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Os ombros de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), sabemos, suportam o mundo. Em especial, é sobre os ombros de Drummond que se sustenta o mundo da poesia brasileira. Pintar o retrato de um poeta hiperbólico sobre as páginas escritas por ele não chega a ser das tarefas mais difíceis, porque falamos de um poeta que cruzou o século XX escrevendo e publicando bastante, tratando dos mais variados temas, experimentando tudo que a poesia de seu tempo podia ser, aberto às influências mais variadas e multiplicando-se como influência ainda mais variada sobre tantos poetas e outros artistas.

Drummond é o epicentro da onda forte que a poesia brasileira de seu tempo fez em nossa literatura. Não é questão de dizer que Drummond é o maior ou o mais importante ou algo que o valha, até porque Drummond escreve entre gigantes, tendo ao seu redor Mário, Oswald, Cabral, Murilo, para ficar apenas em alguns poetas que estavam mais por perto. É apenas que reconhecer que na vasta produção de Drummond, que se estende dos anos 1920 aos anos 1980, se conjuga o que há de mais impactante na poesia que vem do Modernismo, com o tanto que essa poesia diz a respeito da poesia e do país que antecedem em séculos o próprio modernismo, enfrenta os dramas da primeira metade do século XX num mundo em guerra e, daí em diante, retrata o que sobrou e o que se tenta fazer do mundo.

Mas Drummond vai além da poesia, do ambiente restrito em que se costuma ler e escrever poemas, e talvez seja justamente aí que ele coloca a cabeça acima dos gigantes que tanto reverenciava quanto influenciava. Drummond é, entre os “poetas de livro” (porque, para nossa sorte, seu tempo também é pleno em “poetas de disco” e até em “poetas do livro e do disco”, como Vinícius), o nosso poeta mais público – o poeta que mais atinge um público não especializado em literatura e muito menos em poesia, mas também o poeta cuja visão de mundo, profundamente entranhada de vida íntima, de vida privada, mais consegue abraçar a feição pública deste país de profundos desajustes e contradições.

Numa carta a Drummond, João Cabral chegou a dizer que o “estilo” que o poeta mineiro alcançara seria capaz de transformar até o Código Civil em Carlos Drummond de Andrade, com a ressalva de que, aí, estilo não era apenas “um conjunto de tiques”, mas, sim, “uma exploração, estudada e conseguida”. De fato, mesmo entre pares tão geniais como os já citados, Drummond se avulta também pela forma como atingiu, em parte considerável de sua obra, um uso da linguagem que, sem fugir dos embates mais ricos contra as convenções da língua, da literatura, da cultura, ainda assim não se lançou para uma dimensão restrita à qual apenas os iniciados da leitura de poesia pudessem acompanhá-lo.

E já que Cabral nos falou de Código Civil, cabe lembrar que Drummond morre no ano em que o Brasil debatia sua nova Constituição democrática, após duas duras décadas de ditadura, e não é exagero – ainda que aqui não seja possível explorar em detalhe – que muito da visão de país que subjaz ao texto da Constituição de 1988, daquele país a ser superado (pobre, desigual, injusto, violento etc.) e daquele outro que se desenha nas várias esperanças do texto constitucional, encontra nos poemas de Drummond – poeta-repórter no olho desse furacão – bem mais ecos e reflexos do que costumamos ver entre poesia e política. Aí talvez esteja a razão para que, 30 anos após sua morte, quando ainda estamos no olho do mesmo furacão, ou de outro talvez mais furioso, ler sua poesia ainda seja tão angustiante e encantador quanto foi aos leitores daquela época.

Ou melhor: das épocas todas de que Drummond foi poeta-repórter (frise-se, aliás, a complementariedade entre sua poesia e sua atividade como cronista na, digamos, cobertura do nosso século), porque não é indiferente, para o monumento poético daquele mineiro que saiu da pequena Itabira do Mato Dentro ainda adolescente e passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro, o fato de ter vivido como poeta o breve século XX, que um outro gigante do século, o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012), não por acaso caracterizou como “era dos extremos”. A poesia de Drummond é a poesia profunda dessa era, mergulhada no Brasil, mas com os ouvidos abertos para os estrondos das guerras do início do século, bem como para o crepitar do Muro de Berlim (1989) e da União Soviética (1991).

