Resenha Marcos Siscar Divulgacao julho2020

 

Marcos Siscar é poeta, tradutor e crítico reconhecido. A interrelação dessas três atividades se evidencia em sua oitava coletânea de poemas, Isto não é um documentário (7Letras, 2019). Como as anteriores, ela propõe uma experiência provocantemente imprópria de escrita e leitura, manifesta já em seu título — uma torsão do ato de nomear, através da negação e do dêitico que tanto aproxima quanto indetermina.

Tal procedimento indica uma opção pela perífrase, essa “energia da nomeação”, como define Michel Deguy no prefácio do primeiro livro do poeta, Não se diz (1999). Deslocando metonimicamente a relação entre palavras e coisas, ela faz a linguagem dar voltas, “às voltas com aquilo que falta” — como mostra o exercício, entre poético, narrativo e ensaístico, em torno da vida e do pensamento da casa, em “Endereços”, a penúltima das quatro partes do livro mais recente. Nessas voltas, vão e vêm referências biográficas, literárias, culturais várias. Já o título o liga indiretamente ao livro Literatura não é documento (1980), escrito por uma presença forte na literatura brasileira a partir dos anos 1980, Ana Cristina Cesar (1952-1983).

De outro texto de Ana Cristina, Siscar toma sua primeira epígrafe: “Percebo ainda que sou eu que sou vivida, sou eu/ que sou grafada, sou eu também que escuto/ em surdina o velho discurso que me grafa”. Aí se encena a subjetividade como efeito de um gesto de escrita feito também da escuta de vozes alheias. Em ensaio sobre a autora no volume Ana Cristina Cesar, da coleção Ciranda de Poesia (EdUERJ, 2011), Siscar aborda esse gesto, que retoma em sua poesia, associando-o ainda a um endereçamento perifrástico aos leitores. Assim, no poema-ensaio Advertência para leitores diletantes atualiza o tema baudelaireano da mulher passante: “O erotismo da linguagem atravessa o poema como a mulher bonita que atravessa a rua. Aquilo que passeia não se dirige a você. A você especialmente”.

O endereçamento ocorre aí como torsão esquiva, contrastando a imagem de apreensão fácil e seu uso para uma definição erótica da linguagem que não adere a nada nem a ninguém. O poema está na primeira parte de Isto não é um documentário, “Jardim das simplicidades”. Pluralizada, a simplicidade se dobra e desdobra, convidando a perceber como sua demanda, colocada à poesia, como à vida, pode ser simplista. Diz ainda o poema Brecha: “[…] as palavras fazendo todo sentido/ diante de nós do lado de fora tudo é simples/ absolutamente simples simples assim/ e o que de mais simples que a paixão/ o incomensuravelmente simples? gostaria que tudo fosse mas se tudo fosse/ algo haveria? a simplicidade é o que queremos/ é tudo o que queremos mas quem somos?”.

A recusa da identificação simplista entre poeta, poema e leitor pode ser considerada o eixo da ética poética de Siscar. Em nome dela se articulam, por meio de uma visualidade reflexiva, uma ontologia e uma fenomenologia da imagem e da palavra. Em todos os seus livros são recorrentes paisagens naturais e urbanas — rios, estradas, desertos, cidades, praças, e também pedras, carrapichos, cupins, poeira — e cenas de cotidiano social e doméstico. Focalizadas de perto e de longe, de cima e de baixo, entremeadas com flashes de reflexão, mostram-se sempre interrogantes, autodiferidas, trabalhando também a relação sublimadora entre poesia e altura(s), e tensionando natural e cultural, íntimo e público, interior e exterior.

“Minha vida é o que vejo” e “A vida é o que vejo. Montagem é tudo”, lemos em Jardim de vestígios, poema que é exemplo de como o livro intensifica uma fenomenologia da imagem técnica já presente em obra anterior do autor, Interior via satélite (2010). Ela já se coloca naquela negação do caráter de documentário, que aproxima a poesia do cinema e do modo por que ele solicita o real e o realismo. No poema que dá título ao livro, vários elementos referem o filme Santiago (2007), de João Moreira Salles, mas confundem numa primeira pessoa em verdade impessoal poeta, cineasta e personagem, memória, experiência e ficção. Assim se produz uma brecha de sentido, como a que “rasgava até a boca” o jardim das simplicidades e aqui aparece como o corte por onde vida, filme e poema se abrem inacabados à sua recepção: “o modo como vivi me confundiu com o que acontecia/ viver era a transformação implacável do eu em nós […] a memória fiel dos acontecimentos e o sabido atrativo dos fins/ não firmaram quem era o mordomo de quem/ de quem era a dívida ou a quem se servia// no chiaroscuro dos pronomes, estampado no meio da tela/ vê-se agora um corte uma cicatriz/ ou inversamente/ um rasgo para a plateia”.

A segunda parte do livro chama-se justamente “Cinema”. Seu poema inicial, Gênesis, ecoa o início bíblico: “No começo era a luz e o movimento […] No começo era o mundo. A transformação do mundo em mundo. E quase ao mesmo tempo o movimento que simulava seu fim”. Origem e fim são ficções, mostra a poesia de Siscar em vários momentos, lembrando que tudo está sempre começando e terminando. A imagem é, então, emblema desse modo de acontecer, indicado na epígrafe tomada do crítico de cinema Serge Daney (1944-1992) — “Le cinéphile est celui qui sait que ce qu’il regarde est em train de disparaître” (“Cinéfilo é aquele que sabe estar prestes a desaparecer aquilo que olha”) — e em seguida no texto introdutório de Siscar: “O que vivo é o que vejo. E o que vejo, vivo. […] Por algumas semanas, vi filmes e escrevi textos. […] poderia continuar para sempre. Quando me ocorreu essa ideia, parei. Quis continuar desaparecendo pessoalmente. Foi o que fiz. Saio daquele filme e entro neste.

No poema ou no filme, a imagem, como a da casa de “Endereços”, diz da difícil alegria de partir, voltar, acolher, perder, em que se identificam vida e escrita. Esse movimento retorna nas “Traduções impenitentes”, última parte do livro, que termina recomeçando. Pois nela a voz do poeta se performa através da reescrita de vários textos alheios, de Paul Celan a Manuel António Pina, Emily Dickinson, Deguy, de novo Ana Cristina e Baudelaire. Misturando formas e vozes, Siscar nos desafia a entender que o cinema é sua poesia e sua prosa, como diz em Making of, mas também — remetendo ainda a Mallarmé — seu teatro, um teatro que “mostra a sombra que carrega. A sombra que cresce de dentro e o acompanha. Essa sombra que é ele e que sou eu”.

** O título deste texto é inspirado no da coluna que Siscar publica na revista Mallarmagens desde março deste ano — Oficina de fotogramas selvagens.

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