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“Dos cem prismas de uma joia/
quantos há que não presumo”

I
Há dias pensando o que escrevo, em como escrevo. Pergunto-me, aliás, por que raios aceitei escrever sobre ela quando, na verdade, todo texto que quisesse evocá-la deveria ser para ela. Logo eu, capaz de mapear a minha desorientação diante dos teus versos, do tamanho do mapa-múndi, até topar no poema exato que me desdiga. Incomodei muitos poetas nessa virada de ano, e alguns me responderam mesmo estando com problemas, mesmo estando em Nova Déli. Parece que fui indelicada com o Armando Freitas Filho, embora não tivesse a intenção. Mas faz diferença, a intenção, em matéria de indelicadeza? Escrevo em fragmentos porque, hoje, não consigo de outro modo, e não é pretensão, está mais para desespero. Não sei se desisto.

II
Aristóteles aponta duas causas naturais para a origem da poesia: a capacidade de imitação, que implica em um jogo prazeroso, e o ritmo, aprendizado orgânico, inscrito no corpo vivo. Tá no pulso marcado, desde o zero – no princípio, era o verbo. Ana sacou bem cedo, foi pega pelo ouvido nas leituras de poesia religiosa das igrejas que frequentava com a família. Tinha quatro ou cinco anos quando ditou seus primeiros poemas para a mãe, se antecipando à escrita, o que não fazia em estática concentração, mas saltitando de lá pra cá, brincando de melopeia, e ardor dentro do gogó.

III
Aos nove anos de idade, Ana já não ditava seus textos, mas os escrevia em caderninhos. Nessa época, arquitetou um poema montado com o primeiro verso de vários sonetos de Camões. Ali, para a menina da zona sul do Rio de Janeiro, a apropriação era, talvez, um percurso lúdico da escrita, mas para a autora moderna, leitora de poetas modernos, se tornaria um método de adensamento das suas questões literárias. Construir por colagem ou remixagem pode parecer muito familiar no contexto da produção contemporânea, no entanto, na década de 1970 era uma das marcas da originalidade de Ana C. Aprendemos com ela aquilo que Armando Freitas Filho definiu como “uma cleptomania estilística”. Levava na ponta do lápis Elizabeth Bishop, Billie Holiday, Emily Dickinson, Walt Whitman, Katherine Mansfield, Katia Muricy, Grazyna Drabik… E, nos intertextos com as novas gerações, está mais presente que sempre nas obras de Angélica Freitas, Bruna Beber, Ana Martins Marques, Laura Liuzzi, Ricardo Domeneck... ad infinitum.

IV
Aos 17 anos, Laura Erber vivia em Florença, na Itália, onde cursava o segundo grau em um liceu artístico. Estava às voltas com a grande decisão de todo adolescente nessa idade e se via dividida entre Cinema, Letras e Filosofia. Embora se reconheça mais influenciada pelos ensaios do que pela poesia da Ana Cristina Cesar, a edição de A teus pés, que tomou emprestada das estantes da sua mãe, foi determinante naquele cenário. A idealizadora da Zazie Edições atribui à leitura da poeta carioca e do Chico Alvim a sua adesão aos bancos da graduação de Letras com um anseio tão maiúsculo quanto despretensioso: poder ler melhor Literatura Brasileira. Laura entrou para a UERJ em 1998. 27 anos antes, Ana C. apostava no mesmo curso, nos bancos da PUC.