Quando Drummond morreu, em 17 de agosto de 1987, essa figura gigante – de poeta para além do mundo da poesia, de brasileiro que nos desvenda a alma e o mundo aqui mesmo, de testemunha-símbolo de um século intenso – recebeu reverência incomum mesmo para grandes artistas da tevê ou da música popular. Não faltou Cid Moreira lendo “José” no horário nobre e atores famosos entoando seus versos para os espectadores de todo o país. Capa dos principais jornais e revistas do país. Reedições de seus livros – desde então e cada vez mais – que nem de longe lembram o poeta que chegou aos livros numa edição não-comercial de 500 exemplares de seu Alguma poesia (1930).

Numa entrevista linda a Leda Nagle e Theresa Walcacer, em outubro de 1982, então aos 80 anos, Drummond foi questionado a respeito do futuro de sua obra e sua resposta, com hesitação aparente, mas muito convicta, merece ser transcrita: “Eu acho que há um fenômeno que é o seguinte: você pode julgar realmente uma pessoa que está viva, do seu tempo? Você pode saber se essa pessoa vai durar, vai ficar? Se a obra alcançará reação favorável daqui a 20 anos, daqui a 30? Acho muito difícil. Então os julgamentos são relativos. Há um caso que até agora já está proclamado mesmo: Machado de Assis. Esse realmente era o nosso maior. Não há a menor dúvida. E era um homem limitado, assim, humilde, funcionário público, muito encabulado, gago. Mas realmente acho que ele morreria de vergonha se fosse considerado o maior escritor do Brasil, mas ele era! Sem a menor dúvida. Então acontece isso. Eu tenho sido tratado com muita benevolência, realmente. Não vou dizer que as pessoas estão fazendo isso por camaradagem. Eu acredito que haja pessoa que gosta do que eu escrevo. Meu Deus! Também seria demais essa hipocrisia, né? Mas isso realmente é muito generoso para comigo. É muito agradável. Mas eu não sinto a meu respeito, eu não tenho a meu respeito essa segurança que algumas pessoas têm a respeito da validade e da continuidade da minha obra literária. Não posso ter. Porque ela é uma obra de contingência feita por uma pessoa que teve problemas existenciais, problemas internos de adaptação ao mundo, de comunicação com o próximo, de adaptação a uma nova realidade social. Eu vim de um Brasil quase que escravocrata. A empregada, a velhinha preta que me criou e a dois de meus irmãos, ela não foi escrava, mas nasceu no tempo da monarquia e da escravidão. Então era um Brasil feudal ou semifeudal. Os costumes eram rígidos. A comunicação de uma moça com um rapaz era impossível, a não ser por intermédio do irmão, sempre com uma bengala ao lado para evitar qualquer desacato” (boa parte dessa entrevista pode ser vista no Youtube).

Primeiramente, hoje já podemos responder à pergunta feita ao poeta: Drummond durou e durará, assim como Machado de Assis. E é importante que ele mesmo construa essa ponte entre Machado de Assis e sua obra. Mais que isso: uma ponte entre o Brasil de Machado e o Brasil da sua própria poesia, entre o país que Machado vive na segunda metade do século XIX e cuja persistência o jovem Drummond vai flagrar na primeira metade do XX. Não se trata, é claro, apenas de literatura – se trata de ter, no nosso maior escritor do (pretenso) fim de uma época e no maior escritor do (pretenso) início de outra um mesmo corte, fundo, o da escravidão e todos seus significados para o que chamamos de país. Se em Machado isso se elabora com sarcasmo e desconfiança diante do que o país vai-se tornando, em Drummond o passado – histórico e pessoal – faz pousar alguma melancolia em cada palavra. E são infinitos e evidentes os versos que testemunham seu acerto ao dizer que fez poesia a partir de “problemas existenciais, problemas internos de adaptação ao mundo, de comunicação com o próximo, de adaptação a uma nova realidade social”.

