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Abaixo, uma resenha escrita pela poeta, ensaísta e escritora Maria Esther Maciel (UFMG), publicada na revista lusitana Colóquio/Letras de n°202, sobre a antologia de literatura erótica da pesquisadora Eliane Robert Moraes (USP), lançada pelo Selo Suplemento Pernambuco, da Cepe Editora.   

 

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Apesar das restrições morais da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX – ou até mesmo graças a elas –, o erotismo não deixou de atravessar a literatura desse período por meio de referências subtis e imagens insinuantes. É o que evidencia a antologia O corpo descoberto, organizada pela investigadora Eliane Robert de Moraes.

Nos 52 contos eróticos que integram o volume, a imaginação tem um papel medular, visto que é através dela que os 22 autores selecionados – que vão do romântico Álvares de Azevedo (1831-1852) ao modernista Mário de Andrade (1893--1945), passando por Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, Cruz e Sousa, João do Rio, Aluísio Azevedo e Raul Pompeia, entre outros – realizam uma sondagem instigante do imaginário erótico e da vida íntima da sociedade do tempo. Desse repertório faz parte, também, a carioca Júlia Lopes de Almeida, única mulher presente no livro como escritora, o que vem atestar a escassa participação feminina no contexto literário daqueles anos no Brasil, sobretudo no que tange à esfera do erotismo.

Aliás, os contos dessa autora, que viveu entre 1862 e 1934, estão entre os mais vigorosos da obra em questão, pela inegável contundência com que ela tratou de questões femininas, sob uma ótica completamente distinta da que foi legitimada pela literatura de sua época. Notável, nesse caso, é a narrativa intitulada O caso de Ruth, sobre a história de uma jovem que, tendo sido abusada sexualmente pelo padrasto na adolescência, conta ao noivo o acontecido logo antes da data do casamento, e, mesmo após ser "perdoada" por ele, toma uma atitude radical que surpreende a todos. Trata-se de uma narrativa que, com densidade e ousadia, desestabiliza as convenções sociais e literárias do tempo.

Os contos da coletânea, na sua totalidade, são um deleite para os leitores. Distribuídos em dez secções temáticas, eles oscilam entre o lirismo, a ironia e o humor, sem deixarem, por vezes, de entrar na esfera do trágico e do insólito. Alguns versam, por vias oblíquas, sobre as descobertas do corpo e os prazeres perversos; outros, sobre desejos proibidos, amores enfermiços, transgressões imaginárias e fantasias irreveláveis. Vários se detêm nos objetos pessoais – um leque, uma cadeira, um vaso, uma colcha nupcial – que adquirem vida pelo que representam nos espaços de intimidade de quem os possui ou possuiu. Há também os centrados na dor ou no desassossego de viúvas e viúvos, ora às voltas com os fantasmas do passado, ora atormentados pelos chamados do corpo e pelos ardis do desejo. A esses somam-se vários outros que têm como personagens monges libidinosos frequentadores de prostíbulos, esposas inquietas, virgens profanadas, rapazes seduzidos por mulheres mais velhas, tísicas sedutoras e homens atraídos por outros homens.

Vale ressaltar a inclusão, no conjunto, de alguns relatos de feição lúgubre, e mesmo fantástica, o que condiz com as tendências sombrias de certa vertente literária remanescente do Romantismo, visível sobretudo na secção De assombros e assombrações, onde se acomodam narrativas atravessadas pelo excesso, que, nas palavras da organizadora, devassam "com inesperado vigor as alcovas, as tavernas e as alamedas noturnas que comumente lhes servem de cenário".

Extravagâncias não necessariamente góticas incidem aqui e ali, a exemplo de Um modelo de marido, em que Coelho Neto (sob o pseudónimo Caliban) conta a história de um homem que, após o falecimento da mulher, uma exímia cozinheira e companheira amorosa, recolhe todos os ossos dela e manda fabricar, com essa matéria-prima macabra, objetos diversos, como talheres, botões de roupas, cabo de guarda-chuva e peças de xadrez, os quais ele passa a usar com volúpia e fervor, de modo a exercitar uma espécie de fidelidade mórbida à falecida e mantê-la sempre por perto.

