Resenha Cidinha da Silva Pamela Iris Divulgacao

 

 

Quem me introduziu à obra de Cidinha da Silva (foto) foi Exu. O Exu Tranca Rua, para ser mais exata. Era a primeira vez que me deparava com a citação de uma entidade que eu conhecia, mas que era mantida fora das referências filosóficas – pelo menos das ocidentais. Dizia a epígrafe de Cada tridente em seu lugar (2006), livro de estreia da autora: “Ocê pensa que caminho e estrada é tudo a mesma coisa, mas tá errado, minha fia. A estrada é uma coisa, o caminho é outra. A estrada é uma via, uma picada no mato, um cortado no chão e é muita. O caminho é quando ocê escolhe uma estrada pra seguir e chegar no seu lugar” (Exu Tranca Rua).

Oluwatoyin Adepoju, na Oxford encyclopedia or african thought [nota 1], lembra que o “Exu é descrito na literatura clássica como a personificação da coexistência das contradições”. Posicionado nas encruzilhadas, o Exu seria a integração de contrários, convergência de caminhos que partem de diversas direções. É o antagônico, mas também o que complementa. Ao passo que fui acompanhando os livros de crônicas lançados por Cidinha, percebi o quanto essa linha filosófica contrastante se faz presente em sua obra. Nela, a coisa é, mas não apenas. E, na possibilidade de ser muitas, não se descarta defini-la como única.

O gênero literário de O homem azul do deserto (Malê), livro de crônicas mais recente de Cidinha, o 12° de sua carreira, é um exemplo dessa reflexão. Nele, crônica e conto dividem espaço na ficha catalográfica, provocando certa desorientação no leitor frente ao hibridismo do texto. Nesse sentido, escolho minha vereda e parto em direção à crônica para discorrer sobre o livro. É ela que desponta no percurso. Isso porque predominam nos textos a observação pessoal, as experiências da autora no cotidiano, o relato de diálogos fisgados ao acaso ou mesmo a linguagem supostamente descompromissada que nos direciona à reflexão.

Mesmo assim, percebe-se que os elementos ficcionais estão inseridos na escrita de Cidinha. Porém, como uma extensão narrativa que não chega a desviar de sua origem, porém, permanece no acostamento. A janela e o passarinho, que abre o livro, revela essas características. Acompanhamos a reação e os anseios íntimos de um motoboy ao se deparar com um pássaro morto. O animal confunde a janela envidraçada de um prédio com a extensão do céu e cai desfalecido sobre a calçada. Inicia-se, então, um dilema entre o motoboy e o suposto viúvo da falecida passarinha, inconsolável com a perda de sua companheira. Durante a leitura, aliás, é difícil não fazer uma analogia entre o dito pássaro e o leitor, que, distraído no texto fluido de Cidinha, pode se espatifar a qualquer momento na interpretação perspicaz da autora sobre o cotidiano.

Vestígio semelhante pode ser identificado na crônica Iku e o menino que furtava livros. Nesta, o orixá Iku (“morte”, em iorubá) é a advogada de defesa de um garoto de 19 anos, que está sendo julgado por ter roubado livros de uma loja no shopping. A crônica refere-se a um fato ocorrido em 2014, em Salvador. Nos sites de notícias é dito que os livros serviriam para o rapaz estudar, mas as linhas enfatizam, maledicentes, que o gênero dos títulos era de ficção científica. Argumenta Iku, no simulado julgamento: “Se alguém rouba um pão francês é porque tem fome, mas se rouba um chocolate ou sorvete é porque tem febre de riqueza e luxo? E Iku mesma responde: é que o furto praticado pelos pequenos não pode incluir o sonho e a delícia”.

Outro momento em que o gênero se mescla é na crônica, que classifico como afrofuturista, A menina e a bicicleta. A história se passa no ano de 2114, quando pai e filha analisam, em um museu, objetos usados no passado. Caminham pela seção de diversões até chegarem à de tortura, onde a tranca de uma bicicleta é exibida. Não compreendem, pai e filha, o que a peça faz na seção. A descrição do objeto, no entanto, explica a utilidade, fazendo o leitor, pássaro desavisado, chocar-se contra o vidro do aparente conforto da leitura.

