Itamar Vieira Junior Divulgacao

 

Entre o fio de corte que dividiu o tempo – partiu e definiu a duração – dum Brasil escravista e o póstumo abandono mascarado de liberdade, é onde ambienta Torto arado, de Itamar Vieira Jr, livro que atenta, e até nos intima, a não esquecer o passado segregado. E também a refletir o doloroso início da estruturação de desigualdade que vive o Brasil de hoje. Itamar remonta um tema esquecido e reflete sobre suas nuances com façanhosa simplicidade.

Quando ocorreu a Abolição da Escravatura (1888), sobretudo com aurora de uma dinâmica mais capitalista e a obsolescência que se tornava o leme escravocrata, não houve proteção qualquer que sustentasse os recém-libertos no que deveria ter sido uma transição para um novo sistema livre de trabalho. Restavam as opções de tentar a vida nas cidades grande ou trocar a força de trabalho nas terras em troca de morada. É neste apuro que se situa a trama de Itamar Vieira Junior em seu terceiro romance. Dividido em três partes, cada uma narrada por um personagem diferente, o romance explora intimamente o cenário pós-escravista com rico lirismo, embrenhando-se em dramas familiares e conflitos reflexivos.

“Fio de corte” é a primeira parte do romance. Narrada por Bibiana, irmã mais velha, nela há o período dos recém-chegados retirantes. É envolto nos mistérios dos encantados, que andam entre eles e os protegem. Nele se apresenta o prenúncio da ânsia de liberdade que mais tarde alçaria a luta de seu povo pelos direitos negados. Torto arado, guiada por Belonísia – a mais nova –, é a segunda parte.

É no silêncio de seu mundo que o romance mergulha na reflexão da lida com o trabalho como meio de inflexão dos castigos que a vida lhes deu. Houve os que endoideceram, os que curaram, as brincadeiras de jarê, a labuta, a miséria, a vida, a revolta e a morte. Rio de sangue é conduzido por Santa Rita Pescadeira, encantada que observa de perto o sofrimento de seu povo, a habitar uma e outra pessoa como cavalos (algo como médiuns), guiando-os pelos caminhos tortuosos que lhes foram reservados. Uma narrativa que a cada contratempo mostra elementos da história e da cultura afrobrasileira com elegante e acessível dicção, pelos tropeços de um tempo marcado pelo desajeitado pós-abolicionismo no Brasil.

Com habilidade em passear entre elementos narrativos envolventes, o romance constrói uma viagem carregada de necessária representatividade – sobretudo hoje, quando se questiona com ênfase especial o caráter estrutural do racismo no Brasil. Torto arado já é um dos grandes romances do ano porque propõe reflexão, preserva memória e, acima de tudo, faz emergir outra vez o grito dos antepassados, para que sejamos firmes contra o ódio, como assim fizeram. Neste romance, estar junto é um ato de falar e ser a voz do outro, forma possível de estar junto em um contexto de grande precariedade. “Não existe racismo no Brasil”, dizem aqueles que odeiam. Só que
é tudo conversa. A história precisa ser lembrada. E a luta exercida, frente ao que for. 

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