Resenha A.acusacao.ago.18 Hana.Luzia

 

São narrativas que gritam como se estivessem engasgadas com um coágulo de sangue que compõem os “saberes vaga-lumes”. São narrativas que, diante da glória ostentada por regimes ditatoriais em suas demonstrações grandiosas de poder, brilham e apagam com fragilidade – mas estão vivos, falam das opressões às quais são submetidos e conseguem se fazer ouvir para o resto do mundo, ainda que isso possa demorar anos. São os precários pirilampos contra os holofotes da glória que conseguem manter “o desejo como o indestrutível por excelência”, segundo Georges Didi-Huberman [nota 1]. É o primeiro olhar que me chega ao ler A acusação (Biblioteca Azul), coletânea de contos que denunciam as incoerências e abusos da ditadura que governa a Coreia do Norte há décadas. Seu autor é desconhecido, mas escolheu um pseudônimo sugestivo: “Bandi”, que em coreano significa “vaga-lume”.

Os sete contos do livro foram escritos entre 1989 e 1995 (as datas constam ao fim de cada um), que abarcam criticamente o regime de Kim Il-sung, avô do atual ditador do país, Kim Jong-un. Foram contrabandeados para a Coreia do Sul (o trajeto é inusitado e contado em dois posfácios), por lá publicados para depois serem traduzidos para 17 países.

As narrativas primam pelo realismo em linguagem acessível, com metáforas de fácil entendimento. Sempre partem da dicotomia “povo x ditadura”, a compaixão em contraste com a ojeriza. Apesar de, no fim do livro, Bandi escrever um poema em que fala como suas palavras são secas como um deserto, a narrativa, permeada por frases longas, muitas vezes detidas em conflitos afetivos internos, passa longe da praticidade doída e árida de textos como um Vidas secas, por exemplo.

O regime de exceção é caracterizado por um discurso solene, sisudo, cínico e controlador que se choca contra personagens que fazem relatos ao rés do chão – por isso, apesar da presença de um narrador onisciente em 3ª pessoa, há cartas, diários, sonhos, improvisos teatrais no palco. Autor e criação se confundem por conseguirem elaborar sua própria visão de mundo diante dos dias semelhantes, dias frequentes demais em uma vida que, no fim das contas não podia ser chamada de longa (p. 97). O povo é construído como comum, cheio de dignidade (valor que várias culturas orientais levam ao extremo), ao qual foram negadas comida, conforto, o convívio com a família e oportunidades de ascensão profissional.

Por servir a fins políticos de urgência em uma nação que vigia obsessivamente seus cidadãos, as narrativas de Bandi (que ainda mora no país) trabalham a previsibilidade como elemento importante. É preciso se fazer entender às claras. Os personagens são oprimidos, acossados a fins dramáticos e sempre alcançam a consciência da podridão do regime. As mulheres e os filhos – os rechaçados por excelência em uma ditadura de caráter masculino – várias vezes surgem como vetores dessa descoberta, mensageiros da lucidez. É “o cair da ficha” que nos permite ver os contos como narrativas de esperança.

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Chama a atenção, no poema do início e nos contos, o repúdio a Karl Marx e a suas ideias. No 2° conto, ele é associado a um monstro do folclore coreano e a um fantasma aterrorizante. No último, é colocado como fonte de todo sofrimento humano. Em momento algum se contemporiza o fato de que as ideias implementadas na Coreia do Norte não são de Marx, mas sim uma leitura que dele é feita pelos governantes. É compreensível a ojeriza, já que o alemão e os ditadores são colocados pelo Estado como símbolos da pátria (o segundo conto do livro deixa isso evidente).

Ainda que hoje muitas de suas ideias sejam problemáticas (a noção do comunismo como o fim da História, para citar um exemplo elementar), Marx mapeou a estrutura do capitalismo de uma forma que ainda hoje suscita debates. Seu nome inquieta os reacionários e os neoliberais, prova simples e efetiva de sua atualidade. Ao nos fornecer elementos para entendermos a estrutura do capitalismo, nos deu a chance palpável de enxergar a possibilidade de termos uma sociedade diferente desta.

A edição de A acusação carece de um texto que situe minimamente os usos das ideias de Marx pela ditadura nortecoreana. Em um Brasil no qual o pluralismo ideológico é visto como nocivo e grupos de estudos sobre o filósofo são denunciados ao Ministério Público (como ocorrido na UFMG em 2017), chega a ser irresponsável a ausência dessa contextualização para (aparentemente) se valer da atenção dada às recentes aproximações entre Estados Unidos e Coreia do Norte.

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No 6° conto, a liberdade – valor que atravessa o livro – é formalmente nomeada como o ideal contra o combate das opressões advindas da igualdade (nomeada assim no último texto). São valores jamais colocados em prática seja pelos regimes dos EUA ou pelas ditaduras na Rússia, China e Coreia do Norte. Parece caber aqui a provocação feita por Octavio Paz (em Uma outra voz). Diz o mexicano que as liberdades individuais se chocam e procuram se anular; e a igualdade é um valor ético a se aspirar, que só pode conciliar as diferenças naturais entre os humanos por meio da ação da fraternidade/solidariedade. É este elemento que nos aproxima do vaga-lume diante dos nossos olhos e serve como atrativo para um texto de estética simples, que, dadas suas condições de produção, cumpre bem seu objetivo político.

 

NOTAS

[nota 1]. As ideias estão presentes no livro Sobrevivência dos vaga-lumes, de Didi-Huberman (Editora UFMG).

 

* Igor Gomes, jornalista, é editor-assistente do Pernambuco 

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