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Uma antologia pode não apenas reproduzir, historicizar ou conservar valores que conformam o conjunto de uma obra ou o cenário de autores reunidos pelo gesto do organizador. Ela pode celebrar, sem ser tão só o encerramento da tradição. Uma antologia pode, se assim o desejar, desmontar, destituir, emaranhar o familiar; criar outros acessos ao que já foi publicado; oferecer ao leitor a sensação de adentrar pela primeira vez onde há muito já habita.

Na recém-publicada Poesia +, antologia da obra de Edimilson de Almeida Pereira, elaborada pelo próprio poeta para a Editora 34, o gesto desconstrucionista incide sobre o conceito de edição orgânica. Não encontramos, como se imagina, a tradicional recolha de poemas separados pelos títulos aos quais originalmente pertencem. A matéria poética publicada pelo escritor mineiro de 1985 a 2019, em mais de duas dezenas de livros de poesia que configuram o pujante e rigoroso trabalho de Edimilson, é reorientada de acordo com entradas pensadas especialmente para a antologia, espécies de nós temáticos intitulados “Esse corpo”, "Poesia +”, “Ideias do mar”, “Ondas do rádio”, “Imperfeito cantar”, “Palavra-pênsil”, “Casa-múndi”, e um último, “Inédito”, a reunir novos poemas. O que poderia se apresentar como uma reconfiguração cartográfica de obras, reavendo às mãos o que se esgotou ou o que não se encontra senão no labirinto do passado, revela-se um desafio ao mapa. Trata-se de um árduo e crítico trabalho de atualização do passado no presente, por meio do qual a tradição pessoal e coletiva se transmite em imagens do pensamento, a conceder outra origem à herança, ao legado, à ancestralidade.

Edimilson, além de poeta e autor de literatura infantil e infantojuvenil, é também professor na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador das culturas populares e afro-brasileiras. Nesta, e para além das obras literárias do escritor, lemos a cifra de histórias atravessadas por políticas da morte (necropolíticas), em oposição às quais a justiça é reivindicada em forma de grito, canto e ritmo, mas, principalmente, em busca do direito à transformação. Como pontua Roberto Zular (USP) no prefácio, trata-se, sim, de poesia negra e/ou afro-brasileira, mas também da “difícil potência ética do dizer” (p.7). Se as genealogias culturais e simbólicas trabalham as palavras de Edimilson, elas também são mudadas pelo presente da enunciação e da evocação corporal e verbal. Não apenas os poemas são alterados pela posição insuspeitada que agora adquirem na antologia, estabelecendo imprevistas relações de vizinhança com poemas de outros tempos e circunstâncias. Também eles alteram o significado e valor de suas disposições e jogos originais, assim como pensou Borges ser inerente à literatura criar seus precursores, transfigurando do presente o modo como o passado nos olha. 

Um de seus versos nos diz: “A primeira lição do arqueólogo é não se reconhecer nos ossos que recupera” (p. 40). Por lidar com a escavação em busca daquelas Negras raízes mineiras ou d’A saliva da fala (títulos de obras ensaísticas de Edimilson sobre o Congado e a poética banto-católica), pressente-se em sua poesia que a significação e a dignidade de uma cultura nem sempre se abreviam na antinomia entre achados e perdidos, tradição e modernidade, resistência e tragédia. “Esse corpo”, lugar de onde a antologia parte (e para onde se volta a cada corpoema), é uma profunda investigação sobre pactos, alianças e heranças, que fundamentam o que outrora fora descrito como as estruturas elementares do parentesco. Ou o que instigou Freud a apropriar-se do unheimlich (o estranho familiar dos românticos alemães), com o intuito de fazer justiça aos nossos complexos processos modernos de pertencimento e estranhamento. No poema denominado Bodas, em que se aborda as margens da comemoração, lemos: “O que se corta/ juntos,/ em duas metades/ diz muito.// Diz mais, no/ entanto,/ se ajuntado/ de outra maneira// depois” (p. 50), para então finalizar: “Eis o clã/ recomposto nas/ perdas,/ que são ganhos./ Saudemos, pois, em bodas/ a mão que emenda/ quando poda” (p. 51-52). 

Diante da desunião, do esgotamento simbólico e corporal, do segredo e da recusa, dos processos de inclusão e exclusão que formam e deformam o familiar, a experiência de corte paradoxalmente promove seu reverso: o da junção não como obrigação, mas escolha. “Não se quer do clã,/ quer-se” (p. 55). Realizando temática e estruturalmente um percurso desejante e reparador, Poesia + se configura como um acréscimo que retorna, um adiamento que desdobra, uma soma integrante ao que parecia já enraizado. Um suplemento, muito mais do que um complemento, porque não há falta que seja suprida com o mesmo, assim como não há sentido que em si não seja já diferença. Não se obriga alguém a ter hora marcada com o que não se calcula no tempo.

