GartheGreenwell mar.19 divulgacao

 

A vontade de tecer um paralelo entre a novela O que te pertence (Editora Todavia), do escritor norte-americano Garth Greenwell, e Morte em Veneza (1912), de Thomas Mann (1875-1955), é enorme. A novela do autor alemão virou o monólito que guarda em si algumas das questões centrais quando pensamos numa literatura feita por homens gays, entre as quais estão a atração pelo estranho/forasteiro, o pavor da passagem do tempo e o desejo que a tudo corrói e corrompe e que começa no súbito de um primeiro olhar, que não demanda maiores diálogos. O menino bonito Tadzio é a Medusa a levar o homem maduro Aschenbach para uma bancarrota tanto física quanto emocional.

Para além da beleza da Veneza defunta descrita por Mann, o livro de Greenwell começa no fétido de um banheiro público em Sófia, na Bulgária. A descrição do primeiro encontro do professor norte-americano (que nunca é nomeado) com o michê Mitko é impressionante. Vemos, em uma grande angular, o rato sendo atraído com prazer para a ratoeira: “Mesmo enquanto eu descia as escadas ouvia sua voz, que, como o restante dele, era grande demais para aquelas dependências subterrâneas, transbordando delas como se ascendesse de volta para dentro da tarde luminosa que, apesar de estarmos em meados de outubro, não tinha nada de outonal; as uvas que pendiam maduras das parreiras cidade afora rebentavam ainda mornas na boca da gente. Fiquei surpreso ao ouvir alguém falando tão livremente num lugar onde, de acordo com um código tácito, as vozes não costumavam ultrapassar um sussurro”. 

Mitko é alto, magro e tem um corte de cabelo militar, que lhe confere um tom artificial "hipermasculino", e vive a vagar pela capital búlgara. Do professor, sabemos apenas que não é mais tão jovem e vive aparentemente confortável em sua jaula de imigrante de classe média. A relação dos dois, que parecia o único ponto de fuga do nosso olhar, não é o mais importante no decorrer do livro. A Medusa aqui está longe de ser o menino bonito de Mann. O que petrifica, o que coloca a história de cabeça para baixo, é a memória e seu poder de retroceder até a mais sólida das decisões. Basta um gatilho e tudo desaba.

Em O que te pertence, Mitko é só mais uma das madeleines proustianas que obrigam o narrador a olhar para trás. As duas outras madeleines da novela irrompem ao som de uma batida na porta: a primeira delas quando o professor tem sua aula interrompida para ser avisado que seu pai, nos Estados Unidos, anda à beira da morte; na segunda, Mitko reaparece tempos depois, extraído do nada. Reaparece para alertar ao professor que contraiu sífilis e que, talvez, ele também tenha sido contaminado. Isso quando o narrador já se encontrava numa relação estável, certo de que curado do seu desejo.

O que te pertence pode ser confundido com a literatura do "clube do eu”, que inclui nomes como Ben Lerner e Karl Ove Knausgard. Mas Garth Greenwell não parece muito interessado no jogo irônico a marcar a prosa do primeiro, e a beleza da sua escrita consegue ultrapassar a compulsão "voyeurística" do segundo. Temos aqui um acerto de contas com o passado repleto de gestos inúteis, sem a certeza de um bote salva-vidas. A questão para Greenwell não é disparar uma luta de cavalos de raça com a memória, para ao final exibir o que ela consegue conter (como faz Knausgard na saga Minha luta). O importante parece ser aquilo que a dilatação da memória, por si só, não consegue dar conta. O passado em O que te pertence é anônimo e sem grandes lances de heroísmo.

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