Outro conto estranho, mas um tanto divertido, é Sonho, de Olavo Bilac (sob o pseudónimo Bob), inserido na secção Dos excessos da noite. Nele, um personagem conta aos amigos ter sonhado que era um leitão assado servido no banquete de casamento de sua noiva com outro homem, "um sujeito pançudo, lorpa, com umas enormes orelhas despegadas da cabeça chata, hediondamente calva". As cenas oníricas que compõem o relato são risíveis e de intensa sensorialidade, como esta: "Pior foi a minha tortura quando ela, minha Alice, inclinando-se sobre a mesa, – com sua mão pequenina! com sua mão perfumada! com a sua mão que eu tantas vezes beijei delirando! com a sua mãozinha enluvada de branco – tirou do meu corpo uma das rodelas de limão que me enfeitavam, e começou a chupá-las devagarinho, com os seus divinos lábios vermelhos, úmidos, gulosos de beijos!..."

A participação de um jocoso Olavo Bilac na antologia, sob a pele autoral de Bob, não deixa de ser uma boa surpresa, visto que o autor sempre foi mais conhecido no âmbito da poesia parnasiana brasileira. Assim como Sonho, os outros quatro contos selecionados do autor são astuciosos no uso de artifícios alusivos e entram nos domínios da comicidade. Breves, todos eles trazem metáforas picantes e, por vezes, tangenciam a anedota, até mesmo pelo coloquialismo com que as histórias são narradas. O tom malicioso e irreverente que os caracteriza não deixa de imprimir um traço satírico, ainda que ténue, ao livro.

No que se refere ainda aos contos extravagantes, vale destacar também O bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, inserido na última parte do volume, Das descobertas do corpo, mas que poderia igualmente figurar na primeira secção, Dos excessos da noite, haja vista que se trata de uma história de carnaval com elementos da literatura de terror. Com uma liberdade mais atrevida no trato do erotismo e dos elementos devassos atribuídos à permissividade própria do carnaval, o conto já prepara estrategicamente o terreno para a última narrativa do livro, O besouro e a rosa, de Mário de Andrade, cujo enredo traz uma rapariga pudica que descobre sua sexualidade após um besouro entrar sob a camisola e percorrer seu corpo, durante uma noite escaldante de verão. Um arremate que assinala, decerto, a irrupção de uma nova sensibilidade erótica na literatura brasileira do início dos anos 20, deflagrada pelo Modernismo.

Mesmo com eventuais desvios para uma obscenidade mais explícita, pode-se dizer que quase todas as narrativas de O corpo descoberto apresentam uma mistura perturbadora de decoro e lascívia, ingenuidade e malícia, desejos contidos e gozos febris, inserindo-se, como bem apontou a organizadora, no registo da alusão. Neles, a obscenidade nem sempre se dá a ver no corpo visível da linguagem, mas se revela nas entrelinhas, nas frestas e nas intermitências. Afinal, como já escreveu Roland Barthes em O prazer do texto, o erotismo se inscreve sobretudo na "encenação de um aparecimento/desaparecimento", na "pele que cintila entre duas peças, entre duas bordas" [nota 1] e, por isso mesmo, seduz.

É precisamente esse jogo do esconder/revelar que, nas histórias compiladas no livro, põe em desassossego não apenas as personagens envolvidas, mas também os leitores, como acontece, de maneira singular, nos cinco contos de Machado de Assis que figuram na coletânea: A causa secreta, Uns braços, Missa do galo, Terpsícore e Pílades e orestes – este, incluído na secção De homem para homem, pelas alusões homoeróticas, presentes também em textos de Afonso Arinos, Raul Pompeia e Domício da Gama. Nestes, como explica Eliane Robert Moraes no prefácio, predomina a "referência geral, sem detalhes, daquilo que está sujeito aos tabus de caráter moral e que afeta o corpo". Ou seja, ao se valerem de elipses na abordagem de questões relacionadas à sexualidade, os autores compilados não apenas protegem seus textos diante das estritas regras da moral vigente nas décadas anteriores ao advento do Modernismo, como também estimulam, com esses recursos de encobrimento e dissimulação, as fantasias de seus leitores.

Assim, a partir de um detalhado e revelador trabalho de pesquisa, Eliane Robert Moraes – grande estudiosa das figurações do erotismo na literatura e autora de livros essenciais sobre o tema – não só perscruta a geografia erótica da prosa ficcional brasileira compreendida entre o Romantismo e o Modernismo, mas mostra com vigor como o amor delicia-se com o imprevisto e com os caprichos estranhos do desejo.

 

NOTAS
1. Roland Barthes, O prazer do texto, trad. Jacó Guinsburg, São Paulo, Perspectiva, 1977.

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