Luis.Henrique

 

Talvez uma das demandas mais frequentes que hoje temos nas artes é a de entender o humano pela medida do animalesco. Ou mesmo do monstro. É do que trata, por exemplo, a leva de filmes recentes com o rótulo de pós-terror. Obras com roteiro de cunho filosófico, em que, muitas vezes, o elemento susto não vem de forças sobrenaturais, mas do perigo que o contato com um semelhante pode gerar.

O elogiado livro de contos do escritor Gustavo Pacheco, Alguns humanos, nos transformou em espécimes expostas num gabinete de curiosidades. E, como pontuou a crítica Laura Erber, em texto sobre os contos de Pacheco para o Pernambuco: “A natureza do olhar humano sobre os animais foi questionada por John Berger no belo ensaio Por que olhar os animais?, escrito nos anos 1970. Berger alertava para o modo violento como exibimos os animais, pois, mais cedo ou mais tarde, acabamos por realizar o mesmo tipo de violência conosco”.

O segundo livro de contos de Luís Henrique Pellanda (foto), A fada sem cabeça, perfila homens e mulheres com suas potencialidades de vítima e carrasco, criando uma espécie de história universal do abuso. Um bestiário, que usa de forma engenhosa o maquinário (violento) das fábulas. Em seus contos os animais parecem seres dispostos a ser abusados. Há pinguins mortos de forma misteriosa numa praia, há um gato fantasma em chamas que assombra um antigo molestador de felinos... Os animais são as vítimas e, nós, os humanos, os racionais, somos os abusadores deles e de nós mesmos.

Mas Pellanda nos faz lembrar em suas histórias que o abuso nem sempre é algo claro, de simples desenho, tanto para quem faz quanto para quem sofre. Existe algo que se perde nessa tradução, e tal perda é o que causa pavor, o que gera fantasmas. O que de fato aconteceu? No conto minúsculo que dá nome ao livro, há descrição de um pesadelo infantil, em que um criança conversa com uma aparição noturna, que surge sem cabeça. O horror ganha ainda mais força quando é travado o seguinte diálogo sobre o porquê do membro decepado: “Cortaram, ela disse, e ninguém saberia explicar com que boca. Mas a menina insistiu, quem cortou? E a fada, deslizando as mãos por sob o travesseiro da filha, respondeu: Pergunte ao seu pai. Disse isso e chorou, embora ninguém soubesse dizer com que olhos.” E o conto para aí, nos deixando com duas ausências: o órgão decepado que havia se debulhado em lágrimas e a resposta para a razão da demanda “pergunte ao seu pai”. Há algo tão violento nessa passagem, que o autor só consegue nos contar por elipse.

>> Luís Henrique Pellanda: uma prosa calcada no exercício das entrelinhas

O terror infantil noturno reaparece em outro momento chave do livro. O conto Isto não aconteceu brinca em seu título com a gratuidade ficcional do relato de um menino que se esconde, sem nem saber o porquê, no quarto de um frei e acaba sendo testemunha silenciosa do suicídio do religioso. Ainda que o conto ressalte a todo instante que a situação vivida pelo personagem é pura fantasia, a história nos deixa intrigados sobre o material do cotidiano que forjara aquele sonho. Nenhum detalhe é desprezível, ou insignificante, no relato de um trauma.

Cronista dos mais vigorosos em atividade hoje, Pellanda tem uma linearidade e estilo tão fortes na sua escrita que os leitores das suas crônicas não vão estranhar totalmente o contista magistral aqui presente – ainda que o material de A fada sem cabeça seja dark, perturbador e quase barra-pesada, bem distante do que se poderia esperar de uma crônica de jornal. Mas como o autor lançou mão de uma epígrafe de O médico e o monstro, de Stevenson, para o livro, podemos até brincar que o Pellanda cronista é o Dr. Jekyll; e o contista, o Mr. Hyde.

>> Leia Angelino, conto do livro A fada sem cabeça

 

* Schneider Carpeggiani, curador de eventos literários e doutor em Teoria Literária (UFPE), é editor do Pernambuco

 

SFbBox by casino froutakia