Resenha SimoneWeil Arte sobre foto de reproducao outubro.20

 

Atravessar o tempo como equilibrista ou viajante faz com que se busque dinâmicas de precisão no movimento do corpo e da mente. Penso na figura de Simone Weil (1909-1943) como alguém que seguiu entre esses dois tipos de representação, tecendo linhas do destino — na escrita e na vida —, fora do atributo do tempo. Desde muito jovem acometida por questões físicas severas (entre elas, fortes enxaquecas), a escritora, professora e filósofa francesa tateou o mundo com a balança do espírito e da teoria em mãos, na tentativa de elaborar um cotidiano no qual a temporalidade foge de nossa regra de contagem para que se experimente a sensação do que ela chamou de “mecânica humana”, o continuum entre o vazio e a compensação.

Ao fim da leitura dos textos que compõem O peso e a graça — lançamento da Edições Chão da Feira, com tradução de Leda Cartum —, me perguntei o que, por meio da escrita, Weil tentou deixar plasmado no tempo cronológico ao qual, acredito, ela não pertencia. De que forma a palavra torna-se guia histórico-filosófico em direção à transcendência, nos colocando mais perto do indizível, da Criação e da força de Deus? “Escrever como se traduz”, afirmou Weil, defendendo uma escrita fiel à nudez da expressão, a letra que diz exatamente o que precisa ser dito. E essa vontade de encontro com a palavra zero deixa a linguagem muito próxima ao sumiço e cercada por lacunas, rastros de uma ânsia pelo essencial, o centro da palavra que reza.

Nos restos da lapidação do “pensamento da verdadeira grandeza”, enfim, Weil encontra a escrita como modo de deixar pistas. Olhar para Deus é também seguir um caminho, mesmo que seja em direção ao vazio e à anulação do que se é com o intuito de que somente Ele seja. “Se eu simplesmente soubesse desaparecer, haveria união de amor perfeito entre Deus e a terra em que caminho, o mar que escuto… Que importa a energia que há em mim, os dons, etc? Sempre tenho o suficiente para desaparecer”, escreve a autora no texto O apagamento. Deus é silêncio, e quando estamos presentes, quando não desaparecemos, a nossa respiração e os nossos batimentos maculam essa constante.

A escrita como silêncio necessário ao aprendizado do mundo material e, também, da entrega do espírito às forças de criação. Weil registra suas definições sobre bem versus mal e a importância de uma obediência a Deus sublinhando que não se deve sucumbir ao ser fanático das religiões e aos preceitos nos quais o homem vira mito e esquece da presença divina. “O eu é apenas a sombra projetada pelo pecado e pelo erro que interrompem a luz de Deus, e que considero um ser. Mesmo se pudéssemos ser como Deus, melhor seria ser o barro que obedece a Deus”, afirma.

Para a autora, o peso é tudo aquilo que nos coloca nos estágios de existência, um impedimento de tomarmos todo o poder que somos capazes. Em resumo, dentro de nós, o peso é a repetição que impomos para manter algum tipo de ganho simbólico e, assim, termos uma renovação de nossa “existência abalada”. Quando seguimos no peso, nos mantemos opostos a Deus, e precisamos da graça para escapar do que nos coloca em estado de negação baseado nos subterfúgios psíquicos, sociais e culturais. Dessa forma, Weil fala de um mecanismo de entrega: se o peso é a “lei da criação”, a graça é onde encontra-se a descriação, um convite de Deus para que nos entreguemos, mais uma vez, à sua existência.

Nesse aspecto, as reflexões do psicanalista Carl Gustav Jung (1875-1961) sobre o tema são rima fértil diante dos escritos filosóficos de Weil. A relação com Deus, na obra junguiana, é composta pelas oscilações, idas e vindas de alguém que proclamou: “Eu não acredito em Deus, eu o conheço”. Ao falar de uma experiência divina e das suas aparições em sonhos infantis, mesmo antes do contato aprofundado com uma religião, Jung torna esse arquétipo uma manifestação marcada por um tipo de acordo no qual nós concedemos a Deus os nossos medos e o nosso desejo mas, sobretudo, concordamos em receber os seus aspectos sagrados dentro de nós. Não mais se procura por Deus nas imagens exteriores, na figura do grande pai sentado no trono de ouro, ou nas imagens pintadas em paredes de igrejas e templos. Jung e Weil aproximam-se na afirmação de que a divindade se faz no movimento interno do sujeito, e o seu anúncio espiritual é como uma ideia de sopro diante da experiência da vida, do que em nós pode ser habitado.

Em O impossível, Weil escreve o quanto esse permanente estado de convergência entre o que sentimos e a imagem de Deus é atravessado pela falta de coerência: “Nossa vida é impossibilidade, absurdo. Cada uma das coisas que queremos é contraditória com as condições ou as consequências que estão ligadas a ela; cada uma das afirmações que fazemos implica na afirmação contrária; todos os nossos sentimentos estão misturados aos seus contrários. Isso porque, sendo criaturas, sendo Deus e sendo infinitamente diferentes de Deus, somos contradição”. Assim, a vida, para a autora, torna-se uma eterna constante de experiências contraditórias que nos renova em impossibilidades. De certa maneira, Jung rechaça a crença religiosa porque a fonte do divino está em vivenciar Deus mesmo que ele não corresponda ao que nos foi ensinado, mesmo que ele seja contraditório, como nós somos. Em linhas próximas, Weil nos convida a dialogar com essas inquietações sabendo que não estamos em busca da perfeição divina, nem das imagens supremas: buscamos o que podemos ser, o que se consegue abarcar no impossível de cada um.

