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Obra incontornável para compreensão das lutas do século XX, Discurso sobre o colonialismo, do poeta, dramaturgo, ensaísta e líder político Aimé Césaire (1913-2008), acaba de receber reedição pela Veneta, traduzida pelo experiente Claudio Willer. Com notas de rodapé e extensa cronologia biográfica, assinadas por Rogério de Campos, conta ainda com ilustrações de Marcelo D’Salete, um dos grandes dos quadrinhos. Trata-se, portanto, de um lançamento editorial à altura deste clássico, que nos leva a celebrar sua importância e a interpelar as estruturas coloniais que persistem entre nós.

Nascido na Martinica, em uma família de classe média baixa, Aimé Césaire foi considerado por muitos como o maior poeta de língua francesa do século XX. Sua mãe era costureira; o pai, um funcionário público que exortava os filhos para que aprendessem não apenas a língua, mas também a literatura do colonizador.

Em 1931, Césaire conseguiu uma bolsa e foi estudar em Paris. Como aponta Rogério de Campos, o governo francês distribuía bolsas com o intuito de assimilar as elites intelectuais dos povos colonizados, criando futuros burocratas que serviriam como intermediários entre os brancos e as gentes “de cor”. Na França, Césaire travou contato com importantes nomes da intelectualidade negra. Entre eles, o senegalês Léopold Sédar Senghor (1906-2001), com quem, segundo Césaire, ele descobriu a África. Juntos, deram início a um dos movimentos culturais mais influentes do século passado: o Negritude.

O retorno à Martinica, em 1939, provocou impacto na vida dos estudantes que assistiam às aulas daquele jovem e erudito professor, profundo conhecedor da literatura francesa. Entre eles estavam Édouard Glissant (1928-2011) e Frantz Fanon (1925-1961). Nesse período, Césaire publicou a primeira versão de seu magnífico poema Diário de um retorno ao país natal (Edusp).

A enorme popularidade acabou por levá-lo à prefeitura de Fort-de-France, capital da Martinica, em 1945, cargo para o qual foi reeleito pelas cinco décadas seguintes. No mesmo ano, com o apoio de membros do Partido Comunista, foi eleito deputado da Martinica para a Assembleia Francesa, vencendo todas as eleições seguintes e se mantendo no cargo até 1993.

Filiando-se ao Partido Comunista Francês por acreditar que este seria o melhor caminho para erradicar o racismo e a exploração feroz das populações coloniais do mundo, romperia laços uma década mais tarde, escrevendo uma carta em que acusava o Partido de resistir a uma condenação dos crimes do stalinismo e de não promover a reorientação de suas práticas antidemocráticas. Ainda assim, Césaire afirmou que não estava renunciando ao marxismo e nem ao comunismo, mas ao uso doutrinário que se fazia de ambos.

Publicado em 1950 por uma pequena editora francesa, Discurso sobre o colonialismo não despertou o interesse da audiência local. No entanto, já em 1952, figurava como citação na abertura de um livro que se tornaria igualmente fundamental: Pele negra, máscaras brancas. Como narra Fanon, até o aparecimento de Césaire nenhum antilhano era capaz de se considerar preto: foi com ele que se viu nascer a reivindicação de uma negritude assumida. Em 1955, Césaire relançaria seu livro pela Présence Africaine Editions, em edição revista e ampliada. Foi quando a obra explodiu e se tornou marco incontornável para gerações de militantes ao redor do mundo, unidos na luta contra a dominação colonial.

Logo de início, Césaire se mostra implacável. A Europa, moldada por dois séculos de governo burguês, é considerada por ele como indefensável (tanto moral quanto espirtualmente); uma civilização decadente, doente, moribunda, incapaz de resolver os dois grandes problemas aos quais sua existência dera origem: o problema do proletariado e o problema colonial. “Levada ao tribunal da ‘razão’, e ao tribunal da ‘consciência’, a Europa se mostra impotente para justificar-se. Cada vez mais, se refugia na hipocrisia, tanto mais odiosa por ter cada vez menos chances de enganar”.

Seria preciso, diz ele, observar como a colonização trabalha para descivilizar o próprio colonizador, para brutalizá-lo e degradá-lo. E então, “mostrar que toda vez que no Vietnã há uma cabeça decepada e um olho perfurado, e na França se aceita isso, uma menina é estuprada, e na França se aceita isso, um malgaxe torturado, e na França se aceita isso, há um acréscimo de peso morto na civilização, ocorre uma regressão universal, uma gangrena se instala, um foco de infecção se espalha”.

E no final de todas estas violações, o veneno incutido nas veias da Europa proporcionara seu próprio “asselvajamento”. Então, num belo dia, a burguesia europeia se viu estremecida diante das tropas nazistas: uma barbárie da qual fora cúmplice ao legitimar sua aplicação a povos não europeus. Por isso, valeria a pena revelar ao burguês muito distinto, muito humanista e muito cristão do século XX, que ele carregava consigo um Hitler. No fundo, denuncia Césaire, o que não se perdoava não era o crime de Hitler em si, mas tê-lo cometido contra o homem branco; ter aplicado à Europa procedimentos até então restritos às colônias.

A despeito da reorientação nas dinâmicas imperialistas do mundo, a obra segue irrefutável. É necessário, obviamente, ler o texto com olhos críticos, retirando algumas de suas camadas ideológicas — entre elas, a crença no progresso que remete ao modelo soviético. De maneira precisa, Césaire alertava àqueles que não eram indiferentes à barbárie capitalista, que os Estados Unidos representavam uma outra forma de colonialismo, igualmente perigoso. Como não pensar na participação do país em infindáveis golpes e ocupações militares? Ou em sua genocida política de “guerra às drogas”, responsável por incontáveis banhos de sangue no continente?

Césaire chama atenção ainda para a tirania dos senhores feudais nativos em cumplicidade com a ação colonizadora. Como não pensar no Brasil de 2020? É crucial, antes de tudo, perguntarmos quantas cabeças decepadas foram aceitas até aqui. Quantos estupros? Quantos corpos torturados nas masmorras prisionais? Quantos mortos nas lutas no campo, em aldeias indígenas ou nas favelas cariocas ocupadas pelas UPPs (esse macabro projeto colonial chancelado pela sociologia colaboracionista e louvado pela imprensa comercial)? Quantos corpos dilacerados nos trouxeram a essa infecção generalizada?

Diante da impossibilidade de uma leitura que não seja atravessada pelo signo da derrota, é preciso lembrar também que a literatura da Negritude é uma literatura que nos convida ao combate, uma máquina de guerra contra o colonialismo e o racismo. Afinal, como defendeu Césaire, haveria ainda uma última chance capaz de evitar a mortalha das trevas: contra a tirania de uma burguesia desumanizada, a afirmação de uma Revolução capaz de construir uma sociedade sem classes.

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