Resenha Javier Quim Llenas Companhia das Letras Divulgacao

 

Em uma livraria de Oxford (Blackwell’s, no andar dos livros usados), Tomás Nevinson, um ainda muito jovem estudante da prestigiosa universidade local, folheia um volume de T. S. Eliot enquanto aguarda o encontro com um desconhecido que pode lhe salvar de um tremendo imbróglio. Muitos anos depois, em um apartamento de amplas sacadas em Madrid, Berta Isla se move entre textos de Melville e Dickens, livros que ocupam o tempo de uma espera infinita, a espera por Tomás, que depois dos versos de Eliot e do encontro em Oxford teve a vida bruscamente desviada. Entre leituras feitas ao acaso e leituras buscadas, encontros arbitrários e imensos, prolongados desencontros, se faz Berta Isla, o mais recente romance de Javier, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em tradução de Eduardo Brandão.

“Cinza na manga de um ancião... O pó que no ar pairou marca o ponto onde um conto acabou”, lê Tomás Nevinson no livro que serve como signo de reconhecimento: assim estava combinado, que segurasse um volume de Eliot e aguardasse a abordagem do homem que poderia lhe salvar a pele. Estava acusado de um crime que não cometeu, o assassinato da jovem com quem se relacionava intermitentemente em Oxford, ela uma trabalhadora de outra das livrarias da cidade, e precisava da ajuda de um certo Mr. Tupra, recomendação de um dos dons da universidade. Mas os favores naquela Inglaterra do começo dos anos 1970, ao menos para alguém com as capacidades de Nevinson – um brilhante estudante, exímio na transmutação dos idiomas e dos sotaques, bilíngue, em espanhol e inglês, desde o nascimento – custam demasiado caro e então os dias de Tomás já não seriam os que havia esperado ou mesmo desenhado para si.

Em Madrid, por aquele então, à espera, se encontrava Berta Isla, às voltas com o ocaso do franquismo, as passeatas que enfim ocupavam as ruas da capital espanhola, com bruscas iniciações amorosas e principalmente com a expectativa do retorno de Tomás, com quem dividia os planos de vida adulta desde a adolescência e com quem se casaria anos depois, tão logo tivesse fim a experiência inglesa de Tom. Mas esse é um dos primeiros desencontros, e o embrião dos desencontros futuros, do romance que leva o nome da sua protagonista. Ocorre que Tomás não volta, ao menos nunca por inteiro, e a que levará a seguir será uma literal vida dupla, entre a rotina em Madrid, com trabalhos junto à embaixada inglesa, e longos serviços no exterior, em paragens nunca nomeadas, sob o mando dos serviços secretos do país que escolheu como o seu, e que o demanda sem cessar, desejoso do seu vigor e das suas tão peculiares capacidades.

Javier Marías opera algumas sortes de retorno em seu último livro, como já é comum para os que acompanham detidamente uma obra que se desloca por preocupações e temas nítidos e reiterados. Em Berta Isla, o motor da narrativa é a engrenagem (tentacular, sempre perene) dos serviços secretos, questão que já havia sido transposta à sua literatura na trilogia Seu rosto amanhã. Também estão presentes, novamente, como em quase todos os seus livros, os fragmentos de Shakespeare, desta vez evocado quando da discussão entre Tomás e Berta sobre a natureza do engano e os limites da dissimulação; para tanto, comentam e citam passagens de Henrique V. E, como outras vezes no universo já caudaloso do autor, Berta Isla é um livro que se recolhe e se expande para outros livros, romance sobre a leitura, as chances da interpretação e mesmo sobre a força da citação.

Tal como uma das últimas leitoras catalogadas por Ricardo Piglia, Berta Isla se refugia nos textos tanto para preencher a morosidade do tempo presente (um tempo sem Tomás e sem a vida que imaginava poder viver) como para emprestar sentidos aos fatos e ocorrências que a tocam ou rodeiam – isso desde a pormenorizada leitura da imprensa quando da Guerra das Malvinas (para onde imaginava que o marido fora enviado como espião a serviço das tropas britânicas) às releituras de Charles Dickens que parecem querer dizer que a problemática do acesso ao universo do outro não se limita ao que não sabe sobre Tomás, mas se estende a qualquer experiência afetiva se perscrutada com a devida exigência. Mas, se de outros livros se trata, a presença intertextual mais carregada no romance é a de T. S. Eliot, cuja primeira e acidental leitura permanece a rondar a memória e a dicção de Tomás e Berta, e serão abundantes as passagens que retomam os versos do autor de Little Gidding.

Com as extensas, volumosas ocorrências de Berta Isla, Javier Marías amplia um pouco mais as linhas de um dos mais relevantes projetos narrativos contemporâneos (um exercício que remonta ao começo dos anos 1970, com Los dominios del lobo e Travesía del horizonte, e que segue em construção) e volta a desenhar o seu mapa autoral da cidade de Madrid. Entre os bairros de Chamberí, Argüelles, Goya, o saguão do Aeroporto de Barajas e as linhas de fuga para Oxford, Londres e o tão vasto como desconhecido território das atividades secretas, amplia-se, também nas cartografias, a tinta dessa ficção.

 

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