Rubem Fonseca fev.19 Renato Parada

 

Penso sobre o ensaio de Michael Foucault que fala do quadro de René Magritte. O título é Isto não é um cachimbo. Na imagem, vemos um cachimbo e, logo abaixo, lemos a frase que o intitula. Tem forma e cor de cachimbo, conhecemos o artefato, mas a frase diz que não, não é. E é a partir desse exemplo que Foucault fala sobre a relação histórica entre o texto e a imagem; ou o texto é legenda da imagem ou a imagem é assimilada pelo contexto.

A afirmação de Foucault, feita a partir da pintura ocidental do século XV ao XX, continua presente para a comunicação visual contemporânea. O quadro de Magritte é uma ruptura histórica porque questiona os conceitos de definição e representação. Nem tudo é o que parece ser. Nomear um quadro, sem a menor necessidade de ser nomeado e de maneira contraditória, é um desafio à ordem social e uma afronta à maneira dominante do olhar.

Dois tipos de classificação entre o texto e a imagem são explicados pelo autor: o caligrama e o rebus. O primeiro acontece quando o texto reforça a imagem e vice-versa. É muito usado para alfabetizar. Por exemplo, vemos uma maçã e abaixo dela aparece o texto “maçã”. O rebus é mais complexo porque exige do observador um repertório linguístico. É subjetivo, vai além do que se vê. Os franceses usam a palavra latina rebus, na expressão rebus quae geruntur quando se referem aos signos que trazem outros sentidos, uma linguagem transviada ou do uso da referencialidade. O rebus também é um jogo de enigmas que exige a reconstrução da frase por meio de letras, números e imagens.

De forma mais simples, o rebus num quadro ou numa página (ou em qualquer suporte) é quando a imagem, o enquadramento ou a cor são tão comumente relacionados a grupos ou situações que a legenda para a imagem é, a princípio, desnecessária em termos de compreensão da mensagem. A partir dessas relações, podemos pensar sobre a dinâmica das imagens e dos textos em ambientes acadêmicos e profissionais.

É bem mais comum teorizar sobre a mensagem escrita ou falada, mas a mensagem visual, escapa. E esse comportamento faz parte de uma tradição, como escreve o historiador Rafael Cardoso no prefácio sobre de O mundo codificado, de Vilém Flusser. Na Universidade, divide-se o design e a comunicação em departamentos diferentes, mesmo ambos sendo frutos de um processo de codificação da experiência. O trabalho de Flusser é raro e necessário em um período no qual presenciamos avalanches de informações visuais. A partir dessa introdução teórica, parto para algumas impressões ativas sobre a relação entre texto e imagem.

Eu entrei numa redação em 2006. Houve um episódio que me fez pensar sobre as hierarquias que atravessam imagem e texto: um colega da fotografia passou a atuar como repórter textual e os demais colegas do jornal começaram a dizer: “Parabéns, subiu para texto!”. Existia um tipo de poder que não atravessava, de maneira horizontal, as atividades dos profssionais da imagem. Não é sobre vitimismo que quero falar, é sobre o ego milenar do texto e como, de certa maneira, os comunicadores visuais perpetuam isto. Fotógrafos, ilustradores e designers, todos nós temos culpa.

Como não há o costume da crítica da imagem que estão em suportes nos quais, geralmente, camuflam a análise (capas, cartazes, folhetos), certos trabalhos escapam, mesmo quando quase tudo ao redor deles não. No livro Carne crua, de Rubem Fonseca, parece ter acontecido isso. Pouco ou nada foi falado sobre a capa, na qual um rosto de mulher é sufocado por um saco plástico.

Tem-se um rebus ali. Primeiro vem o título Carne crua numa espécie de etiqueta de bandeja de carne de supermercado e um rosto está plastificado por baixo. A carne crua está relacionada à imagem de um rosto. Entende-se que um canibal, um serial killer, embalou alguém. O rebus está no fato de ser o rosto de uma figura feminina. No país em que uma mulher é assassinada a cada duas horas e que está no topo do ranking de países com mais registros de homicídios de pessoas transgêneras, há uma questão.

Se lermos apenas o conto que intitula o livro e esquecermos os 25 que o acompanham, temos várias referências que poderiam ajudar a ilustrar: um cão rottweiler, um quintal, sangue, um personagem que confessa seu gosto por carne humana. São em casos assim que digo: nós temos culpa. Demos margem para continuar um problema. Assim, vemos o clichê maldito de mostrar uma figura feminina violentada e ninguém dizer nada sobre essa escolha que foi impressa, revisada, veio da gráfica para aprovação, foi aprovada, seguiu para a linha de produção, foi publicada, enviada para divulgação, resenhada... Mas conseguiu escapar, porque as questões para discussão crítica concentram-se no texto, apenas.

Foucault diz que pouco importa o sentido da subordinação: o essencial é que o signo verbal e a representação visual não são jamais dados de uma vez só. Sempre uma ordem os hierarquiza, indo da forma ao discurso ou do discurso à forma. Termino este texto com uma frase de Rubem Fonseca que está na contracapa, ao lado da figura feminina morta e embalada: “Cortei o papo. A crise econômica estava afetando até as putas. Este país vai mal, aliás, o mundo vai mal, está tudo uma merda”.

 

>> Jaíne Cintra é designer especializada em motion design e pesquisadora em design, tecnologia e cultura pela UFPE

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