MachadodeAssis ProjetoMachadodeAssis.2019

 

 

Na primeira semana de junho, que concentrou o maior número de notícias ruins em um ano que não será lembrado pelas notícias boas, ficamos sabendo que foram vendidos em um único dia todos os exemplares da nova tradução das Memórias póstumas de Brás Cubas, editado nos Estados Unidos como um clássico universal pelo selo Penguin.

Embora ainda não se saiba exatamente quantos exemplares foram distribuídos, a questão é que a notícia pegou de surpresa a editora, as grandes livrarias e também a tradutora, Flora Thomson-DeVeaux — assim como pegaria de surpresa o próprio Brás Cubas, que no célebre prefácio da sua “obra difusa” previu que teria no máximo uns dez leitores, talvez cinco…

Alguns fatores podem explicar o sucesso aparentemente repentino de Machado nos Estados Unidos. Um deles é a busca dos leitores estadunidenses por obras alternativas ao cânone universal, como ainda é o caso da literatura do Bruxo, ou mesmo por autores negros, pois o lançamento do romance coincidiu com as grandes manifestações contra o assassinato de George Floyd. Por outro lado, o interesse em sua obra no contexto internacional vem crescendo de modo lento, mas constante, cujo maior sintoma talvez seja a conclusão que chegou Harold Bloom (já antiga, mas que foi reproduzida na presente edição) de que se trata “do maior literato negro da literatura universal”.

A excelente recepção que esta tradução em particular recebeu logo na primeira hora, merecendo elogios de um escritor bastante conhecido nos Estados Unidos como Dave Eggers, cujo prefácio à edição foi reproduzido na prestigiosa The New Yorker, também é um fator importante que, provavelmente, deu impulso sobretudo para que novos leitores conhecessem a obra de Machado.

Mas eu gostaria de destacar, em especial, o excelente trabalho de Flora Thomson-DeVeaux que, além de tradutora, como se fosse pouco, é uma estudiosa da literatura brasileira — e também uma excelente divulgadora de Machado, como atestam suas entrevistas e outras intervenções que chamam a atenção pela astúcia, pelo português impecável e sobretudo pela dedicação que demonstrou durante o longo processo de tradução (foram pelo menos quatro anos) da “prosa escorregadia” das Memórias.

Não se trata da primeira edição deste romance nos Estados Unidos; pelo contrário, já são quatro com a nova. A primeira delas, que recebeu um título que é quase um spoiler, Epitaph of a small winner, em alusão ao último capítulo do livro, data de 1952. De lá pra cá, tiveram outras duas, ambas mais fiéis ao título original, sendo a última delas relativamente recente, de 1997.

As diferenças da tradução de Flora em relação às anteriores consistem tanto em um consistente trabalho de pesquisa — esta edição é fartamente anotada, para orgulho e vergonha da tradutora, como ela própria declara na apresentação — quanto na tentativa de captar o “tom” da escrita de Machado, como vários especialistas, a exemplo de Pedro Meira Monteiro e João Cezar Castro Rocha, chegaram a apontar.

Se a tradução de 1997, assinada por Gregory Rabassa (um tradutor experimentado que verteu para o inglês, entre outros autores, Clarice Lispector, Osman Lins e Jorge Amado), privilegiou uma sintaxe mais “moderna”, muitas vezes transformando uma única sentença em duas ou três, Flora Thomson-DeVeaux buscou reproduzir o ritmo da escrita de Machado; uma escrita repleta de volteios, elipses e deslizamentos. Nesse sentido, as várias notas explicativas, posicionadas ao fim da edição, não se impõem ao leitor, e o resultado textual é menos pedagógico ou explicativo, em profunda consonância com o estilo “mais galante e mais novo” de Brás.

A respeito das notas, elas tratam tanto de questões próprias à tradução quanto de memória histórica do século XIX, com descobertas e informações úteis não apenas aos leitores estadunidenses, mas a qualquer leitor do século XXI. O que seria a Praça Valongo, a que Brás Cubas faz referência no tão comentado capítulo em que Prudêncio, ex-escravizado do protagonista e agora homem livre, açoita um escravizado de sua propriedade? E qual seria a diferença entre uma prisão, um pelourinho e um “calabouço”, a que o narrador também faz alusão, de forma errática, quando trata de outro personagem, o Cotrim?

São questões que a tradutora, em suas notas, busca esclarecer como forma de propiciar ao leitor uma experiência de leitura além da superfície, caso queira, levando em consideração os sentidos que Machado constrói ou sugere de maneira subterrânea em sua literatura, sobretudo em tal aspecto — o racial — que a crítica por tanto tempo ignorou.

Seja como for, o cínico, autoritário e vaidoso Brás Cubas, personagem típico da nossas elites e que desde o nome se confunde com o Brasil, estaria satisfeito com a fama internacional. Afinal, como ele próprio afirma, em uma frase tão curtinha mas que deve ter dado um trabalhão para traduzir, tinha “a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas”. E talvez com a leitura do romance outros leitores tenham uma ideia mais completa do que se passa por aqui — afinal Brás Cubas, de um jeito ou de outro, continua entre nós.

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