“Não recites, não receites”, escreve Edimilson. Mesmo diante do livro sagrado, dos rituais tradicionais, dos valores ancestrais e dos lugares de culto, não convém entendê-los senão ambiguamente, com o necessário equívoco por serem códigos a decifrar. “Se houver tempo, devolve a poesia aos répteis./ Não leias como eles/ a escrita rupestre: começa a duvidar das leis/ que civilizam o bosque” (p. 77). Aos poemas antológicos importam mais as imagens indóceis, como a de uma “Cabeça de boi/ na enchente” que “tem o efeito das primeiras palavras” (p. 80). Em Brasiliana, o poema intertextual transforma-se em metaobra, no qual o poeta ironiza: “Antologias brasileiras têm que exibir pássaros, além da poesia” (p. 107). Mas não é a partir desses animais tornados exóticos – tão demandados pelo olhar estrangeiro para domesticar e comercializar o infamiliar – que a poesia se alia à animalidade. Em Agonia e sorte de Stela do Patrocínio, escreve-se sobre essa espécie de força inqualificável, indomesticado animal que fere a sintaxe, e portanto abriga o nascimento comunitário da palavra: “O nada porém me recupera: reino dos bichos e animais é o meu nome” (p. 105).

Nesse sentido, o cálculo que informa a modernidade na poesia, o tão celebrado verso livre, se revela incalculável diante de um sem-número de omissões e violações. A liberdade com que se fantasia e a cesura que serve à identidade poética ocorrem às custas dos efeitos do corte, que são a exclusão e a invisibilização. Em Edimilson, o passo a mais é dar um passo pra trás, para denunciar os modos como a alforria (do verso, em verso, mas não só) provoca a criação de outras amarras, substituindo cordas por arames. Não somos tão livres como gostaríamos, nem tão presos quanto gostariam que fôssemos. Em poema dedicado a Artur Bispo do Rosário e João Cândido, sintetiza-se a fórmula: “Quem os prende e/ exila mais libera sua revolta” (p. 133). Os bichos estão aí, e nos lembram de todas as margens necessárias à restrita comunidade dos homens.

Mas não é só com o tambor e com o grasnar que o poeta aprende o ritmo da libertação. É também com o vendedor ambulante e seu “signo em rotação” (p. 187), que, se bem anunciado, garante a feira do dia. Por esse girar o signo, na voz, entendemos o difícil equilíbrio entre o comando do vendedor e o ser comandado pela fala automatizada, isto é, por padrões rítmicos da língua utilizada, capazes de acessar o que o controle não consegue. Entonação, modulação e repetição são cruciais para que a poesia realize no corpo, e em movimento, seu objetivo que não é comercial, mas de sobrevivência biológica e sensível. Ou no caso de Bispo do Rosário, que não é de síntese, mas de excesso. A esses artistas e artesãos, soma-se o trabalho de Marcionílias, Sebastiãos, Antenores, Raimundos, remadores, mineradores, curandeiros, cujos ofícios são também lição das coisas, não aquela formal, exterior, mas aquela cuja informalidade não cessa de denunciar a reversibilidade entre precariedade e potência. Recusando serem tomados como pássaros exóticos, todos estes nomes próprios e quaisquer criam uma comunidade suplementar, ética e política. A exemplo do poema Como desmontar, a intersecção de reinos que deveriam permanecer à margem acaba por afrontar a lição colonial, e para isso “A mão torna ao desmanche// da herança: mesa, armário” (p. 88). É corajoso o poema que abre mão de suas marcas, fazendo do legado não a sua garantia futura, mas a experiência de um desapossar-se.

Para quem ainda não conhece a obra de Edimilson de Almeida Pereira, uma das vozes mais inquietantes e imprescindíveis do contemporâneo, Poesia + se oferece como oportuna experiência de inéditos acessos; mas, para quem já o acompanha, trata-se de um encontro imprevisto, justamente pelo sentido do mais, ou do a mais. Como no poema Oitavo dia – feito não de estrofes, mas de parágrafos (ou versículos) – em que o dia suplementar é sinal de toda uma mudança de paradigmas, termina-se dizendo: “Tudo em verbos. O gênesis revisto e aumentado” (p. 131). O poeta em alguma medida altera a precursora obra própria ao incluir nos mitos e processos de criação os dias de destruição, no conjunto das criaturas as que foram eliminadas, na fala o silêncio – inclusão tão necessária para que entendamos que nas nossas narrativas há sempre algo por se fazer ou desfazer.

A soma no título de Poesia + não é, portanto, resultado, conta fechada, débito sanado: não poderia o ser porque os pesos ameríndios, africanos e ocidentais, além das medidas, são diferentes, e cobram em diferentes moedas. Não por acaso, participam dessa renegociação com a história e com a literatura dialetos crioulos, o inglês, o francês, o espanhol, o português, línguas desaparecidas ou transformadas. Muitas são as linguagens e as formas para tentar reposicionar a ferida – inclusive, é disso que se trata a substituição da cesura dos versos, tão característica da poesia de Edimilson nesses mais de trinta anos de escrita, pela espécie de poema em prosa, compacto, que configura os poemas inéditos, desejosos de, no contemporâneo que nos ameaça por todos os lados, “aumentar a área de atrito” (p. 335). O alarme agora prolifera sem poda, e entendemos por esta mudança de pulsão que nenhum tempo, mapa ou mitologia é irrevogável. Que nenhuma poética é permanente. Afinal, uma voz antiga se torna inédita se corajosamente aceita não só revirar as águas, mas deixar-se revirar pelo que há de incompreensível nos familiares mares em que submerge. Um de seus mais incisivos poemas nos alerta: “Não/ tens/ que permanecer ao lado/ da estátua,// dentro do esquema./ O coração,/ que nada mede,/ é o mundo” (p. 216).

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