Resenha Ian.McEwan jul19Annalena McAfee Divulgacao

 

Adão possui o pulso forte e as pernas firmes de um marinheiro. Entende de vinhos, desfila um vocabulário de Shakespeare, aprimora-se sozinho. Corre 17 km em duas horas sem precisar de recarga e seguirá funcionando por 20 anos. Máquinas como eu, novo romance de Ian McEwan lançado no Brasil pela Companhia das Letras, apresenta uma narrativa de suspense a respeito de um triângulo amoroso em que um dos vértices é um robô, Adão. O autor britânico sugere que o futuro seguirá chegando para nos assombrar. Até pode existir alguma tragédia no caminho, mas nunca o tédio.

O livro é um arcabouço de tensões. Não é de hoje que McEwan se vale de uma terceira parte para trazer à tona uma crise já anunciada. Como analisa Julian Lucas na The New Yorker, o autor é o mestre das querelas domésticas e, geralmente, intensifica a crise de um casal com a introdução do terceiro elemento: em Reparação, uma criança precoce; em Amor sem fim, um estranho armado de uma paixão instantânea e obsessiva.

Agora, esse terceiro elemento é fruto do puro desejo: Adão chega ao recôndito doméstico do narrador Charlie, motivado por uma obsessão antiga deste por criações eletrônicas. O protagonista pega todo o dinheiro de uma herança e decide comprar o robô de última geração. Uma das aquisições mais caras da vida de Charlie, que paga £86,000 em 1982, em uma Londres alternativa, algo hoje em torno de um 1,5 milhão de reais.

Página a página, mostra-se o verdadeiro custo dessa brincadeira. A narração em primeira pessoa, tão volúvel e machadiana, desfila reflexões de Charlie, bacharel em Antropologia, cuja ocupação é apostar na Bolsa. Aos 32 anos, filho único de um pai músico e mãe enfermeira, procura estabelecer um relacionamento estável com a vizinha de cima: Miranda, uma estudante encantadora, dez anos mais jovem.

Charlie tece sua própria armadilha: quer que Miranda usufrua ao máximo de sua nova aquisição. O rapaz deslumbra-se fazendo planos longevos em um relacionamento que parece só estar começando.

Então, será o recém-chegado robô que trará uma notícia perturbadora sobre o passado de Miranda. O triângulo da tensão está formado. Não há como não ler tudo até o fim.

O FUTURO AINDA NOS ASSOMBRA

Ian McEwan declara não enxergar esse livro como uma obra de ficção científica, causando discussões acaloradas em redes sociais. A partir de critérios da crítica literária especializada, não há motivo para impasses: em Máquinas como eu, aparece o novum, elemento exigido por Darko Suvin para categorizar uma ficção científica; a inovação tecnológica impacta relações pessoais; há a preocupação em se detalhar aspectos técnicos, como o mecanismo de busca da Árvore de Monte Carlo e competências de autoaprendizagem de algoritmos. Há até uma citação, na íntegra, da Primeira Lei da Robótica de Isaac Asimov, que cunhou o termo robótica.

Estaria Ian McEwan blefando com essa afirmação que o livro não seria uma ficção científica? O britânico mostra ser bastante conhecedor de algoritmos. É possível que imagine que o número de menções ao livro aumente em redes sociais com alguma boa polêmica. Em se tratando de um autor mestre em criar querelas, essa possibilidade não deve ser descartada.

O livro apresenta uma Londres alternativa em 1982. Marcada pela nostalgia, lá estão Margaret Thatcher, a Guerra das Malvinas e os Beatles ainda juntos. Entretanto, há e-mails e muito da lógica do mundo imaterial de hoje. A antecipação tecnológica, no livro, é justificada pela sobrevida de Alan Turing (apenas para lembrar, o cientista da computação foi condenado à castração química por ser homossexual em 1952, falecendo em 1954). No romance, Sir Alan Turing é herói do protagonista.

Ironicamente, o narrador bem nos avisa: seres humanos artificiais já eram um clichê bem antes de terem chegado — assim, quando finalmente vieram, trazem também a marca do desapontamento. O robô tem uma forma retrô: bípede sensual, com duas pernas bem-torneadas e braços fortes, bem distinto das imateriais Alexia e Siri ou das tendências de algoritmos como o projeto AlphaGo Zero.

Adão não veio para nos exterminar e talvez isso nos desaponte um pouco. Adão veio para confrontar Charlie e Miranda, apontar o mais cruel e terrível dos recônditos de vontades, lugar onde a desconfiança e a insegurança vicejam. Mary Shelley, em Frankenstein, amplifica o horror do cientista quando confrontado com a visão de sua própria criação, espelhamento distorcido de si mesmo. Em Máquinas como eu, Miranda desejaria que Mary Shelley estivesse ali, observando de perto, não um monstro, mas esse Adão, um jovem bonito que vem à vida. Nada mais ambíguo. Afinal, é terrível estar diante da perfeição, a versão aprimorada de nós mesmos.

O autor confronta nossos sentimentos diante de uma máquina cuja evolução ocorre anos-luz mais rápida que a nossa própria. O quão inseguros podemos ser diante desse Outro que nos deve obediência pré-programada? O quão ameaçados e desprezíveis somos diante do que criamos?

Ian McEwan completou 70 anos. Um sorriso de canto é comum na fotografia do homem de lábios finos, a pele branca vincada por vivências cosmopolitas, uma infância na Alemanha, Líbia e Singapura. Uma vida adulta com publicações há quatro décadas, além de filmes como Desejo e reparação (Atonement, com James McAvoy e Keira Knightley, 2007 — baseado no livro Reparação). É esse homem que nos fita agora, em seu 15º romance.

Máquinas como eu traz uma prosa amarrada e suspense de página a página. Adão nos conquista, nos engana. O futuro e a ficção não cessam de nos surpreender.

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