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Resenha Aga Reproducao

 

Imagine lésbicas, negros, hippies, ateus, párias, poetas e ladrões de metralhadoras em punho marchando ao lado de jovens. Imagine que esses e outros grupos de marginalizados finalmente se levantam para combater uma terrível opressão, do porte de um iminente genocídio indígena. Não, essa não é mais uma resenha de Bacurau, longa-metragem dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que arrebatou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e vem provocando um intenso debate crítico no Brasil. É uma cena de Agá, romance de 1974 do também pernambucano Hermilo Borba Filho (1917-1976). Se essa associação entre um filme de 2019 e um livro de mais de 40 anos atrás aconteceu durante a leitura da abertura desse texto, foi porque ela é tudo menos equivocada.

O levante armado em defesa dos povos originários faz parte de um capítulo dessa obra-prima sui generis intitulado “Eu, hermafrodito”. Nele, o narrador ganha a vida oferecendo sua ambiguidade sexual para a fruição de poderosos e com esse poder manipula governos, revoluções, guerras, a bolsa de valores e até impede uma guerra nuclear. Dado relevante é que a transformação desse protagonista, antes homem, num ser ambíguo acontece às 11h30 da noite do dia 31 de março de 1964, ou seja, às vésperas do golpe que instaurou a ditadura civil-militar no Brasil.

Embora no capítulo a ditadura apareça explicitamente apenas nessa data, a analogia de que o narrador se serve para explicar sua mudança de configuração sexual evidencia que a política é, ao lado do erotismo, uma das linhas de força de todo romance: “foi como se, pertencendo a uma organização de esquerda, num país socialista, de repente me visse transportado(a) para engrossar as fileiras de uma organização de direita, num país capitalista. Dois mundos completamente diferentes, eu mudando com eles, embora me agradasse a ideia um pouco marota de que eu me marcara mesmo pelo centro, quero dizer, no meu centro estavam os órgãos da minha organização: deixavam-se penetrar, penetravam, trocavam, agrediam e aceitavam a agressão, causavam espanto e deleite. E uma característica a mais de centro: não amava. Possuía ou deixava-me possuir e pronto”.

Nesse caso, a ambiguidade sexual é, percebe-se, também ambiguidade moral ou aquilo que se poderia chamar, em política, de pragmatismo radical (salve, Centrão). Não à toa, é só depois de deixar de ser hermafrodita, isto é, só depois de se livrar da ambivalência, que o narrador decide liderar a revolta das massas oprimidas contra o plano de “extinção de todas as tribos indígenas que eram um peso morto para a economia do país e uma vergonha para os investimentos na obra internacional”, a ser levado a cabo em rede nacional durante um game show televisivo.

O que no romance de Hermilo Borba Filho pode parecer profecia, se pensarmos na incitação ao fogo e à invasão das terras da Amazônia por garimpeiros, mineradores e fazendeiros realizada pelo governo Bolsonaro, talvez seja apenas mais uma confirmação de que as estruturas que sempre condenaram o Brasil à barbárie e ao massacre de negros, pobres, gays, mulheres e indígenas pouco mudaram.

Ser uma denúncia esteticamente impecável de uma realidade atroz já não seria pouco mérito, mas é imprescindível ressaltar que Agá é muito mais. Trata-se de um romance magnífico, altamente experimental e que, a despeito da complexidade, lê-se com imenso prazer. O fato de uma obra de tal quilate ser pouco ou nada conhecida (era o meu caso até o convite para essa resenha) talvez esteja relacionado com a dificuldade em descrevê-la e classificá-la. Embora seja um romance, seus capítulos podem ser lidos de forma independente, como contos. Eles têm um mesmo narrador, mas que se apresenta com diferentes personalidades, e as ações se dão em tempos e locais distintos e incompatíveis, com apenas alguns elementos em comum: uma mulher, o quarto da infância, o trabalho de escritor. É contemporânea e distópica, trágica e cômica, lírica e realista.

