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Como a crítica especializada tem apontado ao longo dos últimos anos, a obra do escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999) vive sob uma dupla sombra. A primeira delas é, em parte, consequência da sua longa e fecunda amizade literária com o também escritor argentino, e bem mais famoso, Jorge Luis Borges. Nesse caso, nem haveria escapatória. Borges é desses autores definitivos. Tanto para a literatura do seu país, quanto para a América Latina. A segunda sombra, ironicamente, poderia ser tema de um dos contos fantásticos de Bioy (ou de Roberto Bolaño. Ou de Machado de Assis). Em 1940, aos 26 anos de idade, Casares lança um romance perfeito, um clássico instantâneo da prosa hispano-americana, e da ficção científica, no século XX: A invenção de Morel. Assim como Morel inventa uma máquina que fixa uma imagem fantasmagórica de um grupo de personagens, toda a obra de Bioy continua a ser lida sob a imagem fixada a partir desse romance. Estar à sombra faz justiça à sua literatura? Acredito que a publicação do segundo volume de suas obras completas, pela Editora Globo, pode contribuir na redescoberta de um Bioy para além do binômio Morel-Borges.

A espera, porém, foi longa, se considerarmos que o primeiro volume brasileiro, dos três previstos das suas obras completas, foi lançado entre nós no cada vez mais longínquo ano de 2014. Se o primeiro volume contemplou livros – e alguns textos inéditos em livro – publicados por Bioy entre 1940-1958, o segundo prossegue com livros e textos publicados entre 1959-1971. A edição mantém o padrão de qualidade e cuidado editoriais demonstrados pela Globo em 2014. Com o mesmo conteúdo das edições originais argentinas, organizadas pelo crítico argentino Daniel Martino, o segundo tomo consegue, mais uma vez, superar o original, apresentando um projeto gráfico superior ao da Editora Emecé. Se nos primeiros livros do volume lançado em 2014 temos um autor fascinante, mas cujo universo ficcional é muito próximo ao de Borges, Bioy agora vai se distanciando não só do seu amigo, como de si mesmo — ou melhor, do tipo de narrador que aquele jovem de 26 anos estabelecera de início. Menos uma ruptura radical com a própria obra, e mais uma metamorfose, a mudança se inicia com o seu terceiro romance, o excelente O sonho dos heróis (1954; publicado no volume 1) e se consolida com Grinalda de amores e os livros subsequentes, todos agora compilados na reunião recém-lançada.

O que foi mudando, porém? Tanto Morel, quanto seu segundo romance, Plano de fuga (1945), por exemplo, são puro Bioy Casares, mas ao mesmo tempo são narrativas longas que Borges poderia ter escrito. Essa sensação se estende para muitos dos contos reunidos no primeiro volume. O que a leitura do tomo mais recente nos apresenta é o Bioy que existe no próprio Bioy e que já se anunciava na década de 1950. Se no começo da carreira temos um narrador clássico do fantástico, aquele interessado no mundo especulativo, na ironia das referências eruditas, nas viradas surpreendentes de trama, na imagética do insólito, o volume dois nos revela que Bioy se especializa na crônica de costumes. Esse cronista, o Bioy 2.0, aplica, quando sente necessidade, sutis camadas insólitas em contos e romances cuja alma reside na análise das relações sociais, em especial as afetivas. A Bioy passam a interessar, em suma, mais o amor e a amizade e menos as ideias puras e os seus monstros. Um sinal dessa mudança se reflete na republicação, nessa segunda parte das obras completas, de um pós-escrito que Bioy anexou ao prefácio da segunda edição da famosa Antologia de literatura fantástica organizada por ele, Jorge Luis Borges e pela excelente escritora Silvina Ocampo, que era casada com Bioy. Se no prefácio da primeira edição ele realiza, categoricamente, a condenação do realismo e do trabalho psicológico de composição dos personagens em um romance, o pós-escrito da segunda edição relativiza tal condenação, passando a entender que é possível uma convivência dos registros mais realistas em paralelo com os modos narrativos do fantástico. Não apenas o realismo não exclui o fantástico, como os dois modos, nos melhores contos, novelas e romances, se fortalecem de maneira mútua: “Entre as mesmas peças que a presente antologia inclui, o curioso apólogo de Kafka, em que a descrição de caracteres, o delicado exame idiossincrático da heroína e de seu vilarejo, importa mais que a circunstância fantástica de que os personagens sejam ratos. Contudo, porque são ratos – o autor nunca se esquece disso —, o admirável relato acaba sendo menos individual do que genérico”.

De todos os livros reunidos nesta segunda parte das obras completas do autor, é no romance Diário da guerra do porco que essa convivência se apresenta mais aguçada, no sentido de estar ali o suprassumo do estilo e do universo ficcional do seu autor. É uma narrativa que olha menos em direção à elite argentina, privilegiando personagens e espaços da Buenos Aires dos menos favorecidos. A narrativa se passa nos anos 1940 e acompanha as agruras de um grupo de homens na casa dos 60 anos de idade. Se, de início, seus problemas se relacionam com a saúde, as mulheres, o sexo e o dinheiro, o enredo do livro vai aos poucos se transformando em algo mais sombrio: jovens passam, sem grandes explicações, a atacar e assassinar idosos, criando na Argentina um clima de terror digno das ditaduras. Quando o insólito se apresenta, em Diário da guerra do porco, é como uma camada a mais do arcabouço de um romance realista, com personagens bem definidos tanto em seus traços de personalidade, quanto em sua vida cotidiana.

