fanon



A notícia do projeto de reedição e publicação de inéditos da obra de Frantz Fanon (1925-1961) no Brasil é não só grande presente a seus leitores e pesquisadores; também configura contribuição relevante à necessidade de pensarmos em formas de luta e resistência contra fascismos contemporâneos. É o caso de Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos (Ubu Editora), com tradução de Sebastião Nascimento, uma compilação dos escritos psiquiátricos de Fanon e o primeiro desses volumes lançados como retomada da obra do autor.

O espectro psiquiátrico dos escritos fanonianos foi pouco conhecido até, pelo menos, 2015, quando da publicação de Écrits sur l’aliénation et la liberté (La Découverte), volume em que o pesquisador Jean Khalfa compilou além dos textos psiquiátricos, também textos políticos, peças teatrais e até um inventário da biblioteca particular de Fanon. A Editora Boitempo anunciou há pouco que adquiriu os direitos sobre os textos políticos do martinicano, que compõem a terceira parte do volume organizado por Khalfa. Também está prevista uma reedição do conhecido Peles negras, máscaras brancas, que está no prelo pela Ubu Editora e completa (até o momento) essa retomada.

Como se sabe, a obra de Fanon se debruça em uma crítica radical ao colonialismo, aponta a formação “colorizada” dos saberes de seu tempo, assim como — e isso fica marcado mais fortemente em Os condenados da terra, seu último livro escrito em vida —, na defesa da violência como instrumento de resistência e mudança histórica em contextos de dominação colonial. Entretanto, o que não se podia ainda mensurar com precisão era a dimensão das contribuições científicas na área da psiquiatria do martinicano, morto muito jovem, aos 36 anos. A publicação deste volume nos permite compreender como suas pesquisas empíricas e teóricas na área da psiquiatria influenciaram fundamentalmente todo o seu projeto teórico e revolucionário, nos aproximando um pouco mais daquilo que seria o projeto fanoniano de uma “clínica revolucionária”.

Pensar em uma reforma da clínica pública — sobretudo se considerarmos o sistema de saúde (sejam as instituições públicas ou as empresas hospitalares privadas) brasileiro como dispositivo necropolítico que age em dimensões diretas e indiretas — como parte de um projeto político amplo, como defendia o martinicano, aponta para uma reivindicação de políticas públicas alternativas. Assim como Fanon questionou o lugar da psiquiatria na busca pela “desalienação do negro” no projeto colonial europeu, a atual retomada de seus trabalhos ajuda a pensar uma reconfiguração do nosso precarizado sistema de saúde. Também nos fornece novo olhar para as formas assumidas por sistemas de dominação (como a experiência sistemática do racismo estrutural contemporâneo) para produzir sofrimento e opressão a corpos determinados, solapando seus sensos de pertencimento e universalidade tanto no campo social como no subjetivo.

Retomar a obra do martinicano nos tempos de agora é, sobretudo, mais uma forma possível de pensarmos algo no caminho daquilo que Fanon idealizou como um “novo humanismo”; é lançar um olhar ao passado em busca de um projeto preconizante de intervenção concreta em nosso presente, para, assim, descolonizar o nosso porvir.

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