Lins é justamente seu caráter lacunar, fragmentado e assimétrico. O cotidiano posto em discurso proporciona uma experiência de leitura por vezes aflitiva, oriunda de uma constante tensão entre a autonomia literária da obra de ficção e a ultrapassagem de todos esses limites. O resultado, certamente, é fruto não apenas de uma imensa familiaridade do autor com o território abordado, mas por um complexo trabalho de escrita que opera dentro da própria linguagem. Nesse sentido, mesmo que o pacto literário entre autor e leitor seja outro, a leitura do romance soa como a de um ótimo trabalho etnográfico.

Para indicar uma mudança radical nas formas de se viver o território, Paulo Lins fala em uma “neofavela”, por oposição à favela em acepção antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem – agora fortemente influenciada pela guerra entre traficantes de droga e pela violência e corrupção da polícia. A partir da década de 1980, houve uma mudança significativa na conjuntura da cidade. A inserção da cocaína no varejo de drogas ilícitas impactou significativamente o modelo de vendas, aumentando rendimentos e provocando um crescente armamento entre os envolvidos nesse comércio.

A violência gerada pelos constantes enfrentamentos entre grupos armados e pelas operações policiais vem causando, ao longo das décadas, efeitos muito perversos na vida dos moradores. A escolha feita pelo Estado, em relação a um suposto combate ao “crime organizado” nas favelas, tem provocado o acirramento da batalha armada que criminaliza e despreza uma população de quase 25% do município do Rio de Janeiro, sem nenhum resultado efetivo. Afinal, como bem definiu MV Bill, “na favela não existem árvores que dão fuzil nem plantação de coca. A força do tráfico está fora dos morros”.

Quem acompanha a trajetória do rapper, ator, escritor e ativista MV Bill sabe que, assim como muitos funkeiros, ele também já foi acusado de fazer apologia ao crime por tratar desse universo em suas produções. Nascido e criado na Cidade de Deus, Bill, cujo MV significa “Mensageiro da Verdade”, marcou seu nome na música carioca ao cantar a história de um soldado do tráfico.

No videoclipe de Soldado do morro, música do álbum Traficando informação, MV Bill aparece cantando em primeira pessoa, torso nu, cordão de ouro no pescoço e uma arma pendurada no ombro. A produção traz profundos diálogos tanto com alguns “proibidões”, como também com algumas canções do “consciente”, ambos subgêneros do funk carioca. A escolha de discorrer sobre a violência e o mundo do crime a partir do ponto de vista dos sujeitos que se tornaram “bandidos”, mas cujas trajetórias de vida não se limitam a essa identidade, costuma encontrar recepções muito negativas na opinião pública.

No geral, essas canções ressaltam a “vida no crime” como uma “escolha ruim”, assombrada pela morte premente. Mas o incômodo costuma se dar justamente por elas não retratarem esses sujeitos de maneira essencialista, preferindo, ao contrário, a abordagem de contextos que possam dar alguma coerência e inteligibilidade às suas escolhas. Abrindo mão de julgamentos condenatórios, essas narrativas funcionam como testemunhos performatizados, dando visibilidade e consistência a indivíduos profundamente marcados pelos estigmas que carregam.

“É muito fácil vir aqui me criticar / A sociedade me criou, agora manda me matar / Me condenar e morrer na prisão / Virar notícia de televisão / Seria diferente se eu fosse mauricinho / Criado a sustagem e leite ninho / Colégio particular, depois faculdade / Não, não é essa minha realidade / Sou caboquinho comum com sangue no olho / Com ódio na veia, soldado do morro.” (MV Bill, Soldado do morro)

À época do lançamento do filme Cidade de Deus, MV Bill assumiu-se como uma voz dissonante da recepção até então festiva e elogiosa da produção, já que, segundo ele, o longa tendia a disseminar o medo e a estigmatizar ainda mais os moradores, com a generalização da imagem de que a favela era a grande culpada pela violência da cidade.