Logo no primeiro capítulo, a personagem principal passa por uma transformação que talvez crie uma trilha para quem pretende percorrer o romance. Passeando por uma praça, é ameaçado por um cachorro. Para se safar, numa “inspiração súbita, com certeza soprada pelo Espírito Santo”, ele recorre ao que afirma ser a frase menos lógica deste mundo: “Que foder comigo?” A essa proposta sucedem uma série de transformações: o cachorro torna-se um indiano que lhe oferece uma cobra coral, a cobra-coral se converte nos sapatos do narrador. Mais adiante na caminhada, encontra um grupo de figuras célebres, reais ou ficcionais, que irão realizar uma espécie de sabatina. Calabar, Dom Casmurro, Joaquim Nabuco, Hitler, Stálin, papa João XXIII, Graciliano Ramos, Frei Caneca, John Kennedy, D.H. Lawrence, Monteiro Lobato, Antônio Conselheiro e Tiradentes, entre outros. Não à toa, o primeiro a saltar à sua frente é Macunaíma, que lhe pergunta: “Você tem o meu caráter?”. O narrador responde na chave da psicologia ou da moral, mas talvez a característica em comum de ambos seja outra: a metamorfose.

Daí o narrador que se transforma de Hermilo, o escritor, em padre, guerrilheiro, hermafrodita, embaixador, deputado, agente funerário e até em cavalo e boneco de teatro de sombras. Que ora é jovem, ora é velho. Que num capítulo é libertário, no outro reacionário. Que pode de casto num texto virar devasso no outro, de misericordioso virar sádico. Esse primado da metamorfose se dá a ver também no aspecto formal, que parte do romance confessional para virar diário, passa por texto teatral, por história em quadrinhos... Se há algo de permanente além da mudança, corrigindo Heráclito, é apenas esse eu que, ameaçado de morte pelas ditaduras, pelo totalitarismo ou pelas coronárias, apega-se à vontade ferrenha de viver, nem que para isso tenha de se tornar traidor ou colaboracionista. Nesse sentido, as metamorfoses em Agá talvez sejam mais como as que Gaston Bachelard detecta em Lautréamont, detentoras de uma potência de vida agressiva, do que as que detecta em Kafka, sempre regidas pela desgraça, pela queda, pelo entorpecimento, pela morte.

O corpo grotesco, composto de carne, sexo, fluidos, excrementos, é central no universo hermiliano, como explica o ensaio que abre o livro. O capítulo sobre o hermafrodita, por exemplo, ao listar as atrações do game show no qual será transmitido o extermínio indígena, ecoa os inventários e a progressão meticulosa dos exercícios de crueldade presente nas obras do Marquês de Sade: “homens que engoliam espadas, homens que engoliam chamas, homens que engoliam giletes, homens que comiam vidros, homens que comiam sapos vivos. (...) Vi coisas sensacionais: um índio pele-vermelha, especialmente convidado, escalpelar um preso político, competindo com outro, em prazo recorde; uma moça inteiramente nua espancada cientificamente como exemplo de aula a alunos de um curso de pós-graduação; dois concorrentes que cortaram os pulsos para ver quem morria mais depressa, dando-se à família do ganhador (?) um prêmio bastante polpudo”.

Outra das maravilhas de Agá é seu caráter confessional absolutamente peculiar. Michel Leiris, no belíssimo Da literatura como tauromaquia, prefácio à sua autobiografia A idade viril, explica o tipo de escritor que gostaria de ser por meio de uma analogia com a arte do toureiro: “o matador que corre perigo em nome da oportunidade de ser mais brilhante que nunca, e mostra toda a qualidade de seu estilo no instante que é mais ameaçado”. A ameaça contra si mesmo que o autor francês elege para escrever sob risco é a da exposição da própria vida sexual sem idealizações ou disfarces. É esse também um dos riscos de Hermilo, mas sua estratégia é completamente oposta. Enquanto Leiris opta por rejeitar toda a fabulação e só admitir como materiais fatos verídicos, o escritor brasileiro, como um ator, leva às últimas consequências a fabulação, e com esse artifício é capaz, apesar do caráter confessional, de viver muitas vidas e incorporar experiências diversificadas, mesmo as mais arriscadas em tempos de polarização política. Ao submeter algumas personagens às brutais torturas perpetradas por agentes da ditadura de 1964, Hermilo foi muito além, vê-se, dos riscos à sua reputação causados pela exposição de seu imaginário licencioso.