> O afrofuturismo a partir de Octavia Butler e Aline França - um artigo de Fernanda Miranda

O homem azul do deserto nos apresenta a diluição das fronteiras, a encruzilhada dos sentidos. É o ponto onde a ironia, a delicadeza, o humor e a acidez se encontram para logo tomarem direções opostas. Essa mesma ambiguidade, que pode ser entendida como um dos méritos de Cidinha, é, também, um dos grandes desafios lançados ao leitor. E, talvez, resida aí o poder de atração, não apenas de O homem azul, mas do conjunto da obra de Cidinha: reconhecer na loucura a lucidez, deixar a certeza em dúvida, construir o novo – inclusive a linguagem – a partir do passado. Assim nos mostra Exu, que demonstra a “limitação cognitiva (do leitor) na percepção dos fenômenos apenas da perspectiva à qual está exposto, excluindo outras possibilidades”. [nota 2]

É de se lamentar que uma das poucas cronistas – incluindo homens – que se propõe a refletir e a lançar um olhar contemporâneo dos meios de comunicação, sob a perspectiva das relações raciais e de gênero, ainda não seja conhecida do grande público. Basta voltarmos a obras, como Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê Edições, 2013), Baú de miudezas, sol e chuva: crônicas (Mazza Edições, 2014) ou ainda Sobre-viventes! (Pallas, 2016), para perceber o valioso material que Cidinha construiu a respeito do jornalismo, das novelas, das séries e programas de entretenimento da televisão brasileira. O factual é suspenso, enquanto os elementos narrativos usados por Cidinha atraem o leitor para um exame atento daquilo que, de certa forma, é naturalizado.

No tocante ao recorte racial, Cidinha expõe em sua análise cirúrgica as armadilhas da cobertura jornalística que insiste em reforçar estereótipos das famílias negras. Enquadramentos dramáticos, uma história de superação, algumas lágrimas que possam colaborar para o roteiro (sugiro leitura de O dia em que William Bonner chorou, do livro Sobre-viventes!).

Em O homem azul do deserto, essa crítica aparece no texto O gol de Maurício Mauro, em que uma jornalista vai à casa da mulher para perguntar sobre o gol feito pelo filho, um rapaz negro de 19 anos de idade. Quer saber se está emocionada. A mãe responde serena, dizendo que sim. “Insatisfeita, a entrevistadora tentava extrair comentários sobre a provável trajetória de labuta e dificuldades das famílias negras daquele porte (...) um conteúdo de superação vestiria bem a matéria, mas a entrevistada não colaborava”. E Cidinha encerra, falando da mãe do jogador: “Ela tinha tanto viço guardado, rizoma espetacular de alegria, que não haveria lágrima forçada por jornalista formada pelo vício de destacar o sofrimento dos negros capaz de macular aquele sorriso”.

O espaço ocupado por mulheres e homens negros na literatura também não foge do olhar de Cidinha. A fala do entrevistador, durante uma mesa na Flip, que destaca a “necessidade de criação de um cânone extraoficial, um cânone B” para as autorias não hegemônicas, está presente na crônica Vozes da bibliodiversidade na Flip e em outras festividades literárias. Aqui, um texto mais opinativo, Cidinha contesta, entre outros apontamentos, o lugar destinado – e, por vezes, pré-determinado – a esses escritores. “Não interessa um cânone específico para a literatura de autoria negra e outras também massacradas”. Para a cronista, interessa, sim, pluralizá-lo.

Textos como esses salientam o desconforto de jornalistas, mediadores e especialistas do ramo ao dividir espaço com quem anda à margem dos grandes círculos literários. Isso fica evidente no relato contido na crônica Pode uma escritora negra falar sem que o mediador tente roubar a cena? Situação em que a escritora Ana Maria Gonçalves, ao contrário do que desejava o mediador, “disse o que quis, o que havia planejado dizer, e não foi nada do que fora discursado pelo mediador” (ele havia aberto a mesa com a frase de efeito “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, bordão que seria repetido mais de uma vez).