Embora impecável em sua realização técnica, um ponto crucial no roteiro do longa-metragem diferencia radicalmente a experiência de fruição dele e do livro (e também do trabalho de MV Bill): a presença de um narrador que, a partir de um ponto de vista único, apresenta uma síntese homogênea e totalizante do território. Assim, a lógica da parte é transformada em uma lógica do todo.

Se o ponto alto do livro é justamente seu caráter anárquico, o que vemos no filme é uma síntese pobre e maniqueísta, uma representação em que a favela aparece em cena de forma isolada do resto da cidade, uma região autônoma resumida às relações de poder que se dão dentro do próprio território.

O narrador que surge na tela é Buscapé, jovem que cresceu no mesmo ambiente violento que os demais “degenerados” que vemos em cena. No entanto, apesar de habitar o mesmo inferno que os outros personagens, é uma figura estranha ao lugar, mantendo-se como observador distanciado. Mesmo apesar de todas as dificuldades e de sentir que a vida está contra ele, Buscapé descobre que pode se tornar fotógrafo profissional, redimindo seu futuro através de um trabalho “digno”. O jovem é o arquétipo clichê do sobrevivente que vence pelo esforço próprio, ao contrário de todos aqueles que vemos ali, “sujeitos-homens” que fumam, cheiram, matam e roubam.

Essa abordagem seria apenas uma entre tantas escolhas narrativas possíveis, não fosse o cenário em que ela se desenrola. Uma das principais estratégias dos agentes do Estado – e também da imprensa hegemônica –, para desqualificar denúncias de morte e outras violências ocorridas nas favelas e periferias, é a alegação de que as vítimas atingidas pela violência estatal não tinham nem mesmo um emprego fixo (ainda que tivessem). Essa perversa ideia se sustenta no senso comum a partir da crença de que as balas que saem das armas do Estado só acertam aqueles que poderiam ser acertados: os vagabundos, os vadios, os marginais.

FAZEDORES DE DESTINO

Na atual cena cultural da Cidade de Deus, um nome vem conquistando espaço e respeito através da literatura e do ativismo. Trata-se de Vivi Salles, 26 anos, criadora do Poesia de Esquina, importante dispositivo na disputa pelo direito de significar. Vivi explica que o projeto, organizado com os demais artistas que aparecem nas imagens desta reportagem, começou a partir de uma percepção da Cidade de Deus como um território de muita potência estética, principalmente na literatura.

Ao longo dos últimos cinco anos, o sarau mensal do Poesia de Esquina cresceu e o evento se tornou conhecido na Cidade de Deus – embora esteja atravessando um momento bastante delicado. Comprometida com a democratização da literatura, Vivi define como um desafio conseguir dialogar cada vez mais com a comunidade local, tornando a literatura mais popular na região. Por isso, no sarau organizado por ela, o microfone é aberto, para que todo mundo se sinta convidado a dar uma contribuição poética ao evento. A última aquisição do Poesia de Esquina foi a compra de uma Kombi, para expandir fronteiras e fazer a literatura da Cidade de Deus circular não só dentro da própria favela.

Outro desafio apontando por Vivi é fazer com que as mulheres ocupem cada vez mais espaço no território. Vale destacar aqui o nome de duas artistas da Cidade de Deus que subverteram padrões e colocaram as mulheres em posição de destaque na cena cultural das favelas: as funkeiras Deize Tigrona e Tati Quebra-Barraco.

O momento delicado atravessado pelo Poesia de Esquina tem duas razões principais: a primeira é a falta de financiamento; a segunda, mais grave, diz respeito à violência diária. Em entrevista para esta matéria, Vivi diz entender a necessidade e a importância de se falar sobre as manifestações artísticas em curso na Cidade de Deus, mas confessa que tem sido uma missão quase impossível conseguir se desligar do tema da violência.