O narrador explicita já no primeiro capítulo seu arriscado projeto, cujo fio condutor é a comunhão entre sexo, política e morte: “Voltei ao gabinete, nada de reescrever necas, apenas abri a gaveta da secretária, tirei a pasta com o romance que iniciara em 1964 e que pretendia continuar escrevendo, li as notas, o arcabouço, pensei em toda aquela gente, tive uma náusea. Para que inventar estórias quando a importante era a minha, quando me aconteciam coisas estranhas, quando toda uma seiva saía dos meus anos, quando uma palavra, apenas uma palavra, por exemplo coxas, poderia desencadear todo um processo, ideia puxando ideia, acontecimento acontecimento, isto sem contar com os meus martírios das sextas-feiras e a vida feérica, alucinante, extravagante que eu levava com Eva? É melhor inventar em causa própria, embora baseado na verdade incompreensível para os demais. Afinal de contas, estou escrevendo no tempo da censura e para ela cago”.

O fascinante é que esse possível narcisismo aliado ao gênero confessional resulte numa voz que incorpora tantas personas. Com forte tom satírico, o capítulo “Eu, embaixador” traz um escritor num posto diplomático em alguma ditadura latino-americana levando uma vida devassa. Mais realista e filosófico, “Eu, padre” mostra o narrador num seminário em Olinda, onde reflete sobre as maneiras com que os religiosos lidam com o fantasma do sexo e envolve-se na luta da Igreja contra o subdesenvolvimento e a ditadura. “Eu, guerrilheiro (Fragmento)”, escrito em forma de diário, mistura uma célula de insurgentes numa serra pernambucana com o intertexto do Quilombo dos Palmares. A política se mescla ao gênero fantástico em “Eu, agente funerário”. “Eu, deputado” é uma distopia sobre um Brasil totalitário. “Eu, lírico-trágico-cômico-pastoral” tem como narradores um cavalo, um personagem tradicional do teatro de sombras turco e um homem que deseja estrangular a esposa e está num hospital psiquiátrico. Dessa galeria fazem parte ainda “Eu, hermafrodito” e “Eu, o-morto-carregando-o-vivo (Epílogo)”, último capítulo dessa nova edição, em que a biografia se metamorfoseia em literatura ao tratar da cirurgia cardíaca enfrentada por Hermilo.

Completam a obra “O Livro dos Mortos”, “O Livro das Mutações” e “O Livro das Confissões”. O primeiro é uma HQ, narrada por aqueles que tombaram lutando contra a opressão do Estado desde o Brasil Colônia: de uma vítima do Santo Ofício a Antônio Conselheiro, passando por Zumbi dos Palmares, Gregório de Matos, Tiradentes, Frei Caneca e vários outros. O segundo é uma peça de teatro satírica em que os personagens retratam estratos específicos da sociedade burguesa. “O Livro das Confissões”, que encerrava o livro na edição de 1974, tem um ar de ensaio a respeito do que caracteriza um Agá.

Como se vê pela quantidade e diversidade dos elementos aqui destacados, tende ao fracasso de nascença a tentativa de resenhar o livro num espaço limitado. Se não servir como apresentação, que estas confusas linhas valham como convite ao conhecimento ou revisitação dessa obra-prima, oportunamente recolocada à disposição dos leitores pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), em volume enriquecido com textos do editor sobre a história dos manuscritos e do pesquisador Luiz Roberto Leite Farias sobre o autor e sua produção.

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