Escritor comenta o romance Jornada com Rupert, que deve ser o seu último

Meu primeiro romance foi o último a ser publicado, exatos 60 anos após ter sido escrito. A versão manuscrita é de 1948, a terceira datilografada é de 1949, todas insatisfatórias. Jornada com Rupert é e não é o mesmo livro.

Meu trato com a palavra é um exercício diário ou quase, que vem desde a infância, quando eu já tentava adequar e dar uma certa unidade à narrativa interior ou expressa, procurando recriar os acontecimentos do dia. Tal atitude prenunciava o futuro jornalista e ficcionista. Guardava os rabiscos por algum tempo, relia-os e os rasgava. Essa prática me acompanha até hoje, tanto que, na minha longa trajetória de mais de 70 anos no exercício da escrita, mais rasguei do que publiquei.

Jornada com Rupert é uma das raras exceções, resistiu, me acompanhou em Florianópolis, pelo Rio 
de Janeiro e novamente Florianópolis. Em 1999, mal saíra meu romance NUR na escuridão (a descoberta do Brasil por uma família de imigrantes), eu examinava o exemplar que me chegara, eis que 
a Eglê entra, põe em cima da mesa um envelope e diz: “Agora resolve o que fazer com o tal de Rupert”. Não resolvi.

Em 2006, eu preparava o livro de contos O sabor da fome para a editora Record e sem prévio aviso Rupert irrompe e me questiona: “Eu onde fico?” No decorrer desses anos eu lera um pouco de tudo, muita ficção e sobre ficção e minha concepção do processo de criação literária não era a mesma dos anos 1940, constatara que os temas com que o escritor trabalha são poucos e recorrentes, os mesmos desde o início dos tempos, a humanidade e seu estar no mundo, o que identifica e diferencia um criador é o tratamento que lhes dá.

Reli a versão datilografada, a história em si se mantinha: através de um dia na vida de Rupert é feita a tentativa de recuperação de um século de História, a colonização alemã no Vale do Itajaí, tendo como pano de fundo as transformações que o Brasil e o mundo vão sofrendo. Insatisfatória era a maneira de contar, eu não queria uma narrativa cronológica nem sequencial, mas por meio do fluxo de memória, com seus avanços e recuos, dar uma unidade àquele mundo que em pouco tempo deixara de ser uma colônia agrícola para se constituir num parque industrial. O fio condutor é a saga da família de Rupert, que chega à colônia em 1870.

Durante 10 meses escrevi e re-escrevi em torno de 8 horas por dia. Quando terminei a penúltima versão ( a última jamais se conclui), o romance das 230 páginas estava reduzido a 170. Cortei muito das filosofices, das digressões, deixando pontos soltos para serem completados pelo leitor. O primeiro capítulo já tem um pouco de tudo isso: estamos em um trem que não sabemos de onde veio, por onde está passando e para onde vai, um tanto 
à maneira errática da memória. Se a trama romanesca inicial foi em boa medida preservada, 
a estrutura narrativa e o trabalho ficcional sofreram profundas modificações.

Um dos conflitos básicos do romance é o embate entre o pai de Rupert, Herr Hans, nascido no Vale, e Günther, nascido na Alemanha, que chega à região logo após a Guerra 1914-1918; enquanto o primeiro não hesita em aderir ao nazismo, orgulhando-se de possuir um exemplar autografado do Mein kampf, o ex-combatente, que optara pelo Brasil influenciado pela brasileira mãe de Thomas Mann, se dedica a denunciar o perigo que Hitler representava. O entrechoque repercute não só na comunidade mas também nas relações entre Rupert e Ilse, a filha de Günther.

Estabelecido em Blumenau, principal núcleo de colonização do Vale do Itajaí, Günther abre uma relojoaria e um estúdio fotográfico. Gosto de desafiar o leitor, mas parece que dessa vez exagerei, pelo que sei ninguém até hoje falou da alegoria, o relógio marcando o inexorável passar do tempo e a fotografia preservando o hoje para o amanhã.

Trabalho sempre com gente de papel e gente de carne e osso, se bem que não sejam puramente de um jeito ou de outro, mas mesmo assim em geral aceitam o destino que lhes tracei. Neste romance duas personagens se rebelaram: Domingos Baiano, ponte de ligação entre Canudos e o Contestado, que de menino acompanhou Euclides da Cunha e viu o massacre do reduto e, como soldado no batalhão do general Estillac Leal, toma parte com horror na chacina de outros deserdados da terra. Nesse ponto terminava a participação da personagem que, rebelde, se insere à força na fechada Blumenau, casa com uma “alemoa” e cria um quarteto de cordas. O papel de Ilse se limitava a se decidir entre dois namorados, não concordou, tivemos várias discussões e ela acabou no Rio de Janeiro, para ser jornalista e escritora.

Rupert só consegue deixar Blumenau após a morte do pai, isso em 1949, às vésperas do primeiro centenário da colonização. O livro termina em aberto e houve leitores que me perguntaram se eu pensava em uma segunda parte, devido ao inusitado final: “Aqui começa uma outra história, que não contaremos, porque só agora Rupert vai vivê-la”.

Quando Jornada com Rupert saiu pela Editora Record, logo dois amigos escritores me telefonaram, o primeiro para dizer que o livro tinha a minha marca, porém continuava gostando mais de NUR na escuridão e o outro exatamente o contrário.

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