thetestaments Hana Luzia set.out19

 

O mundo literário de língua inglesa segurou a respiração quando a notícia estourou: Margaret Atwood irá publicar a continuação do romance The Handmaid's tale (O conto da Aia). Praised be! Há três décadas, esperamos saber: o que aconteceu após as portas daquela van se fecharem? A edição em inglês do livro novo causou furor e debates em veículos especializados. O lançamento já é finalista do Booker Prize — a inscrição da obra contou com estrito sigilo para evitar vazamentos antecipados. Coroada pela imprensa, a escritora canadense foi capa da revista Time.

Com o título The testaments (Os testamentos; a edição brasileira sairá em novembro pela Rocco com tradução de Simone Campos), o lançamento retoma o mesmo universo arrepiante do original publicado em 1985. Nas palavras da autora ao The New York Times, "Os EUA sofreram um golpe que transformou a democracia liberal de outrora em uma ditadura teocrática literal". Mulheres perdem gradualmente todos os direitos. O nome da nação altera-se: os EUA agora são denominados de Gilead.

O best-seller de 1985 concentra-se na figura das Aias, mulheres ainda férteis (a fertilidade é rara no universo fictício), cujo útero é propriedade do recém-empossado Estado teocrático e colocado ao bel-prazer das famílias abastadas inférteis que desejam uma criança. A protagonista, cujo verdadeiro nome desconhecemos, é denominada de Offred (algo como "do Fred", pois ela estaria a serviço do Comandante Fred). Sua função naquela casa é somente a de gerar uma criança saudável. Após parido o bebê, a Aia seria enviada à próxima família. Confinada entre quatro paredes, por meio da memória, procura organizar acontecimentos históricos que levaram os EUA a se transformarem na horrível ficção que é Gilead. Assim, uma das principais questões do romance seria: como chegamos até aqui?

Em Os testamentos, a perspectiva alterna-se. Conheceremos mulheres que, de certa maneira, puderam se beneficiar do regime ou que mantiveram raros privilégios: Esposas e Tias. Também percorreremos outros lugares confinados — escolas, uma espécie de convento, cozinhas, dormitórios — afinal, é onde restam as mulheres. Entretanto, a questão central é oposta: como sairemos de tudo isso?

Com direito a cenas de ação, fugas, explosões, envenenamentos, documentos secretos e escutas, o lançamento apresenta uma trama tensa do início ao fim, mostrando que a injustiça termina por ser um adubo estranho para atos de coragem.

UMA SENHORA DETESTÁVEL E DUAS GAROTAS RECLAMONAS

O livro é formado por três narrativas: de uma idosa e duas garotas. Alternam-se fragmentos das três histórias, cujos testemunhos trançados irão compor a narrativa maior. A primeira narradora parece ser alguém que conhecemos bem: Tia Lydia. As outras duas, testemunha 369A e testemunha 369B, são Agnes e Daisy, a primeira criada em Gilead para ser uma Esposa e a segunda é uma adolescente entediada no Canadá.

Margaret Atwood é esperta: escolhe de saída o ponto de vista de uma das mulheres mais poderosas do regime, Tia Lydia. Ao lado de outras três, Tia Elizabeth, Tia Helena e Tia Vidala, é responsável em manter as mulheres obedientes às regras mais odiosas. Em suas escolas, as Tias professam que mulheres teriam cérebros menores e, assim, incapazes de compreender pensamentos mais complexos. Seria igual ensinar um gato a fazer crochê, explicam. Eunucas em um harém, encobrem abusos dos Comandantes sobre Aias e Esposas, além de se dirigirem com respeito aos líderes masculinos de Gilead.

Ao mesmo tempo, as Tias monopolizam o poder da escrita e leitura entre as mulheres, mantendo uma biblioteca invejável em Ardua Hall, onde residem. Nenhuma outra mulher pode ler ou escrever nessa versão ditatorial dos EUA. A narrativa ironiza o comportamento das Tias, que mantêm, entre as obras banidas (às quais possuem acesso), Anna Karenina e Jane Eyre. A biblioteca é nomeada "Hildegard", homenagem provável à Hildegard von Bingen (1098-1179), monja beneditina, cientista e escritora.

Sem se importar em ser dura e detestável, Tia Lydia possui um taser e segredos no coldre. Semelhantes às Bene Gesserit em Duna, de Frank Herbert, as Tias arquivam linhas genealógicas das famílias de Gilead. Monopolizando casamentos arranjados e coordenando ações das Aias, as Tias acumularam poder de barganha e regalias.
Tia Lydia irá narrar, inclusive, ações sórdidas que realizou para colaborar com o estabelecimento do regime odioso às mulheres. Na vida pregressa, formou-se advogada e desempenhou a profissão de juíza até o golpe teocrático ser desferido. O que um juiz não pode fazer numa situação dessas com tamanho poder?