V
Ser professor da Ana C. era uma missão na esquina do privilégio com a encrenca. É bem verdade que ficou amiga de alguns deles, o que não significa que tenha facilitado seu trabalho. Clara Alvim sempre conta da primeira vez que a viu, bancando a inglesa, dormindo no fundo da sala. A proposta inicial da disciplina que ministraria era uma abordagem greimasiana de autores brasileiros, mas a sonolência de Ana provocou a professora a rever seus caminhos. Clara levou Manuel Bandeira para a discussão, Ana passou às cadeiras da frente e as análises de poemas foram acontecendo, sem a mão pesada e onipotente do Estruturalismo francês da época. Criada no atrevimento, a poeta se envolveu, em 1975, na polêmica estabelecida entre seus professores — Luiz Costa Lima e Cacaso — a respeito de como a teoria era abordada no espaço universitário, tomando partido da discussão em seu artigo nada amistoso intitulado Os professores contra a parede. Era sua estreia no jornal Opinião, no dia 12 de dezembro. Impressionam a atualidade da discussão e a lucidez com que Ana avalia o seu contexto: “Tomar partido no debate teoria x não-teoria não é embarcar para o inferno ou para o paraíso, mas numa canoa furada”. Na época, a estudante questionava “o uso exclusivo de uma determinada abordagem que se diz mais científica ou verdadeira” e condenava “a pretensão de banir da crítica literária o elemento apreciativo ideológico”. Hoje, o tal elemento apreciativo ideológico não só é acolhido como começa a pedir freios. Os estudos literários parecem norteados por prerrogativas diferentes, flexibilizadas, com uma vocação mais ensaística que teórica nesse sentido duro que tinha na época, e, por vezes, hostilizando a herança e o esforço de viés formalista.

Silviano Santiago também experimentou a agridoce sensação de ter a insuportavelmente crítica e irônica Ana C. como aluna, em uma turma de outros nomes brilhantes, como Flora Sussekind e Geraldo Carneiro. Assim como Clara Alvim, o escritor tem formação francesa e rascunhava suas aulas, principalmente as de difícil exposição. Certa vez, decidiu explicar o sistema metafórico do Sermão da Sexagésima, de Padre Antônio Vieira, baseado na parábola do “semeador”, ou seja, do padre catequista de índios. Em casa, preparou um belo e complexo esquema sobre as metamorfoses por que passa a metáfora colonizadora da “semente” – semen est verbum Dei – na transposição do Evangelho para a Carta de Caminha e o Sermão de Vieira. Silviano estava no meio da transcrição para o quadro-negro do seu complicado esquema metafórico quando aquela que sabia ser ferina* perguntou se o professor não conseguia dar aula sem consultar notas escritas.

VI
Alice Sant’Anna estava fazendo uma pesquisa no Google sobre Modernismo para um trabalho da escola e, no aleatório abrir e fechar de abas, caiu em um site de poesia — acaso previsto para acontecer cedo ou tarde. Aos 15 anos, já tinha o hábito e o prazer da leitura, mas não nutria nenhum interesse especial por versos. De repente, se viu diante daquela coisa esquisita: “olho muito tempo o corpo de um poema/ até perder de vista o que não seja corpo/ e sentir separado dentre os dentes/ um filete de sangue nas gengivas”. Poesia, até onde sabia, era encastelada, sublime, metrificada; e aquele registro tinha assunto, organização e desfecho estranhíssimos. Buscou mais na internet e, na persistência do desentendimento, decidiu dormir cedo pra pegar a livraria abrindo no dia seguinte. Era uma descoberta: poesia para valer não comunica. Na época, a Nova Fronteira estava lançando uma edição verdinha de poemas da Ana, Novas seletas, um livro voltado para o público juvenil, com um glossário explicando o que era “brasa”, “mora” e outras gírias da década de 1970.