O Drummond de Mãos dadas (Sentimento do mundo, 1940), por exemplo, que se nega a ser “o poeta de um mundo caduco” e que diz “Também não cantarei o mundo futuro”, mergulha no presente – no tempo, na vida, nos homens presentes – para erguer, a partir da experiência de um sujeito qualquer na “enorme realidade”, aquela que se consagraria como a mais perfeita mediação poética (e quiçá literária, ombro a ombro com Machado) entre nós – não apenas outros poetas, mas todos seus leitores – e a realidade brasileira. Quer dizer: Drummond nos faz olhar para o país e para nós mesmos (no país e no mundo) com seus olhos desconfiados, com seu enquadramento desconfortável, com o ânimo entre taciturno e esperançoso que cruza toda sua obra.

Quando Drummond pede ao Carlos do poema que não se mate, não é apenas a ele/si mesmo, mas a todos nós. Seus leitores, somos sempre esse Carlos que “Entretanto [...] caminha/ melancólico e vertical” (“Não se mate”, Brejo das Almas, 1934). Isso porque naquela “obra de contingência” há a penetração de contingências históricas e individuais tão múltiplas e radicalmente experimentadas, que possibilitou à sua poesia, mesmo nas fases mais participantes (e, portanto, mais sujeitas a serem “datadas”), passar ao largo e ilesa ao “aluvião de versos perecíveis que então se fizeram”, como bem disse um de seus grandes e apaixonados leitores, o professor Antonio Candido (1918-2017).

Interessante ainda notar, neste retrato apressado e empolgado de Drummond, que ele mesmo entendia ter resolvido as “contradições elementares” de sua poesia apenas no livro de 1940, Sentimento do mundo, como afirma em Autobiografia para uma revista (texto de 1941). Acusando em seu primeiro livro, Alguma poesia, “uma grande inexperiência do sofrimento e uma deleitação ingênua com o próprio indivíduo”, e no segundo, Brejo das Almas, “um individualismo (...) mais exacerbado, mas há também uma consciência crescente da sua precariedade e uma desaprovação tácita da conduta (ou falta de conduta) espiritual do autor”, Drummond obviamente tinha em mente aquilo que Antonio Candido, tempos depois, assim formulou: “O sentimento de insuficiência do eu, entregue a si mesmo, leva-o a querer completar-se pela adesão ao próximo, substituindo os problemas pessoais pelos problemas de todos” (no essencial Inquietudes na poesia de Drummond, de 1965, reunido no volume Vários Escritos, em 1970).

Se convier algum reparo ou ampliação dessa formulação, é apenas para indagar se, de fato, é de “substituição” que se trata ou mais precisamente de “incorporação”, de “fusão” entre as perspectivas pessoais/de todos, não apenas no plano temático, mas até recriando todo o conjunto de sua forma de expressão poética para levá-la além do plano pessoal (e, assim, da dimensão “privada” em que a poesia circula) e projetá-la de volta para o mundo, para a dimensão pública que desde então a poesia de Drummond ocupa.

Enfim, aqui não é a melhor sede para aprofundar e confirmar, na extensa obra e na ainda mais extensa fortuna crítica de Drummond, todas as afirmações sobre a qualidade e o alcance de sua poesia feitas acima. Este artigo tem apenas a intenção de, partindo dessa figura – repito – hiperbólica, tatear algumas ideias sobre a poesia brasileira contemporânea como ambiente em que se projeta sua sombra imensa. Vamos a elas.

 

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Hoje, às vésperas de contar 30 anos desde aquela segunda-feira em que Carlos se foi, agora à sombra de um vulto ainda maior, é preciso perguntar: o que é escrever poesia no país de Drummond? Quais rumos tomou a poesia sob a influência ou contra a influência ou a despeito da influência desse gigante Carlos Drummond de Andrade?

Podemos começar por uma afirmação provocativa: escrever poesia no país de Drummond é escrever imerso numa figuração de país que a poesia de Drummond cristaliza, com relação a seus antecessores (em especial, os modernistas que o influenciaram, mas não apenas), e lança sobre toda a poesia posterior, que em parte a reproduz e continua, em parte a afronta, mas num e noutro caso faz mais viva sua centralidade.

E há ainda um outro traço importante: mesmo os poetas que renunciem, ataquem, desprezem (se isso for possível!) completamente a obra de Drummond, queiram ou não, serão lidos por leitores de Drummond, isto é, leitores que se acostumaram, há algumas décadas, a considerar que poesia é algo que soa como soam os versos do itabirano.

