Foto Entrevista Maio

 

 

Ao paginar Crocodilo (Companhia das Letras), de Javier A. Contreras (foto), pela primeira vez, lembrei do conto A muralha da china, de Antônio Carlos Viana (1944-2016), em Jeito de matar lagartas, que começa: “Nossa mãe tinha avisado: Façam de conta que Lelo ainda está vivo, conversem com dona Irene, fiquem como se ele fosse chegar e que vocês foram lá só pra brincar com ele”, prevendo o momento que dona Irene receberia a notícia de que seu marido e filho sofreram um acidente fatal. As primeiras palavras narradas em Crocodilo apontam também, impiedosamente, a morte como fato concreto, substantivo: “Hoje, o meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento”. 

No caso do livro de Contreras, a morte com a qual nos deparamos é envolvida por um véu quase inteligível: a morte voluntária. A grande questão permanece: como falar de suicídio? 

A literatura sempre foi palco dos meandros do suicídio. Tanto nos desfechos dos personagens, tanto nos destinos dos autores. Sylvia Plath, Hamlet, Anne Sexton, Anna Kariênina… A lista é interminável. Abrindo um parêntese: por ano, são estimadas de 10 a 20 milhões tentativas de suicídio no mundo segundo a Organização Mundial da Saúde. Dos casos que são registrados – relativamente imprecisos –, os dados apontam um número próximo de um milhão de êxitos do autoaniquilamento anualmente – fechemos o parêntese. Não há dúvida: é preciso desmistificar o s-u-i-c-í-d-i-o. Assim, soletrando, como faz Contreras, para superarmos o pavor desta palavra e da realidade obscura que carrega sua pronúncia.    

Em Crocodilo, é no olhar de um pai que tem de lidar com os vácuos e incompreensões da perda do filho que está condensado todo um mosaico de paralelos que cercam a obscuridade da morte de si. O livro se desenrola pelo nebuloso luto de Ruy (o narrador do romance) em um fluxo de consciência de narrativa ágil. O tempo – essa abstração –, que se perde no luto, se perde também na narrativa. 

São vários os prismas das incisões do livro. Após o salto de Pedro janela abaixo, somos jogados no limbo existencial de um “ex-pai”, como devaneia o narrador. Contreras não tem piedade e não busca por um ponto de inflexão. Sem conseguir mais cumprir com as obrigações ou respeitar as convenções, Ruy, um jornalista renomado com aguçado instinto investigativo, procura por uma “verdade dos fatos” para evitar os silêncios – de falar e ouvir – de seu luto e de Marta (mãe de Pedro). Os devaneios se sucedem nos dias seguintes à morte do filho, seja na busca do pai em reconstruir o passado na busca de conhecer melhor o filho e entender a sua decisão, seja quando tenta encontrar um culpado para aliviar sua dor. 

O narrador se encontra em um conturbado paralelo entre compreender o passado para melhor lidar com a dor do agora e, então, reaprender a viver para o porvir. A busca pelo outro – que é também uma busca de si – torna-se para ele uma “necessidade tardia”. Com um tema  já tão esmiuçado em mãos, o romance de Contreras se sobressai por olhar para o banal, para o cotidiano dos pequenos silêncios, para o refazer-se microscópico por trás de uma grande perda.

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