Resenha MatildeCampilho Ana Paganini outubro.20

 

Sabe o espanto que você sente quando encontra, dentro de romance comprado num sebo, um bilhete escrito 26 anos antes? Ou quando, num mercado das pulgas, você fica olhando retratos antigos, anônimos? Esses momentos são como pequenas invasões de privacidade, nos quais você vira um voyeur inofensivo de ocasiões, por vezes nada espetaculares, da vida dos outros. Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, são instâncias de pequena grandiosidade. Durante a leitura de Flecha, segundo livro da poeta portuguesa Matilde Campilho (foto) e o primeiro dela em prosa, eu me senti como nessas situações.

Existe um mistério intrínseco a essas mini-narrativas anônimas, mesmo quando os registros são de momentos os mais corriqueiros possíveis. Por exemplo: eu tenho um livro de fotos de autores desconhecidos, que se chama Mulheres em cima de árvores, que é exatamente isso: fotos amadoras de mulheres em árvores. Um mundo de perguntas, inicialmente da ordem da curiosidade, se abre: Quem é essa mulher? Por que ela subiu nessa árvore? Quem tirou essa foto? Por quê? Onde é isso? Quando? Mas, nas entrelinhas, outra pergunta pode aparecer: quem é a pessoa que olha pra essa foto? Ou, em outras palavras: quem sou eu?

Esses “encontros” têm algo de místico, algo que me lembra a morbidez do olhar fotográfico, à qual a filósofa estadunidense Susan Sontag se refere em Sobre fotografia, numa de suas citações mais famosas (a tradução é minha): “Tirar uma foto é participar da mortalidade, vulnerabilidade e mutabilidade de uma pessoa (ou coisa). Precisamente por recortar um instante e congelá-lo, todas as fotografias são testemunhos da inevitável passagem do tempo”.

O Flecha oferece, ao contrário do sugerido por Sontag, uma intersecção entre o corriqueiro e o fantástico, exatamente por abrir mão de uma relação lógica com o tempo, com a obviedade de sua passagem. Não é preciso ler o texto anterior pra que se entenda o seguinte, ou o contrário. Flecha não é o primeiro nem será o último livro a lançar mão dessa operação estética, mas, no meio de uma pandemia, esse aspecto se acentua. Deve ser bem aí que mora o mistério. Mas onde há mistério, há também abandono. E não é fácil se sentir abandonado, especialmente em 2020. Uma obra que proporcionasse uma relação mais familiar com o tempo talvez nos oferecesse um conforto mais imediato, já que aqui estamos, à deriva na História, sem saber que dia da semana é hoje, à espera de uma vacina.

Assim, outra coisa me vem à cabeça: essa sensação de abandono pode até ter como gatilho as ficções do Flecha, mas ela certamente é anterior a eles. E aí volto a Sontag, porque desta vez ela pode explicar exatamente como me sinto com o livro de Campilho: “Uma fotografia é tanto uma pseudopresença como o sinal de uma ausência”. Bingo. As “fotos” de Campilho são indícios de vidas, pseudopresenças sem nenhum porto narrativo, nenhuma ordem clara — nem temática, nem cronológica, nem geográfica — mas nos identificamos constantemente com os mais diversos personagens, nas mais diferentes situações. Uma hora estamos em 455 a.C., na Grécia Antiga, e testemunhamos a morte de um poeta. Poucas páginas depois, estamos em algum ponto da América Latina contemporânea, e alguém anda por aí de bicicleta. Noutro momento, uma onça fareja a presença do inimigo, num gesto atemporal de sobrevivência. Logo mais uma personagem histórica, por quem não nutro nenhuma simpatia, aparece humanizada e, por conseguinte, me humaniza, ao pensar: “Que difícil é tomar uma decisão com tanto frio nos pés” (#quemnunca).

Falando em humanizar-se, Antonio Candido diz, no seu ensaio O direito à literatura, que ela fornece a “possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas” dos outros e nos “humaniza em sentido profundo, porque [nos] faz viver”. E isso é tão, mas tão bonito!

Foi lá pela página 33, quando parei de tentar encontrar a liga que conectava os textos, que a liga apareceu — e nem era tão difícil assim de ver. Em vez da docilidade da agulha e da linha — a costura invisível das narrativas, que alguns chamam de “fio de Ariadne” — temos aqui o arco e a flecha como conectores. Não há flecha disparada ao acaso, sem alvo. Assim como, pra quem acredita, não há acaso na leitura aleatória dos Salmos.

Uma flecha é um projétil aerodinâmico, de madeira ou metal, antigamente usado em guerras e na caça; hoje está quase totalmente restrito a atividades esportivas e às paredes de colecionadores. É curioso que Campilho tenha escolhido como título um objeto cuja reputação depende justamente da velocidade que atinge (que pode chegar a até 250 km/h) e de sua precisão, já que o Flecha convida a um, digamos, “repouso mental” por abrigar narrativas curtas e não-lineares, sem garantia nenhuma de que nos levará a um alvo prometido. Não é um livro pra ser devorado, não é aristotélico, não tem ápice. É um exercício de confiança.

Voltando a Antonio Candido, no mesmo texto ele vai dizer que bens indispensáveis são tudo aquilo que assegura “a sobrevivência física em níveis decentes, mas [também] os que garantem a integridade espiritual” — e a literatura, segundo ele, é esse tipo de bem. Assim, de todos os feitos de Flecha, acredito que esse seja talvez o maior deles: num ano em que o desgosto não foi somente sintoma de doença, esse livro (em particular) e a literatura (em geral) nos garantem integridade, ao deixar que a gente volte a zanzar pelo mundo, entre pessoas, sentindo o gosto das coisas.

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