Se, à época em que Drummond começa a publicar (vide o exemplo célebre de No meio no caminho), a acusação que se fazia aos poemas modernistas era de que não eram poemas, pelo tanto que discrepavam do ideal de poema ainda vigente em muitos círculos (soneto e outras formas fixas), grande parte da poesia mais interessante escrita dos anos 1950 em diante – não só a poesia concreta, mas também a poesia marginal etc. – recebe aqui e ali a mesma acusação de não ser poema, agora tendo como paradigma os poemas de Drummond e outros grandes modernistas. De certo modo, isso ainda não saiu de cena. A pergunta “mas isso é poesia?” faz sombra sobre boa parte da produção poética atual, a começar pela renitente discussão sobre as letras da canção popular.

Nesse sentido, é fácil notar como grande parte – não conheço tudo, mas arrisco dizer que a maior parte – da poesia publicada nas últimas duas ou três décadas, depois do auge da influência da poesia concreta e das polarizações que a caracterizaram, anda nas margens já exploradas pela poesia de Drummond, cujo leque, aliás, é bastante amplo, mas se restringe a poemas em versos, com raríssimo apelo à visualidade.

No amplo cardápio que tenho conseguido acompanhar (ainda que haja experiências muito bem-sucedidas como exceção!), são poucos os livros de nossa poesia contemporânea que têm mais do que poemas em versos; se o problema não for da minha amostragem, vejo aí uma tendência, mas não um necessário problema de qualidade na opção pelo verso à moda modernista. O que há é o retorno a uma forma (o verso livre, a linguagem muitas vezes próxima da fala etc.), que passou décadas sendo objeto de contestações e rupturas, como o uso da visualidade e a interação com outras linguagens, mas voltou (ou continua) a ser a feição majoritária dos poemas escritos por gerações que surgem quase 100 anos após as primeiras publicações de Drummond. É claro que nesse retorno à forma Drummond entra uma infinidade de elementos, a influência de outros tantos poetas, nacionais e estrangeiros, e outras realidades, mas, no geral, com isso arrefece o debate sobre experimentação formal que marcou as décadas de 1950 em diante.

É neste ambiente “livre” (sem regras ou tomadas de partido em relação a uma ou outra forma, sem programas ou manifestos) que se encontra, por exemplo, a crítica de poesia e a própria criação poética. A atualidade ou qualidade do que lemos e escrevemos não salta mais da forma que os poemas assumem, mas depende de outros tantos fatores que devem ser observados livremente, “caso a caso”, sem as noções de grupos, tendências, gerações etc. Dito assim, parece até ser apenas positivo nosso quadro, mas essa “liberdade”, que abraça tudo sob o selo da pluralidade, também cobra seu preço.

Nesse sentido, Marcos Siscar afirma: “A facilidade e a leveza com que nos reconhecemos como época de biodiversidade poética, de multiplicidade convivial ou concorrencial, se não é ruim por si mesma, tem um paralelo significativo com a dificuldade ou o mal-estar que experimentamos em relação ao passado não muito distante. Como se a expansão horizontal das possibilidades criativas coincidisse com um enfraquecimento da relação genealógica que nos coloca em contato com a história” (no artigo “Do fundo do naufrágio: estados da poesia contemporânea”, incluído no volume De volta ao fim, de 2016, que, aliás, junto com Poesia e crise, que ele lançou em 2010, entre outros livros e autores, dá prova da vitalidade da investigação sobre poesia contemporânea que tem circulado com boa desenvoltura em nossas universidades e delas para fora).

É justo indagar se essa perda de potência de nosso “contato com a história” não se deve ao fato de estarmos adotando o “contato com a história” de Drummond e, claro, de sua geração, que viu e viveu e escreveu num país que não mais existe, que já foi coberto por novas camadas de mal-estar. Ou mais ainda: se mesmo a um poeta gigante como Drummond, “poeta-síntese”, ainda que somados os livros todos dos gigantes que com ele dividiram a pena e o tempo, não é dado captar completamente o país complexo, desigual, vário, do momento que lhe coube viver, é inevitável que seja problemática e limitante a transfusão de “seu Brasil”, de seu “tempo presente”, para o nosso – igualmente complexo, desigual, vário, mas já outro. É nesse ponto que a figuração potente do país e do que somos, facilmente encontrável na poesia de Drummond, em que a vida é uma espécie terrível de “desacomodação”, pode-se converter na acomodação dos poetas – na forma do poema e no seu alcance crítico – diante da nova “vida presente” que enfrentamos.