VII
É difícil encontrar matérias sobre a homenagem a Ana Cristina Cesar na Flip deste ano que não registrem o fator de gênero: em treze edições do evento, é a segunda mulher homenageada. Para a escritora, esse tipo de alusão constantemente pontuada pela crítica e, principalmente, a consciência de “ser escritora mulher” era motor de dúvidas. Já no final dos anos 1970, alertava que falar em “literatura feminina” poderia significar a condenação a uma dicção poética pré-estabelecida, socialmente construída; por outro lado, silenciar totalmente a referência, como se ela fosse irrelevante, também lhe parecia problemático. Buscava, então, uma terceira via. Em seus ensaios, voltou à temática algumas vezes na leitura de Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Angelina Melim e Adélia Prado; reflexões lúcidas e errantes, mas nunca indiferentes a essa chave de discussão. Sabia desde sempre que havia uma ideia de feminino a ser combatida e que ela coincidia com a própria ideia enjaulada de poesia – a dicção e os temas devem ser belos: ovelhas e nuvens. Indagava, no plano teórico, para transformar no criativo: “Não haveria por trás dessa concepção fluídica de poesia um sintomático calar de temas de mulher, ou de uma possível poesia moderna de mulher, violenta, briguenta, cafona, onipotente, sei lá?”. Mas, por vezes, cedia à sua própria ideia do feminino, como quando comparou os livros As mulheres gostam muito e Os caminhos do conhecer, de Angela Melim, julgando ser o segundo uma obra “engravatada”, interrogando se a poeta havia virado homem. Sua rotulagem, no entanto, dura o instante do pensamento espontâneo, não maturado, e a autocensura irrompe impiedosa. O que é escrever como mulher? Ana perseguia a charada sem resposta: tenho a impressão de que toda mulher que escreve tem de se haver com essa questão de alguma forma. Quando pergunto a Laura Erber se existe um fator do feminino que seja decisivo na sua escrita ou na da Ana C., ela responde que a poeta refletia o alcance e a infertilidade dessa noção: “Não acho que seja balela, mas é importante não baratear, não reduzir o feminino ao seu clichê de feminilidade e docilidade”. Alice Sant’Anna também segue nessa pista de que o homem escreve diferente da mulher: “Vi um dia desses o filme sobre o Chico, que adoro, e fiquei pensando na quantidade de músicas lindas com nomes de mulher. E então tentei lembrar o nome de uma música, uma só, com o nome de homem. Uma música em que uma mulher cortejasse (ou lembrasse, ou mesmo falasse mal de) um homem. Ainda não lembrei nenhuma. É claro que o que a Ana escreve é profundamente marcado pelo lugar de onde ela fala, os diários íntimos, a coceira depois do passeio de bicicleta, o enjoo que dá o ‘açúcar do desejo’, a conversa de senhoras bebericando chá – isso tudo evidentemente é escrito por uma mulher. A minha birra com essa questão é que colocar a etiqueta de ‘poesia feminina’ na Ana parece muito pobre, limitador, um rótulo de minoria, de gueto”. Seguimos no labiríntico dessa reflexão, às vezes com a sensação de andar em círculos, talvez porque, como disse o Silviano Santiago, a questão de gender na vida e na arte é menos contrastiva e mais plural: “As performances sexuais se disseminam de maneira aleatória e anárquica. Acredito que se se quiser ler a poesia de Ana Cristina pelo viés do gênero e da sexualidade, estaria mais apropriado dizer que ela foi precursora do que hoje entendemos por queer. Não se deve esquecer que ela era leitora das romancistas inglesas, e certamente do Orlando, de Virginia Woolf, e contemporânea de Michel Foucault, que já em 1981 dizia que ser gay não se resume a revelar um ‘segredo’ e assumir uma ‘identidade’. Ser gay é um modo de vida”. Retorno então à Flip e às duas únicas mulheres homenageadas até então: Ana Cristina e Clarice Lispector. Há um universo comum evocado por esses nomes, para além do fato de serem donas de obras literárias assombrosas, transformadoras das nossas experiências. Dois nomes que remetem à pungência. A jovem Ana C., aliás, fora leitora atenta de Clarice, conversava com suas narrativas em seus livros repletos de grifos e comentários. Porém, à parte o imaginário do feminino partilhado e das marcantes fotos em p/b, aproximações que ambicionem relacionar os textos da poeta e os da ficcionista requerem cautela: “Essas questões são delicadas e qualquer discussão mais grosseira apenas serve para empanar o brilho individual das figuras em jogo. Tanto Clarice quanto Ana Cristina e muitos outros escritores e escritoras pisam o mesmo chão cristalizado pela leitura inteligente de certa tradição lírica luso-brasileira, menosprezada nos anos de 1930 a 1960 pelos poetas militantes políticos. A tradição lírica marginalizada passa a ser adubada por alguns grupos, de que Clarice na prosa e Ana Cristina na poesia são exemplos, e é fermentada pela leitura do melhor da literatura anglo-saxã”, avalia Silviano Santiago. Já o colega e autor do perfil biográfico da poeta, Italo Moriconi, traça uma aproximação mais estreita entre as escritoras: “Ana Cristina pode ser ‘classificada’ como uma das autoras e autores que se inserem no que gosto de chamar de linhagem clariceana na literatura brasileira (o João Gilberto Noll é outro que classifico assim). Onde ela mais segue Clarice, a meu ver, é na busca de um texto que simula uma vontade de caotização. Mas a linguagem de Clarice (veja Água viva ou A paixão segundo GH) se ramifica em dualidades, vai se desdobrando rizomaticamente, com certo rigor. Os textos mais radicais de Ana C. trabalham, antes, na esfera do acúmulo. Em Clarice existe sempre a questão da narrativa em prosa, já a plataforma de Ana é simplesmente a poesia, a lírica, uma lírica inquieta por certo, e que se autodissolve na narrativa dos dias, prosaiando-se, prosificando-se”.