Por outro lado, como é característico nas crônicas de Cidinha, a memória e a valorização dos artistas e pensadores negros estão presentes em O homem azul do deserto (Elza Soares, a voz e a máquina, A cadeira de Miss Davis). Assim como em Ainda Melodia. Para sempre Melodia!: “Que bom quando um artista se vai e as pessoas reverenciam, lembram-se dele, sabem quem foi. Agostinho dos Santos, Johnny Alf, Antonio Pompeo, Itamar Assumpção não experimentaram essa reverência”, lamenta a escritora, mencionando, em seguida, os “esquecidos” da black music Lady Zu, Cláudio Zóli, Cassiano, Hildon.

Para além das questões que abarcam a fusão de gênero literário e os temas abordados, Cidinha construiu no decorrer dos anos uma obra composta por um rico campo semântico. Essa constelação linguística presente nos textos revela, além de sua nítida relação com as religiões de matriz africana, sua vontade em partilhar do princípio tradicional africano de que a vida espiritual faz parte do dia a dia. Em O homem azul do deserto, saudações, nomes de orixás e expressões em iorubá desfilam com naturalidade e sem didatismo pela escrita da autora. Que o leitor (o leigo, claro) investigue os significados de peji, bodô, Obaluaê, xirê, atotô, ronkó, obegê. Que se debata na ausência de nota de rodapé como muleta. Que busque referências para compreender a analogia entre o cobrador de O homem que costurava, Hampâté Bâ e Kadja.

Na concepção de mundo da cronista, os orixás não apenas vivem em nós, como também interferem e geram novas atribuições de sentido. Antes substantivos próprios (Oxum, Exu, Ogum), os nomes são adjetivados (oxúnico, exúnico, ogúnico), tornando-se inclusive verbos (exuzilhar). A crônica Ora iê iê ginga!, é um exemplo. No texto, Cidinha faz uma ode à ginga, movimento da capoeira – referência que pode ser lida, também, como metáfora da habilidade em lidar com a vida. Apesar de ser definida por alguns como exúnica, a autora faz sua defesa e qualifica a ginga como oxúnica. Lembra, assim, o mito de que foi a ginga de Oxum que trouxe Ogum de volta aos seus, após se exilar na floresta por ter decepado a cabeça de inocentes. É a estética da ressonância dos mitos manifestada no texto.

Além da crônica, o ensaio, a poesia, a ficção infantojuvenil, a dramaturgia e o conto também integram a produção de Cidinha. Mas é na crônica que a mineira apresenta um trabalho bastante singular no cenário contemporâneo brasileiro. Mereceria maior atenção. De seus trabalhos mais políticos (#Parem de nos matar!, Ijumaa,2016), às obras de ficção mais poéticas (Os nove pentes d’África, Mazza Edições 2009), a autora transita por muitas searas, sem necessidade de se prender a nenhuma delas.
Ao invés dessas marcas aprisionarem Cidinha em um nicho, elas, pelo contrário, expandem a sua interpretação do mundo, dilatando o que se considera como de autoria negra. Das caixas de papelão que revelam o peso do desconhecimento (O homem da mudança), das cenas fugazes da rua (One people, one love), da criatividade linguística do povo (Absurdada), Cidinha cria, a seu modo, um microcosmo dentro de um segundo, no interior de uma ínfima medida de tempo que lhe seja ofertada. Pois, como agora já sabemos, a estrada é uma coisa, o caminho é outra. E o caminho, Cidinha parece já ter escolhido o seu.

 

NOTAS

[nota 1]. A tradução é informal e foi feita para esta matéria pelo pesquisador Adriano Migliavacca.

[nota 2]. Aspas do verbete citado do Oxford encyclopedia or african thought.

 

> Priscila Pasko é jornalista, escritora e editora do blog Veredas

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