Schulz resenha out.18

 

 

Um cavalo é conduzido por Bruno Schulz (imagem), mas a certa hora se desvencilha e continua sua jornada em busca de algo que não lembra. Ao fim, chega a um menino, com quem galopa concentrado. O objetivo é chegar a alguém que os espera depois de longínquos morros. Mas seria tolo reduzir o livro Bruno Schulz conduz um cavalo, de Leda Cartum e Marcos Cartum a isso.

Schulz (1892-1942) foi escritor e ilustrador cujas ficções, grosso modo, são desejosas da infância e amargurada pela maturidade. O texto de Leda se pretendia uma análise da obra do autor, mas terminou por virar um conto com ilustrações de Marcos. A narrativa é dividida em pequenos parágrafos acompanhados dos desenhos. À primeira vista pode lembrar algo do cinema mudo (o filme intercalado com cartelas de texto), mas depois remete às estações da via crucis de Cristo, em que o desenho seria a imagem da estação e o conto, sua legenda. Schulz era judeu, mas aqui continuo falando do Cristo sabendo que isso é tão estranho quanto dar asas a um cavalo – a exemplo do que ocorre no livro ora discutido.

Um possível olhar para o livro é o de ele ser uma alegoria da busca do autor polonês por essa infância que, mesmo pura, já reconhece a estranheza ao redor. Schulz comanda o cavalo, mas este se livra e segue adiante por noites, ganha asas, cresce e diminui para ser achado por uma criança que desenha homens tristes e criaturas estranhas, para depois seguirem juntos um caminho a uma pessoa desconhecida. Assim, esse exercício da procura aqui surge como calvário sem final – se na Igreja as estações terminam com o sepultamento de Cristo, na obra em questão finda com o surgimento de nova busca.

Como a obra se centra no quadrúpede, o que o trabalho de Marcos e Leda pode dizer é: ao encontrarmos as ficções, centremo-nos nelas enquanto caça, busca, procura.

É hora de ir, ele ouve e procura com os olhos imensos mas não encontra nada ainda, diz-se a certa altura da narrativa. O desenho que acompanha o trecho é um close no olho do cavalo, um dos momentos em que o traço de Marcos Cartum está mais definido, sem forma difusa. Enquanto ambientes e o próprio cavalo se definem pela delicada confusão de traços, o olho, instrumento de busca, surge mais delineado e firme.

A visitação que o livro realiza da obra de Schulz parte dos elementos que ele mesmo lançou em seus desenhos e ficções escritas. Se a intenção de Leda Cartum era analisar os trabalhos do polonês, o gênero “conto” foi ótima opção porque, associado aos desenhos, consegue acolher a indocilidade do cavalo e da procura de Schulz sem tentar domesticá-los como ocorre com o exercício crítico não ficcional, ao menos em boa parte dos casos.

A independência do corcel talvez diga que a procura é maior que seu autor, e parece ser possível entender o encontro com o garoto tanto como o contato com a pureza de Schulz, quanto um convite para o leitor correr com o polonês suas procuras.

 

 

>> Igor Gomes, editor-assistente do Pernambuco, é jornalista

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