VIII
Em 1980, antes mesmo da edição de A teus pés ficar pronta, Carlito Azevedo conheceu a poesia de Ana C. O ponto de encontro foi a extinta Livraria Muro, espaço de resistência cultural democrática, onde era possível comprar exemplares da produção literária dos artistas independentes. Naquele momento, aos 19 anos, ainda não sabia quem era a tal escritora de Cenas de abril, mas achou o livro lindo, sofisticado. Para o rapaz que se tornaria o radar de uma geração de poetas, ali, no final da experiência adolescente, era como se estivesse diante não apenas de uma obra admirável, mas de alguém com o mesmo grau de confusão de sua cabeça e de suas ideias.

IX
My dear, chove a cântaros. Sempre que retorno à Correspondência completa, tenho a impressão de estar lendo a apresentação de uma poética, uma espécie de manifesto artístico individual. O livrinho de 1979 condensa características-norte da sua escrita e consiste em uma carta fictícia, de Júlia para alguém, seu interlocutor “singular e anônimo”, nos diria Silviano Santiago. Ana sofria de gigantismo epistolar, o mesmo mal que abatia Mário de Andrade, e fazia das suas cartas privadas espaço literário, pois não se rendia à escrita inocente. Certa vez, Heloísa Buarque de Hollanda declarou que Ana comportava-se como se estivesse sempre em crise e fingia precisar dos conselhos das amigas mais velhas. Perguntei por que ela achava que havia fingimento em certos pedidos de socorro, o que me explicou: “Porque, antes de tudo, a Ana construiu uma persona poética interessantíssima e atraente, e a crise, muitas vezes, foi usada na composição dessa persona”. Por ter essa intimidade funda com as correspondências, Ana compreendeu desde cedo o endereçamento do texto literário, “a questão da destinação do poema como experiência de tensão e tesão entre leitor e texto”, nas palavras de Laura Erber. Enxergo em Correspondência completa o ensaio de uma estética por algumas razões, e a primeira é o fato de que a missiva é destinada a alguém que tem informações que completam o texto; my dear recebe notícias e respostas a respeito de uma vivência comum, há uma partilha de mundo que vai além do texto. Pensando na sua obra, observamos o alargamento dessa retórica em poemas que muitas vezes se dirigem a um interlocutor que está a par, próximo, mas nós não estamos. Uma equação flutuante, nunca espontaneísmo, tampouco tecnicismo criador. Por um lado, os “efeitos de espontaneidade, sinceridade, franqueza, alusões constantes que guardam o aspecto de acontecimentos pessoais e segredos íntimos”, como descreveu o Marcos Siscar. Por outro, a constatação de que somos falsos íntimos, de que revirar o poema não nos ofertará nenhum segredo além do poema. A exposição da intimidade é uma estratégia de sedução, afinal, you know what lies are for. Há uma urgência do envolvimento, da interlocução e do relacional na arquitetura do texto. “É para você que escrevo, hipócrita. Para você – sou eu que te sacudo os ombros e grito verdades nos ouvidos, no último momento.” Esses versos, aliás, nos remetem mais uma vez às certeiras análises de Siscar: “O poema não é defensivo em relação à indiferença do interlocutor; pelo contrário, faz dela a razão de seu drama ou de sua farsa”. Mas, aqui, voltamos à Correspondência completa e ao Silviano Santiago, para ressaltar que o mesmo poema que não se intimida perante a indiferença reage ao autoritarismo. “É leitor autoritário o que enfrenta as exigências do poema com ideias preconcebidas e globalizantes”, afirma Santiago para, adiante, nos lembrar de que Ana C. tinha “fobia da explicação otimista e vencedora, convincente e lógica, redonda e massacrante, que existe em toda leitura bem-sucedida de um poema”. Em matéria de poesia, cedemos a esse ímpeto de controle e compreensão quase que inconscientemente e, estou certa, com mais frequência do que nós, leitores imaginativos e bem intencionados, gostaríamos. Ana dificulta para os impacientes enquanto observa nossa ansiedade de apropriação por trás dos óculos escuros.