Os óculos de Drummond, nesse sentido, não puderam ver tudo em sua época (por mais que tenha visto!) e ainda menos podem ser os mesmos que usaremos hoje para ver drummondianamente o nosso tempo. E é óbvio que a questão formal, as opções estéticas do poema, se resolvem e revolvem em Drummond juntamente com o enfrentamento de seus “problemas existenciais, problemas internos de adaptação ao mundo, de comunicação com o próximo, de adaptação a uma nova realidade social”.
Se a pergunta do leitor de Drummond pode ser “o que o poeta nos diz ainda hoje?” ou “que luzes o poeta lança sobre nós desde seu tempo?”, a dos poetas que o sucederam é substancialmente diferente destas, porque é idêntica àquela que Drummond fez a si mesmo em seu tempo: “o que e como posso dizer hoje?” A resposta de Drummond nós conhecemos: “O tempo pobre, o poeta pobre/ fundem-se no mesmo impasse”.

Drummond faz a poesia dessa “pobreza” e desse “mesmo impasse” em que poeta e tempo se fundem. Não foge, nem por instante, da sua missão num tempo que é de “maus poemas”. E assim nos ensina que é dessa fusão no impasse que a melhor poesia se alimenta, atando-se profundamente, com seus recursos, a seu próprio tempo.
É daqui em diante que se deve questionar: que impasses são os nossos? Quem são os poetas que nele se fundem mais intensamente a seu/nosso tempo? Não cabe aqui rastrear, nome a nome, verso a verso, o campo largo da poesia contemporânea brasileira, mas vejo andar por aí uma espécie de “Drummond coletivo”, dando conta, a muitas mãos e mentes, dos impasses de cada dia, em cada canto, neste país mesmo-outro.

Se Drummond é a síntese da forma que assumiu a relação entre poesia e realidade em nosso país, o traço mais forte dessa relação (não o único, obviamente, mas devo frisar), isso não implica dizer que Drummond seja nossa “unidade pacificadora” (a não ser que reconheçamos que toda unidade pacificadora é, sobretudo, uma unidade tensionadora). Drummond é epicentro, mas também é centrífugo: impõe-se com uma força tremenda, mas com a mesma força dissipa seus epígonos. Ter Drummond como cânone é uma faca de dois gumes: por um lado, a sombra imensa de um poeta que, a cada uma de suas muitas páginas, parece ter dito tudo que precisa ser dito (sombra tantas vezes comparada à de Fernando Pessoa no modernismo português); mas, por outro lado, com ele aprendemos um nível de exigência, de intensidade, de “verdade” para a poesia que praticamente nos obriga a correr de Drummond (ainda que seja correndo como Drummond de si mesmo).

Saber-se escrevendo poesia no país de Drummond, portanto, não significa mais que o reconhecimento de uma experiência radical que, por mais que pareça nos limitar à simples reverência e resignação, em verdade abre diante de nossos olhos o campo imenso, denso, tenso das possibilidades da poesia – em seu tempo, claro, mas como tarefa de seu tempo em diante – como um dia se abriu diante do poeta a “máquina do mundo” (“Abriu-se majestosa e circunspecta [...] Abriu-se em calma pura, e convidando// quantos sentidos e intuições restavam/ a quem de os ter usado os já perdera// e nem desejaria recobrá-los”). Repeli-la ou não, certamente, não a retira do nosso horizonte.