– Eu acho que é preciso, antes de falar só da cultura e das coisas legais, que se fale também da tragédia. Não tem como não falar da violência em curso antes de falar do grupo Os Arteiros, uma companhia de teatro importante daqui. Eu não tenho mais como falar antes do jornal comunitário CDD – A notícia por quem vive, que tem anos de trabalho sério e uma importância muito grande no território. Eu não tenho como falar do próprio Poesia de Esquina sem falar antes da violência. Até porque a gente está marcada por ela também, no sentido de olhar pra nossa vida recente e só ter feito um único evento esse ano. O meu papel, como jovem intelectual da cultura, tem sido trazer o tiro, a violência, pra que ela seja denunciada. Uma porrada de evento cultural está deixando de acontecer e as pessoas têm medo de se posicionar, porque têm medo da polícia e têm medo do tráfico. As pessoas estão aterrorizadas. Acontece que o traficante é morador, né? E historicamente você tem um mandamento de que é preciso respeitar o morador. Já o policial olha para a favela como o lugar em que ele trabalha Então, embora nem todos, muitos deles não estão nem aí para o tratamento dado. O cara que é morador da favela é menos cidadão na opinião deles.

 

Poetas da CDD08 A

Os poetas Wellington França e Anahyde Muniz. Em 2010, ele lançou o livro Temporais. Anahyde também é artista plástica e cantora, foi uma das primeiras a puxar samba-enredo nas escolas de samba do Rio de Janeiro

 

Dos últimos 20 anos, Vivi afirma que esse é o pior momento que ela já experimentou na Cidade de Deus. Ela cita como exemplo o caso ocorrido na Escola Municipal Leila Barcellos de Carvalho, no dia 25 de maio deste ano, em que a polícia estacionou um blindado na porta do colégio, que acabou virando alvo de tiros. Em pânico, as crianças precisaram ficar deitadas no chão, na tentativa de se protegerem do confronto que durou cerca de duas horas. O secretário municipal de Educação precisou interceder para que a PM cessasse o confronto e os alunos fossem retirados em segurança do local.

Em sua análise, Vivi argumenta que, se os moradores da Cidade de Deus e de outras favelas acreditarem que é normal viver desta forma, as coisas tendem a piorar. Um dos caminhos de mudança apontados por ela é que a favela comece a debater urgentemente a legalização da venda de drogas e passe a disputar a política na cidade.

– O problema maior aqui não é a venda de drogas, o problema não é a polícia entrar na favela pra cumprir um mandado judicial, o problema é que não existe respeito.Toda guerra tem regras, menos na favela. O conflito acontece de uma forma que coloca a vida das pessoas em constante risco. A munição vem de onde, mano? Sacou? Então tem gente ganhando muito dinheiro por trás disso tudo, rindo da nossa dor. E aí tem uma galera falando “pô, Vivi, você não tem medo de falar isso tudo?” Medo a gente tem, medo a gente tem até de ir na padaria. Eu fui na padaria outro dia e trouxe 11 balas que eu achei pelo caminho. Postei no Facebook um poema com a foto do meu café da manhã: dois pães, onze balas. Foi um dos posts mais compartilhados até hoje. No dia seguinte, postei um evento que a gente estava organizando e quase ninguém compartilhou. Ou seja, a violência é sempre a notícia. Como a gente faz? Qual caminho eu escolho? Como eu faço para que a notícia da violência não seja recebida como um espetáculo? Eu não estou fazendo isso pra render espetáculo. Pelo contrário, eu queria não estar fazendo isso.

O jornal CDD – a notícia por quem vive, citado por Vivi Salles em sua fala, tem uma linha editorial que vai na contramão da violência no território. De distribuição gratuita e trimestral, a última edição comemora o aniversário de seis anos da publicação e seu “compromisso com a visibilidade positiva da Cidade de Deus”. O editorial, escrito por Valeria Barbosa, profissional de educação e cultura e uma das colaboradoras do jornal, começa com o anúncio de que a edição está “plena de emoções”.

Incluída na seção “CDD homenageia”, a matéria de capa do jornal tem como título Uma estrela chamada Cilene Regina, lembrando a assistente social, poeta e fundadora do jornal. Falecida no ano passado, Cilene ocupa também a última página da edição, “CDD declama”, com o poema E.QUI.DA.DE (Respeito à igualdade de direitos). Emocionada, Valéria Barbosa lembra do infarto que a amiga sofreu em meio a um dos constantes tiroteios.