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X
Aos 31 anos, mesma idade com que a Ana morreu, Mariano Marovatto mergulhou no arquivo da poeta e vasculhou cada folha de cada caderno para chegar à seleta de inéditos “Visita à oficina”, seção da edição Poética, da Companhia das Letras. Por ter escrito uma tese que contempla a geração da escritora e organizado o acervo de Cacaso, realizou esse trabalho com certa intimidade e encantamento. No entanto, aos 18 anos de idade, o contato inicial com a obra da Ana Cristina Cesar foi diferente. Quando leu A teus pés pela primeira vez, na época em que saiu a edição da Ática, encarou aqueles poemas com desdém, como quem olha um oponente. Não tinha maturidade, não atingiu o cerne. Amor começa tarde.

XI
No documentário Bruta aventura em versos, chamam atenção os momentos em que Chacal e Alice Sant’Anna tentam recitar o mesmo poema da Ana C., mas não conseguem recordá-lo com precisão. É curtinho, cinco versos, o do filete de sangue nas gengivas. Se, antes, falamos de uma menina que começou ditando seus textos – e poesia, a princípio, é propor um ritmo –, hoje sabemos que a mulher, a poeta de projeto, encontrou uma batida a que demoramos a nos acostumar. Muito disso se deve à recorrência obsessiva da interrupção, o que se dá sintática, imagética e tematicamente, em construções que não nos chegam com o acabamento que nos é familiar. A tentativa de ler seus poemas em voz alta não raro nos causa embaraços: atrapalhamo-nos na entonação e nas pausas, perdemos o fôlego, pedimos mais uma chance, somos constrangidos pela carência da métrica, e fica a sensação de que é melhor deixar ele ali, fixado no papel, uma vez que não sabemos domar sua melodia. Seus poemas são escorregadios à memória, estão sempre sendo lidos pela primeira vez, presentificados pela sua essência interlocutória. Uma característica melhor explicada por Viviana Bosi, quando ela pontua que “a dificuldade de memorização dos poemas de Ana Cristina se deve tanto à forma, que tangencia o ‘informe’, saindo dos parâmetros poéticos usuais de paralelismo, eco, ritmo metrificado (que facilitariam a recitação); quanto ao conteúdo, pois os saltos inesperados da frase, as mudanças de tom, a proposital quebra da continuidade semântica e sintática, obrigam o seu leitor a interagir com o texto, completando-o pela imaginação e pelo sentimento”. Mais uma vez, as evidências de que há formas de resistir ao autoritarismo dos sentidos no interior do jogo literário e de que é preciso combater a nossa vocação para o poder e para o controle.

XII
“Você não para de cair/ fugindo/ por entre os dedos de todos:/ água da mina/ resvalando pelas pedras.” Ninguém dedicou-lhe tantos versos quanto o amigo Armando Freitas Filho e ninguém a sustentou no ar como o poeta. De cor, publicado em 1988, carrega a cicatriz do sentimento de perda sem resgate possível. Tenho estudado a obra do escritor, principalmente seus últimos livros. Tateio as imagens da finitude, da morte e me aventuro nas reflexões sobre o estilo tardio. Penso nela, inaugural e subversiva, destoando da dicção de sua geração para criar a gramática da nossa; e recordo o Edward Said, quando ele nos diz que “ser tardio é portanto uma espécie de exílio autoimposto diante de tudo que costuma ser aceito, um exílio posterior e sobrevivente a isso”. Penso nela, tardia desde sempre, pois o tempo biológico não é fator único da nossa relação com o fim nem da consciência de distanciamento e anacronismo; e recordo Adorno, quando o teórico afirma sobre as obras tardias em que “ele [o artista] não providencia sua síntese harmoniosa. Como poder de dissociação, ele as dilacera no tempo para, quem sabe, preservá-las para a eternidade. Na história da arte, as obras tardias são as catástrofes”. Penso nela, na vertigem.

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