Silviano Santiago 13

 

Recebi ao mesmo tempo a nova coletânea de ensaios de Silviano Santiago para resenhar e o texto da conferência que ele fez em Buenos Aires em julho último, a convite da Latin American Studies Association (LASA), quando foi lançada a edição argentina de seu Vale quanto pesa (1982). Consonante com o evento e o livro, a conferência Das inconveniências do corpo como resistência política retoma escritos do autor das décadas de 1970 e 1980 que exploraram nexos entre a coerção violenta da ditadura militar e a emergência da performance libertária (inconveniente) na poesia, na música, no espetáculo e na cultura massiva, uma explosiva combinação de juventude, corpo, arte e resistência. A conferência aponta como a cidadania civil alardeada a duras penas mas com vigorosa alegria pelo tropicalismo, cidadania e civilidade arduamente conquistadas nos quarenta anos seguintes, estão sendo erradicadas (não há outro termo) pelo atual governo brasileiro.

A publicação dos 35 ensaios de Silviano Santiago reunidos por Italo Moriconi para a Companhia das Letras é um acontecimento intelectual e editorial consagrador da obra crítica. A conferência em Buenos Aires quase simultânea a seu lançamento; como nota ao pé da página, sinaliza que, para além da retrospectiva e da consagração, o engenho continua ativo e, como sempre foi, “machadianamente” intrometido e impertinente.

No volume estão ensaios escritos entre 1965 e 2016. Alguns nunca apareceram em livro e outros estão em publicações esgotadas, mas muitos estão disponíveis ao leitor em coletâneas recentes, como a reedição ampliada de Uma literatura nos trópicos (Cepe Editora, 2019) ou as publicadas pela Editora UFMG em 2004 e 2006. Esses dados alinhavados mostram que ineditismo e raridade são atributos de alguns títulos, mas não pesam tanto no valor da coletânea. Esta vale pela argúcia e pelo persistente frescor dos ensaios, beneficiados pelo trabalho curatorial de Moriconi.

Os escritos de Santiago desafiam nexos habituais de reunião. São intervenções críticas na literatura, nas artes visuais, na música ou na cultura, refratárias à linearidade temporal, que insistem em cutucar o avesso dos cânones, em compor uma “nova ordem dos fatores” ou em “desatar o elo proposto pela tradição historicista amistosa”, como escreveu o autor em diferentes momentos. Desde o “entre-lugar”, conceito proposto em 1971 para aguçar e legitimar a dupla consciência da condição periférica, os ensaios oferecem um arsenal de figurações críticas que destoam das belles lettres, como o “curto-circuito”, o “olhar o retrovisor”, os “livros- -farol”, o “cosmopolitismo do pobre” e, entre outros, uma singular noção de “irresponsabilidade”, desenvolvida em Manuel Puig: atualidade do precursor (2005). Argumenta Santiago que, diante da própria obra, o escritor tem duas alternativas: ou a responsabilidade de cultivar procedimentos que ele próprio inventou e pelos quais é reconhecido, ou então – caso do escritor irresponsável – desvencilhar-se deles em busca de novos experimentos composicionais. Como exemplo notável da irresponsabilidade, o critico indica Graciliano Ramos, diverso a cada romance. Esta transvaloração da irresponsabilidade pode ter grande valia para se compreender a obra crítica do próprio Santiago.

Para lidar com a diversidade dos ensaios, Moriconi paradoxalmente recorre a imagens de fixidez, ampara-os em “vigas mestras”, “estacas”, “obsessões intelectuais”, quando expõe na introdução do volume os agrupamentos que compõem o livro: "Geopolíticas da cultura", "Literatura Brasileira & outras: crítica e história", "Crítica do presente" e "O livro sobre modernismo". Penso qual imagem mais fluida ou mais plástica diria melhor a mobilidade e maleabilidade de Silviano Santiago. Os ensaios reunidos em cada uma das partes do livro são como constelações, manchas luminosas, e quando aproximados pelo organizador, aí sim, dialogam e se adensam, reciprocamente.

No primeiro bloco, do antológico O entre-lugar do discurso latino-americano ao surpreendente mas pouco lido Cosmological embroidery (Bordado cosmológico, de 2016), estão as investidas de Santiago nos deslocamentos e tensões entre centro e margens, os embates com a violência do capital (econômico, político- -cultural e artístico) e impasses da episteme ante interpelações que irrompem nas bordas da racionalidade ocidental, como o manto bordado de Arthur Bispo do Rosário. A crítica literária stricto sensu, na segunda parte, é provavelmente a vertente mais lida do ensaísmo de Santiago e também o conjunto onde mais imediatamente se percebe sua dissonância, nos diálogos intempestivos com fortunas críticas alentadas. Em “Crítica ao presente" a maioria dos ensaios trata dos anos 60 e 70 do século passado – é importante dizer assim, para avaliarmos o quanto as leituras que mapearam o “pós-moderno” e “periodizaram os 60’s” ainda repercutem na nossa cronologia mental. Neste bloco caberia perfeitamente a conferência referida no início e nele também se encontra o brevíssimo A cor da pele (1981), que elabora dilemas imediatos nossos – como o intelectual branco pode ou deve lidar com a negritude e com o racismo impregnados nos poros de toda superfície cultural?

Ao mesmo tempo, A cor da pele indicia a responsabilidade racializada do autor, que o exime de muitos cacoetes interpretativos da branquitude, e traz uma antecipação da sua crítica alentada ao Modernismo brasileiro, reunida na parte final da coletânea. Santiago distingue o poeta negro mineiro Adão Ventura da “tradição modernista da poesia negra”, exemplar em Raul Bopp e Jorge de Lima, e declara: “O leitor branco quer se aproximar e compreender o sentido de prisão, de enclausuramento [que] lhe é dado pela cor da pele”. O ensaísmo de Santiago faz jus ao título dado ao último segmento da coletânea – "O livro sobre modernismo" – pela abundância de escritos, ao longo de toda a obra, nos quais eixos da historiografia consolidada são destituídos, como o valor da mestiçagem e o valor da ruptura. Em contraste com outros “interpretes do Brasil”, Silviano Santiago busca compreender o modernismo, o país, a literatura, a violência e o presente revirando arquivos, cartas, registros coloniais, obras e, principalmente, consensos.

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