Com a segunda narradora, Agnes Jemima, saberemos como é a educação das mulheres de classes sociais abastadas em Gilead. Proibidas de escrever, precisam executar bordados com perfeição, fazer arranjos de flores agradáveis e apresentar boas maneiras. Até terem idade suficiente para se tornarem Esposas, o que Agnes atinge aos 13 anos de idade. Na sala de aula, a adolescente não é boa aluna e atrapalha-se ao bordar. Em uma casa com três Martas (denominação para empregadas domésticas no romance) e aterrorizada pela ideia de casamento, a vida de Agnes passa-se entre a sufocante escola para meninas e um quarto com uma formosa casa de bonecas.

A voz da terceira narradora, Daisy, rompe a parede fronteiriça entre Gilead e Canadá. Se, no primeiro livro, o Canadá apresentava-se como um destino distante, dessa vez, o país será palco de vários acontecimentos. A rotina da garota resume-se a frequentar a escola, passar as tardes no brechó da mãe e ficar em casa, o que atrapalha sua vida social. Estudando em uma escola progressista, aprende a se manifestar contra Gilead, o que seus pais não aprovam tanto. A adolescente inicia a narração referindo-se ao seu aniversário de 16 anos, quando uma tragédia afeta a vida pacata.

Com os testamentos enunciados no título, o uso da primeira pessoa retrata o ponto de vista de cada uma das mulheres, suas irritações, incoerências, pequenos gestos de arrogância e grandes gestos de ousadia. Inclusive, quem conhece Machado de Assis sabe que a primeira pessoa também tece uma armadilha: quem narra pode distorcer o quanto quiser as próprias verdades.

Aos poucos, essas três histórias soltas irão se trançar, até que teçam um tecido robusto e formem uma trama caudalosa e veloz, desaguando em um final que nos dá o que pensar.

TRÊS DÉCADAS DEPOIS

Não há como se referir ao romance sem comentar o sucesso da série televisiva The Handmaid's tale, de Bruce Miller (2017). Apesar de o primeiro livro ter sido adaptado aos formatos mais diversos — incluindo o filme de Volker Schlöndorff, a adaptação para a Rádio BBC de John Dryden e a ópera de Poul Ruders —, foi com a estreia da série da Hulu, no contexto da ascensão conservadora nos EUA, que o livro retornou à lista dos mais vendidos. Segundo a Editora Rocco, a edição brasileira com a capa nova foi lançada poucos meses após a série e a primeira tiragem esgotou-se logo depois.

Na série, a interpretação premiada de Elisabeth Moss apresenta um traço heroico e um vigor contra o sistema opressivo. Diferente do romance, na tela, a Aia ganhará um nome próprio e uma postura combativa, afinal, nunca deviam ter dado a elas um uniforme, se não queriam que formassem um exército. Considerando que a escritora atuou como consultora da série (inclusive fazendo uma ponta), é provável que a convivência com a criação audiovisual tenha influenciado a composição d'Os testamentos.

Três décadas depois, lemos um livro com tom bastante diferente: o tom original resignado da Aia Offred, que pouco pode fazer diante das condições em que é aprisionada, senão procurar escapar, altera-se para retratar outras possibilidades: redes de apoio e subterfúgios não só para escaparem, mas para combater o regime todo. Nas páginas de 2019, haverá ações coordenadas, haverá desobediência, haverá mais riscos. Alguns dos segredos profundos da resistência Anti-Gilead são desvelados: quem são participantes do Mayday? Aparecerá a organização SanctuCare e relances das ações coordenadas de luta contra o regime ditatorial.

Os dois livros e a série televisiva respeitam o que a autora denomina de um dos "axiomas do romance": não é permitido utilizar nenhum acontecimento que não tenha ocorrido antes na história da humanidade. A técnica de composição é uma forma de denúncia. No livro novo, é impossível não relacionar uma cena à ditadura de Pinochet, que, no dia seguinte ao golpe militar em 1973, fez do Estádio Nacional um campo de prisioneiros com fuzilamentos ao ar livre. Na vida real, passaram por lá mais de 40 mil pessoas detentas.

Em seu posfácio, Margaret Atwood frisa que hoje cidadãos de diversos países estão sob maior pressão agora do que há três décadas. Embora as propostas para a derrocada de Gilead sejam liberais demais e talvez distantes para nosso contexto brasileiro, valem pelo vislumbre da saída. A importância do lançamento é sussurrar: imaginem saídas possíveis.

Um dos papéis da literatura em tempos sombrios é o de manter essa chama imaginativa acesa, por isso, livros possuem força. Como diria Ursula K. Le Guin, precisamos de "escritores que possam ver alternativas ao que vivemos agora, que consigam ver além de nossa sociedade, assolada pelo medo e por suas tecnologias obsessivas, que mostrem outras formas de ser e que, até mesmo, imaginem motivos reais para esperança" (discurso na entrega do National Book Award, 2014). Os testamentos chegam como uma celebração desse exercício imaginativo sobre como as teocracias morrem. Para que não nos esqueçamos do que seja liberdade.

 

*Agradeço à Márcia Fráguas, Marília Ramos e Lilian Aquino pela primeira leitura do texto.

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