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“É tudo culpa do editor… e de Hyde”, escreve o artista plástico e cartunista Adão Iturrusgarai em relato hilário e precioso ao final da nova edição de O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson (1850-1894), publicada pela Antofágica — um texto no qual divide com o público o processo criativo das ilustrações da obra. A edição é marcada por notável preocupação com a materialidade do livro, importante diferencial para revigorar um clássico lançado em 1886 que já possui incontáveis publicações e adaptações para o cinema ou teatro. Em mais de 60 ilustrações, Adão retrata e subverte a instigante novela em um encontro cômico e macabro do duplo Dr. Jekyll e de seu lado desgovernado, Sr. Hyde, a partir de uma visão contemporânea. A publicação conta também com capa de Pedro Inoue e projeto gráfico de Giovanna Cianelli, além de tradução inédita de Felipe Castilho e Enéias Tavares.

A dualidade que permeia história e personagens — bem/ mal, normal/ monstruoso —, é também encontrada nas diversas representações gráficas que constituem o projeto gráfico do livro. As ilustrações ressignificam a violência e o estranho, sob a ótica dupla do contemporâneo e da tradição vitoriana.n Colagens, apropriação e subversão de obras clássicas e ícones pop (Mona Lisa e Mickey figurados como monstros, por exemplo), além da interferência em objetos do cotidiano, são algumas das técnicas utilizadas por Adão. Nelas, o uso de sombras, reflexos e sobreposições de elementos contraditórios provocam e revelam pistas sobre o enredo e identidade dos personagens. Na capa (imagem abaixo), o design das letras de "O médico e" (Dr. Jekyll) se contrapõe ao de "o monstro" (Sr. Hyde). Dr. Jekyll é representado por uma tipografia formal como seu personagem, com serifas, e que remete aos tipos de letras inglesas do século XIX. Já o Sr. Hyde é representado por letras pintadas à mão livre, de forma expressiva, representando um personagem impulsivo e raivoso. Na diagramação destaca-se a interação entre texto e ilustrações. Em geral, não há limites entre essas linguagens: assim como o duplo Jekyll-Hyde, elas se conectam, se delineiam e muitas vezes se sobrepõem.

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O diálogo estabelecido com outras obras e acontecimentos "monstruosos" também contribui para construir a singularidade da edição. É o caso das palavras cruzadas de tabuleiro (scrabble), revelando nomes e relações Jekyll-Hyde, como ocorre no filme O bebê de Rosemary (1968), no qual o bruxo/satanista é revelado por meio de um anagrama do mesmo jogo. Outro exemplo é a cortina para o capítulo "Dr. Jekyll estava bastante tranquilo", em que Adão faz uma releitura da capa do icônico disco Goo (1990) do Sonic Youth, mas com o título Jekyll & Hyde Lp. A capa do álbum é uma referência ao casal que testemunhou contra os "assassinos do pântano", dupla que aterrorizou a Inglaterra nos anos 1960.

O resultado é uma obra que deixa evidente ao leitor a importância da ilustração e do design para sustentar o que é escrito. Nela, o monstro não só existe para assombrar personagens; existe também na imposição gráfica do livro como objeto, questionando outra conhecida dualidade: a separação do texto (literatura) e imagem (ilustração/design).

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