O peso e a graça é o centro da breve produção da escritora, que morreu com 34 anos, de tuberculose, depois de deixar a França. Weil deixou seus textos e manuscritos com o amigo Gustave Thibon, também responsável pela organização e pelo prefácio do livro. Ele ressalta que os textos presentes na compilação são como “pedras de espera”, expressão que designa um termo arquitetônico para pedras sobressalentes ordenadas nos muros de construções. Em sequência, as pedras de espera são como eixo de encaixe para uma construção seguinte. Thibon afirma, no prefácio, que essa próxima “estrutura” nunca foi escrita por Weil, o que nos coloca diante de um contínuo futuro desejante. E, em última instância, o que é mais divino na linguagem — na escrita — do que seguir o desejo em todas as suas faltas, lacunas e espaços nos quais a graça ainda pretende chegar?

CONHECER O MUNDO PELO TRABALHO

Mística, experiência e trabalho. A tríade de temas discutidos na obra de Weil oferece ao corpo a importância de observar o trabalho como motor coletivo. Depois de um tempo no qual lecionou Filosofia, Weil decidiu largar a rotina do magistério e foi trabalhar numa fábrica da Renault. Em contato com os operários, vivenciando a experiência em seus dias, mesmo com a saúde já bastante debilitada, Weil escreveu sobre como o trabalho, desde a agricultura até o desenvolvimento industrial, coloca o ser humano em disposição ao grande propósito da vida.

“O mundo é um texto com diversos significados — e passamos de um significado para o outro através de um trabalho. Um trabalho do qual o corpo sempre participa, como quando aprendemos o alfabeto de uma língua estrangeira: esse alfabeto deve ir entrando na mão de tanto que traçamos as letras. Fora isso, toda mudança na maneira de pensar é ilusória”, observa em A inteligência e a graça. Para Weil, o trabalho é a forma de movimentar a roda da vida, não só quando remunerado, mas também no instante em que se torna função corpórea de entendimento que faz diferença nas reformulações sociais.

No artigo Reflexões sobre a educação do trabalhador a partir do pensamento de Simone Weil[nota 1], Débora Mariz (UFMG) aponta três usos recorrentes da palavra trabalho nos textos de Weil: “ação humana transformadora do mundo”, “atividade remunerada realizada pelo ser humano no contexto capitalista” e o labor como métier, aquele que consegue realizar, ao mesmo tempo, trabalho, arte e ciência. Assim, a filósofa nos faz pensar na condição de trabalho dentro do capitalismo, mas também na forma como nos torna aprendizes de uma língua que vai da ação sistemática do corpo naquele ambiente, até os questionamentos de sua necessidade para a nossa vida capitalista submissa.

Weil ressalta esses pontos em Mística do trabalho, quando pensa o termo em chaves de recriação em etapas: “Espiritualidade do trabalho. O trabalho faz com que sintamos, de maneira extenuante, o fenômeno da finalidade lançada como uma bala; trabalhar para comer, comer para trabalhar… se considerarmos um dos dois como fim, ou se tomarmos um e outro separadamente, estaremos perdidos. O ciclo contém a verdade”. É no processo de produção da sua existência natural que o ser humano faz com que o trabalho entre na ordem cíclica da entrega, e torna-o místico também.

Nas contraposições políticas entre direita e esquerda que suscitam os estudos sobre a sua obra, Weil entendeu no trabalho uma atividade que não dignifica o homem, mas o coloca em posição de ataque e defesa perante as intempéries do mundo. E a sua compreensão de que tanto as dores quanto as alegrias de um trabalhador passam pelo corpo é um dos legados que a colocam na posição de equilibrista: entre as maquinarias possíveis da mente (a presença divina que nos cerca) e do corpo (a chance do mover-se em bando social enquanto se constrói o mundo com as próprias mãos).

Ainda em Mística do trabalho, Weil nos lembra que no corpo exaurido também se encontra felicidade: “Alegrias paralelas ao cansaço. Alegrias sensíveis. Comer, descansar, os prazeres do domingo… Mas não o dinheiro. Nenhuma poesia que fala sobre o povo é autêntica se o cansaço não estiver ali — e a fome e a sede que são provenientes do cansaço”. Estamos todos cansados e investigar quais alternativas o corpo precisa para descansar, e onde ele encontra alegria depois do esforço, parece uma forma atenta de viagem ou de equilíbrio. Quem sabe, dessa maneira, encontramos não só a graça, como também novos jeitos de escrever a palavra em oração — o conforto de seguir lado a lado ao que não se vê.

 

NOTA

[nota 1] O texto foi veiculado na publicação Pró-posições (Unicamp). Disponível em scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73072019000100553

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