Se podemos falar numa contemporaneidade que é pós-drummondiana, ou seja, que tem Drummond como sombra e motor, nem por isso estamos falando de um ambiente empobrecido pelo protagonismo de um gigante. Pelo contrário! Se cedermos à tentação de nomear, podemos fazer uma longa lista de poetas com obras grandiosas que pertenceram à própria geração de Drummond, outros tantos que surgiram nos anos 1950 e 1960 (como os concretistas, mas não apenas eles) e, dali em diante, uma infinidade de poetas que já “cresceu” fundindo as linhas modernistas a muitas outras influências, enquanto Drummond continuava escrevendo e publicando (e a lista mais aleatória teria nomes incontornáveis como Sebastião Uchoa Leite, Max Martins, Ana Cristina Cesar, Orides Fontela, Paulo Leminski, Francisco Alvim, Waly Salomão, Age de Carvalho, Leonardo Fróes, Carlito Azevedo, para lembrar apenas alguns entre muitos e muitos e muitos outros).

Avançando um pouco, daqueles que começam a publicar nos anos 1970/80 em direção à nossa época, o quadro se amplia e complexifica bastante. Uma geração de poetas talhados nas universidades, cumprindo a dupla jornada da criação e da erudição literária, trouxe outros ingredientes para o panorama, pelas vias da crítica, da tradução, do diálogo intercultural etc. Por mais que a receita pareça a mesma da poesia concreta – associação profunda entre criação, crítica e tradução, inicialmente ligadas de modo programático a um paideuma, mas depois se convertendo num dos nossos colossos culturais –, nosso momento parece ser de descentralização dessas práticas, daí a impressão forte de que vivemos, de fato, numa era harmônica de “biodiversidade poética”, na expressão de Marcos Siscar (aliás, ele próprio exemplo bem talhado de poeta, tradutor, crítico atuante na imprensa, pesquisador e professor de Letras). E a impressão desse convívio tolerante entre diferentes e até contrários apenas se reforça pelo fato de estarmos, pelos meios digitais, diariamente imersos num contato dinâmico, minuto a minuto, com tudo o que escrito em qualquer canto do país e mesmo fora do país por brasileiros e estrangeiros.

Os poetas que surgem neste momento já vêm marcados por essa biodiversidade. Não chegam pelo caminho da adesão a um programa ou da filiação estrita a esse ou aquele modo de fazer poesia, de dizer o que a poesia é ou deve ser. Drummond não é, certamente, o culpado por essa distensão conjuntural da poesia brasileira, mas seu guarda-chuva imenso de formas e conteúdos é a cobertura perfeita para essa cena, em que escrever poemas pode ser uma tarefa alheia ao questionamento – profundo, radical, violento – do sentido que a poesia assume em contextos mais amplos (culturais, políticos etc.), bem além dos limites e confortos que lhes reservam os meios em que aquele discurso da biodiversidade venceu: “tem espaço pra todo mundo”, “cada poeta é uma poética”, entre outros.

A praça da poesia é grande, sem dúvida, e nela cabe muita gente. Tem muitos que chegam vestidos como Drummond, outros nem sabem que Drummond está ali ao centro. Chegam de todos os cantos, cantam de todas as formas. Uns chegam carregados e barulhentos pelas vias largas que as grandes editoras conseguem abrir. Outros chegam por vias estreitas, mas talvez esteja neles a parcela mais rica desse quadro. Pequenas editoras, autoedição, sites, blogs, zines, revistas, saraus. Há ainda os que nem fazem questão de estar na mesma praça, cantando noutras vielas os raps que são a poesia de auditórios que Drummond jamais cativou. Há muita poesia além-livro por aí.

Partindo de um contexto assim indefinível, porque atravessado por fatores muito recentes (por exemplo, a popularização da alta tecnologia), rumo a um panorama imprevisível, os passos dos poetas estão sempre sob suspeita. Aliás, bem parece ser essa a realidade da poesia desde sempre e para sempre: escapar entre os dedos de quem tenta apreendê-la no hoje e ainda mais de quem tenta determiná-la para amanhã.

(Por fim, uma nota bem pessoal. Tenho convicção das limitações deste artigo para lidar com questões tão largas e complexas, cuja decifração, se for possível, dependeria de uma detida análise da obra de Drummond e dos poetas que pertencem a esse imenso entorno a que me referi aqui. Arrisco-me, no entanto, a esse voo panorâmico antes como provocação a um debate que julgo necessário. Aproveito, ainda, para dedicar este artigo a Heitor Ferraz Mello, amigo de tantas conversas sobre poesia, que muito contribuiu com interlocução e estímulo. Sem dúvida, só os erros aqui são totalmente meus.)

 

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