Resenha Eilleen Myles jul19 Catherine Opie. Courtesy of Blue Flower Divulgacao

 

Nos estudos literários, quando analisamos obras nas quais são propostas perspectivas de desestabilização do cânone e reorganização do cânone, tem-se em mente um tipo de desvio do ritmo, da música que todos ouvem porque nela está a marca da atemporalidade. O cânone faz parte de um consenso – como visto em Habermas e outros autores – e, dessa maneira, emula estabilidade de leitura e interpretação. Em The straight mind, Monique Wittig analisa como a linguagem e os discursos oprimem mulheres, lésbicas e homens homossexuais porque estão estabelecidos a partir de uma “fundação social” baseada na heterossexualidade. Assim, monta-se a tensão: é possível um cânone literário assumidamente homossexual – neste caso, lésbica - e feminista, por exemplo? De que forma a literatura feita por mulheres lésbicas retorcem esse tipo de noção institucional presente na ideia do cânone?

Por qual árvore espero, de Eileen Myles – lançado, no Brasil, pela Edições Jabuticaba; com tradução de Mariana Ruggieri, Camila Assad e Cesare Rodrigues –, está no radar de obras que podem nos apresentar algumas saídas para as questões vistas. A poeta estadunidense, ganhadora de diversos prêmios e bolsas, escreve em constante movimento e, nesse contexto, não se trata apenas de uma ação espacial (temática que atravessa muito de seus poemas) mas, sobretudo, de permanecer em direção contrária ao que abala a sua subjetividade como mulher lésbica.

Em um dos poemas do livro, intitulado Eu sempre ponho a minha buceta, Myles desnorteia o fato de que a mulher, dentro da narrativa heterossexual, obedece ao padrão de discurso masculino e patriarcal, como visto por Wittig e, assim, quais seriam, então, as funções ocupadas, pela mulher lésbica diante de tais sistemas de linguagem? “A busca do meu amor/ é um distintivo/ é um cassetete/ é um capacete/ é o rosto de um cervo/ é um punhado de flores/ é uma cachoeira/ é um rio de sangue/ é uma bíblia/ é um furacão/ é uma adivinha”, escreve Myles. Aqui, ela destrói a ideia da pena como uma espécie de pênis metafórico – referência presente em Sandra M. Gilbert e Susan Gubar [nota 1] – e reitera a sua identidade e o desejo entre os corpos de duas mulheres como formas de potência no mundo e na escrita.

Em termos de cânone e, em especial, cânone de língua inglesa, Gertrude Stein (1874 – 1946) foi um nome lésbico que se consolidou como de extrema importância para o Modernismo. Na busca por outros mecanismos de linguagem, a escritora tornou-se voz imprescindível para pensar a modernidade e o território norte-americano do início do século XX. Em uma das entradas de Autobiografia de todo mundo, chamada de Preparativos para ir à América, Stein questiona-se sobre continuar a escrever e fala de como uma espécie de força oculta dos espaços está paralela ao processo de criação. Myles faz algo parecido em Um poema norte-americano: “Peguei o Amtrak para Nova/ York no início dos/ anos 70 e acho que/ dá para dizer que/ meus anos escondidos/ começaram. Pensei,/ Bem, vou ser poeta./ O que poderia ser mais/ tolo e obscuro?/ Virei lésbica./ Todas as mulheres da minha/ família têm cara/ de sapatão, mas de fato é/ atentar contra a pátria/ quando você se torna uma”.

No trecho, para a voz narrativa do poema, o desvio espacial é forma de impulsionamento em existir-se e ver-se lésbica e, ato contínuo, resulta na possibilidade de elaborar o mundo pela escrita. O tornar-se poeta é uma questão que perpassa vários versos do livro, o que deixa exposto o quanto gênero e sexualidade estão ligados à linha de frente do que Myles desenvolve como poética e escolhe para traçar os novos ritmos, longe dos antigos sopros hierárquicos do cânone. “Eu me fiz poeta porque foi a primeira coisa que amei de verdade”, escreve em um de seus fragmentos e continua: “Não está perdido o nosso século, graça a nós. Somos as mentirosas & bandidas, somos as mulheres somos as mulheres”. A poesia é sustentada por essas que um dia foram excluídas da concepção do que é literatura pois, afinal, não dialogavam com as normas reverberadas pelos eixos canônicos.

Para além do aparato teórico e opressor, quando Wittig postula, na conclusão de seu ensaio, “lésbicas não são mulheres”, existe uma fagulha de desarme catártico em confronto ao discurso hegemônico heterossexual cravado com tantos pés juntos ao patriarcado. É como se, já que apartadas da linguagem, enfim, fala-se sem parar. E quando essa voz vem de novo e volta-se às figurações da realidade, ali está a mulher que de fato importa, como nos revela Myles em seus poemas. A mulher que se sabe inteira porque se vê atentando à pátria em defesa não só de seu corpo como também de sua representação: diante das árvores, ali está uma agente modificadora das músicas e dos tempos.

 

NOTAS

[nota 1]. A análise está no livro La loca del desván – La escritora y la imaginación literaria del siglo XIX (1998).

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