– Quantas pessoas que moram em favelas estão infartando? Ela morreu vítima da violência. Ela não precisou de um projétil, o projétil que a matou foi um projétil que vai na alma.

Na seção “CDD lê”, o jornal traz um texto sobre a Festa Literária das Periferias (Flupp), a partir do olhar de quatro mulheres. A artista plástica Rosalina Brito foi uma das mulheres que deu seu depoimento. “Eu comecei a rabiscar desenhos, poemas e contos e não sabia o que fazer até que conheci a Flupp. Descobri a importância da literatura e para o que ela servia. Eles publicarão os meus contos e quadrinhos. Assim como foi pra mim de grande importância, incentivo outros jovens a participarem deste projeto que deveria ter pra sempre na Cidade de Deus.”

Uma das emoções apontadas por Valéria no editorial é a matéria sobre Rafaela Silva, judoca da Cidade de Deus ganhadora da medalha de ouro nas Olimpíadas Rio 2016. Na seção “CDD brilha”, moradores da favela dão depoimentos sobre a importância da vitória de Rafaela. Um deles é de Rodrigo Felha, cineasta e diretor do grupo Os Arteiros, argumentando que, depois do filme Cidade de Deus, esse é o maior ganho que a favela poderia ter. “O filme não foi uma coisa positiva historicamente, mas cinematograficamente o filme é maravilhoso! Mas este é o maior BUM positivo que a Cidade de Deus poderia ter na sua história. Este momento é histórico e a Cidade de Deus precisa saber disso.”.

Thamyres Lopes, autora da matéria sobre Rafaela Silva, finaliza seu texto com um depoimento sobre a entrevista que fez com a judoca. “O dia em que uma jornalista negra e favelada entrevistou uma judoca medalhista olímpica negra e favelada. Esse dia ficará marcado pra sempre no meu coração.”

Apesar das inúmeras críticas que são feitas ao filme Cidade de Deus, Vivi Salles defende que a fama que ele proporcionou ajudou a favela a conseguir conexões importantes. Ela acredita, que mesmo daqui a cem anos, o nome da Cidade de Deus ainda vai estar associado ao livro e ao filme. Mas lamenta que todo esse movimento não tenha sido utilizado para o bem comum.

– O filme colocou a Cidade de Deus no mapa do mundo, hoje ela é tão famosa quanto Copacabana. É pelo mal? É. Mas do mal para o bem poderia ser um pulo. Mas muita gente sugou o dinheiro da periferia depois disso, né? E aí, cadê essas pessoas pra botar a cara agora e falar que estamos juntos?

No documentário Cidade de Deus – 10 anos depois, Cavi Borges e Luciano Vidigal acompanharam a trajetória dos atores e atrizes que protagonizaram Cidade de Deus, abordando as transformações vividas por eles ao longo da década. Além de mostrar a vida dos atores dentro das telas e o que isso proporcionou, o filme levanta inúmeras outras questões, como o racismo enfrentado por boa parte deles, o dia a dia nas favelas e periferias e as dificuldades de se viver de cultura no Brasil. Fernando Meirelles apoiou o projeto, cedeu imagens gratuitamente e deu entrevistas elogiosas sobre a produção. À época do lançamento, disse dar razão aos “esculachos” que tomou por conta de seu filme.

Vivi conta que leu Cidade de Deus aos 11 anos, antes mesmo de assistir ao filme. Sobre Paulo Lins, ela é só elogios:

– Quando eu falo do Poesia de Esquina, quando eu faço um histórico da importância da literatura na Cidade de Deus, imediatamente eu posso fazer uma ponte com o Paulo Lins. Pra mim, como trabalhadora da cultura, essa conexão é muito importante. O livro dele deveria ser muito mais lido pelos moradores da Cidade de Deus. Mas se você for perguntar em um grupo de 50 pessoas daqui, é possível que nenhuma tenha lido. O filme todo mundo viu. Para mim, que sou da literatura, que atuo nela, venho dela, o livro é fundamental. Eu acho o Paulo um escritor foda!

