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Muito já foi dito/escrito/compartilhado a respeito da reportagem de Chico Felitti (foto) sobre a vida de Ricardo Correa da Silva, artista de rua da região central de São Paulo, que ficara conhecido como o “Fofão da Augusta” (referência aos inúmeros procedimentos estéticos que deformaram seu rosto). Publicada no Buzzfeed Brasil em 2017, viralizou nas redes sociais com mais de um milhão de leitores. A saga de Ricardo retorna dilatada em livro com o título de Ricardo e Vânia – O maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor.

A reportagem do Buzzfeed se torna, agora, apenas a linha a costurar as dezenas de vidas que se encontram e se perdem nas quase 200 páginas da obra. Uma delas é a do próprio Felitti. Não que ele se coloque de sobremaneira no texto, descrevendo pormenores de sua intimidade. É que sua relação entre o afeto e o necessário distanciamento com Ricardo, e com todas as outras fontes, chama atenção. Qual o limite de envolvimento possível entre jornalista e entrevistado? E como demarcar uma linha de proteção segura, quando duas pessoas se encontram e uma delas precisa se expor? Com o sucesso do perfil no Buzzfeed, Ricardo vira estrela. Como tamanha repercussão pode fragilizar ainda mais uma existência já tão precária? O próprio Felitti conta as inúmeras ligações que recebe querendo tirar proveito. Querem fazer docudrama, reality show e o escambau. O autor dribla as propostas mais escandalosas, quase cai em uma…

A relação de Felitti me fez lembrar do começo de O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm, escritora americana - “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável” – escreve Malcolm, ela própria que já teve vários comportamentos indefensáveis. O livro me fez lembrar ainda de O nascimento de Joicy, da jornalista Fabiana Moraes, que também descreve a relação entre repórter e fonte. Em tempos quando a caça por revelações escandalosas e vidas singulares é tamanha, obras como Ricardo e Vânia e O nascimento de Joicy são fundamentais.

Para além do que Ricardo e Vânia nos faz pensar sobre jornalismo, estamos aqui com um mosaico de vidas relatado de forma exemplar e que compõe a imagem de uma grande História com maiúscula, uma História que só poderia se potencializar numa grande cidade que é inferno-paraíso. Ricardo e Vânia se passa naquela São Paulo que desce a Rua Augusta como infinito tobogã de prazer e dor a 120km/h até o centro. Mas poderia se localizar em qualquer grande urbe. Conhecemos bem essas pessoas (às vezes já fomos elas), sabemos de suas tatuagens coloridas, dos seus mantras que proclamam je ne regrette rien. Sentimos o cheiro de cigarro de filtro vermelho dos seus hálitos, enquanto falam de amigos que se perderam por álcool, doença, tiro. Ou só por coisas da vida e pronto. Ricardo diz que a rua não é sala da casa da gente, ainda que às vezes seja a única casa possível e que é preciso “ter muito tato, muita sensibilidade”. E isso tanto com as ruas quanto com as pessoas nelas. 

 

>> Schneider Carpeggiani, editor do Pernambuco, é  jornalista, doutor em Teoria Literária (UFPE) e curador de eventos literários

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