Se Borges é um pensador mais agudo, alguém que problematiza questões epistemológicas essenciais, Bioy conhece melhor os seres humanos, conhece melhor seus próprios personagens, bem como a alma do seu país, a Argentina. Claro, os dois escritores continuarão juntos na negação da herança das vanguardas, ou dos modernismos. Se Morel é um grande romance do século XIX publicado no século XX, livros do segundo volume como Grinalda de amores, O lado da sombra, ou aquele que é o meu favorito, Diário da Guerra do Porco, são painéis costumbristas do século XIX em pleno século XX. Esse anacronismo consciente continua a irmanar Borges e Bioy, mas agora seus caminhos estéticos — e nós leitores ganhamos com isso — passam a se afastar. Ao longo dos anos, observemos o quanto o estilo de Bioy se torna mais detalhista, mais prolixo, mais afetuoso, um necessário contraponto à concisão fria e poética do seu grande amigo. Por outro lado, ambos mantêm um traço em comum, o do uso inteligente da ironia enquanto método de composição.

Desempenhar o papel de comentarista social da sua época e da sua nação: esta passou a ser a maneira de Bioy se posicionar na literatura argentina. Um alienígena em visita ao interior do país é oportunidade para parodiar o provincianismo; um súbito levante de jovens contra idosos é uma oportunidade de pensar o choque geracional dos anos 1960; uma situação kafkiana envolvendo dois caixeiros-viajantes é forma de criar uma violenta alegoria contra a vocação autoritária das forças armadas argentinas; imagens do fim do mundo — oceanos mortos, asas de anjos que despencaram do firmamento — servem como veículo para criticar a alienação da alta burguesia argentina.... O brilho da observação da vida cotidiana também se realiza nos textos, ficcionais, ou não, nos quais não existe nada de fatos extraordinários ou sobrenaturais. É o caso dos contos, deliciosas tragicomédias de costumes, Uma aventura, Reverdejar, ou do relato memorialístico, uma das melhores e mais surpreendentes obras do segundo volume, Memória sobre o pampa e os gaúchos. Longe de ser uma celebração ufanista do tipo social do “gaúcho”, Bioy, em sua reflexão, lança toques de ironia e de ceticismo. Além disso, nos brinda com descrições como essa, a da casa de um gaúcho no pampa: “O chão é de terra. Talvez se possa distinguir um cheiro quase imperceptível, que realmente não é ingrato, de cangalha de carga e de fumaça de uma fogueira que se ventilou. Um escritor melhor que eu não hesitaria em lançar mão de palavras como senhorio e príncipe — elas me dão um pouco de vergonha — na convicção de que, aplicadas a esse homem, naquela hora crepuscular da sua desolação e penúria, resplandeceriam com o frescor virginal que perderam há muito”.

O melhor Bioy será aquele que consegue equilibrar o seguinte tripé constitutivo, formado por: a) indagações existenciais sobre a solidão humana e seus desejos; b) o fascínio do fantástico; c) a vocação de cronista. Quando essa equação falha, alguns contos de Bioy se enfraquecem, como acontece em certas narrativas e fragmentos de Grinalda de amores, ou na maior parte dos contos de O Grão-Serafim, para mim o livro mais fraco do segundo volume. Nesses momentos, Bioy cede à tentação de certas sistematizações redutoras da vida social, em especial ao falar das mulheres, sobre as quais, volta e meia, recai uma visão misógina. Além disso, às vezes o escritor argentino carrega nas tintas das suas caricaturas, o que dá vazão a pontuais momentos de preconceito social e até de racismo. No entanto, quando abraça a complexidade psicológica dos seus homens e mulheres, Bioy se revela, justo por ter esse talento de cronista, um ótimo leitor da alma humana, produzindo, inclusive, paródias desse mesmo machismo que, contradição das contradições, extravasa ocasionalmente da sua escrita. Por fim, se na ficção Borges e Casares se afastam, no ensaio os interesses e o estilo mantêm mais afinidades. A outra aventura, que integra o tomo mais recente, é uma antologia de alguns dos ensaios que Bioy escreveu sobre suas leituras. Embora encontremos boas reflexões, esse gênero não é o seu o forte. Apesar disso, há, pelo menos, três ensaios de brilho: Ensaístas ingleses, Uma vida de Kipling e Letras e amizade (sobre seus primeiros encontros com Borges).

É um privilégio que tenhamos Borges, Bioy e tantos outros criadores geniais como nossos vizinhos. E ainda falta material a ser explorado. Espero que as editoras brasileiras se animem a relançar antologias organizadas por Borges e Bioy que ou estão inéditas, ou há tempos se encontram fora de catálogo, como é o caso das curiosas compilações Cuentos breves y extraordinários e Libro del cielo y del inferno. Ainda no caso de Bioy, por que não lançar no Brasil, finalmente, Descanso de caminantes (a seleta dos seus diários), ou o seu monumental relato da convivência com Borges, disponível aos leitores de língua espanhola desde 2006? Há, além disso, as irmãs Ocampo, intelectuais e escritoras vigorosas, cuja obra nos faz falta no Brasil. De qualquer modo, com a publicação dessa segunda etapa das obras completas e com a promessa, pela Companhia das Letras, da tradução dos contos de Silvina Ocampo ainda em 2019, nós leitores brasileiros podemos ter contato com aquilo que foi um dos momentos altos das literaturas em língua espanhola ao longo do século XX.

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