Quinze anos depois do primeiro romance, Paulo Lins lançou Desde que o samba é samba, resgatando momentos da formação da cultura brasileira através do samba, da aparição da umbanda e dos modos de vida no Rio de Janeiro entre 1928 e 1931. O romance faz um mergulho na construção da identidade negra no país através das culturas afro-brasileiras, demonstrando como essas manifestações foram importantes na construção da dignidade do negro no Brasil.

Valéria Barbosa conta que foi amiga de escola de Paulo Lins, os dois estudaram na mesma sala e cantaram juntos no coral da Escola Municipal Augusto Magne. Valéria chegou à Cidade de Deus aos onze anos de idade, removida da favela da Praia do Pinto.

– Eu vim para a Cidade de Deus na época da remoção, no caminhão do lixo, junto com todos os outros lixos que eles achavam que nós fôssemos. Mas eles quebraram a cara, porque nós somos sobreviventes. Os lixos eram eles.

Em seu livro, Grandes mestres guardiões da Cidade de Deus – Fazedores de destino, Valéria escolheu falar sobre a influência dos idosos na construção do território. Comprometida com a preservação da memória da Cidade de Deus, sua inquietação com o tema surgiu quando ela começou a perceber que as crianças gostavam muito das músicas que os idosos cantavam e das histórias que eles contavam.

– Decidi fazer este livro por ter um compromisso com a minha história, que está imbricada na daquelas pessoas. O objetivo é despertar o respeito e o cuidado com a pessoa idosa. Quis dar este presente para aqueles que conseguiram fazer de mim a profissional e pessoa que sou hoje. Vó Zefa, do Orfanato São José, que criou mais de 620 crianças, o primeiro programa social da comunidade; dona Obassy, com a sua postura majestosa, passando pelas ruas da Cidade de Deus, poeta, cantora e atriz; senhor Alfredo com a sua participação junto ao padre Júlio nas missas, nos cursos de violão e no repente; dona Jandira Tavares com a catequese, o teatro e o repasse cultural para as crianças; dona Therezinha com sua costura, artesanato e compromisso com o empreendedorismo juvenil; dona Benta com o empreendedorismo de mulheres e jovens, além do gosto pelo jongo, uma manifestação cultural afro-brasileira; mestre Miúdo com a sua Folia de Reis; mestre Derli e a capoeira educando jovens e crianças; o senhor Severino Gomes, que transformou sua birosca em um centro cultural, o Tupiara; Anhaíde, com a beleza de sua voz, quadros e apresentações; e o grande compositor Ovídio Bessa. As histórias dos mestres são contadas de forma lúdica. Não busquei fazer uma biografia, mas sinalizar o saber desses mestres. Pessoas comuns e com um potencial rico, guardado no baú do tempo. Foi só destrancar esse baú para que as histórias criassem vida.

Já o jornal CDD – A notícia por quem vive surgiu de uma necessidade apontada no portal comunitário da Cidade de Deus. Perceberam que havia uma grande dificuldade de comunicação. Valéria explica que a publicação se dá por meio de parcerias e as matérias emergem do próprio contexto interno. Ela defende a opção pelo impresso como escolha fundamental não só para democratizar a leitura, mas também como forma de driblar a efemeridade das redes.

– Segurar na mão a sua própria história tem muito mais força!

Cada edição do jornal precisa encontrar um caminho próprio de financiamento. Para isso, a equipe já foi para sites de crowdfunding, já fez rifas e já pediu doações diretas. Para a 14ª edição, Valéria conta que a verba foi conseguida em um edital da Secretaria Municipal de Cultura (o Ações Locais), com a contrapartida de que o jornal deve realizar oficinas para formação de novos colaboradores. É a segunda vez que o jornal é aprovado. Ela conta que, na primeira vez em que participou de uma oficina para inscrição em edital, ouviu dos presentes que jornal não seria cultura.

– Como não é cultura, gente? Quem vai falar do que está sendo feito aqui? Quer mais cultura do que um jornal?

Valéria levanta um ponto importante sobre a presença secundária de mulheres em diversas narrativas históricas sobre as favelas. Comentando as várias cenas com crianças no filme de Meirelles e Lund, ela defende que, se foi preciso evocar a presença de crianças se marginalizando, era imprescindível não esquecer que as mães destas mesmas crianças estavam em seus trabalhos.

– Toda essa estrutura que aconteceu na Cidade de Deus foi plantada pelo próprio poder público. A partir do momento em que o poder público faz remoções de diversas favelas e joga todo mundo a quilômetros de distância, essas mães ficam onde? Elas estavam no trabalho. Os pais precisavam trabalhar pra manter a família. As mães estavam cuidando dos filhos dos ricos lá da Zona Sul.

 

Poetas da CDD16 A

Valéria Barbosa fala durante seminário de comunicação, uma das etapas de formação dos colaboradores para o jornal CDD – A notícia por quem vive

 

TERRITÓRIO CONTESTADO

Um som de tiro invade a janela, vindo de algum lugar aparentemente próximo. Por alguns poucos segundos, Vivi emudece. Em seguida, reconhece que seu discurso tem sido bem mais pesado do que era em um passado próximo, justamente por conta deste intenso acirramento da guerra.

– Se você tivesse vindo bater um papo comigo há um ano, talvez eu tivesse uma outra fala, mais propositiva. Mas nesse momento a gente está no meio da guerra. Por isso, eu preciso ter coragem de falar. É com poesia? Se for, vamos fazer isso. É com qual linguagem que a gente dá o papo? É com rap? Eu olho pra uma cena como a roda cultural da Cidade de Deus, com a molecada aí, comungando junto, retomando a cena de rap da favela, botando o equipamento na rua e fazendo roda, eu olho e vejo como uma das armas que a gente tem. Uma arma pra formular nosso discurso de forma poética sobre o social, sobre o político, sobre a vida na favela. Eu acredito que é da poesia da roda de rima, da poesia do sarau, da poesia do baile que a gente vai encontrar algum tipo de narrativa capaz de romper com o silêncio do medo. Mas, por outro lado, está foda fazer as coisas. A gente marca uma oficina de poesia: vamos discutir um poema, vamos discutir autores do século XX. Mas a gente para tudo e acaba discutindo a bala que está comendo. Nessa hora não tem mais poesia. Acabou a poesia com a bala. Aqui, pra gente, o que sobra é a farsa. A UPP é um projeto que, desde que estava na faculdade, eu já estava ligada que tinha uma conotação de farsa, mas não imaginava que seria tão evidente. Toda essa crise que aconteceu no Rio de Janeiro, com Cabral e todos os escândalos, tudo isso reflete é aqui. É aqui que o chicote estala mais forte. Eu queria muito estar que nem meus amigos playboys, escrevendo poemas de amor. Mas eu estou completamente estressada com as notícias de gente morrendo aqui na rua de trás, com a notícia do moleque de 17 anos que tomou um tiro dentro de casa. O nosso poema tem nascido a partir do sangue.

Em um momento de sua análise sobre Cidade de Deus, Roberto Schwarz se detém sobre um trecho do livro que afirma que, “quando trocam tiros, a autoridade e os bandidos põem ‘meia cara na quina da esquina’”. Segundo Schwarz, “o acerto da expressão, com rima interna e tudo, faz pensar que não só a arte decanta a vida como também a vida se inspira nos seriados de televisão a que bandidos e policiais assistem”.

A literatura brasileira contemporânea é um “território contestado” (para lembrar o importante trabalho da pesquisadora Regina Dalcastagnè), território esse em que a dicção e a temática popular lutam para obter legitimidade, em que o monopólio da voz é questionado e o enfrentamento entre os criadores e as questões do seu tempo chegam a resultados que não estão determinados de antemão.

Pensando na influente cena cultural da Cidade de Deus, é possível ampliarmos o trecho analisado por Roberto Schwarz através do reconhecimento de que as disputas que se dão nas esquinas da favela não se resumem apenas ao tráfico de drogas, às mortes e às intensas trocas de tiro entre bandidos e policiais, mas são também disputas capazes de incluir novos nomes nesse “território contestado”. São disputas pelo direito de experimentar estética e poeticamente a vida.

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