Juan Pablo livro.agosto.18 divulgacao

 

Não a Barcelona reluzente, orgulhosa de si, nem muito menos a Barcelona do gazpacho perfeito, do Gaudí ou do Paseo de Gracia e suas vitrines de luxo. Não a cidade que os turistas compram caro para ver, e que talvez nem mais exista, já que tudo o que passa a ser vendido por uma agência de turismo, e seus folders coloridos, deixa um pouco de respirar. Vira uma múmia amaldiçoada pelo excesso de marketing e de flashes fotográficos. Não é, definitivamente, essa a Barcelona que o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos escolheu para abrigar seu novo romance, Ninguém precisa acreditar em mim, vencedor do Prêmio Herralde (o mesmo que consagrou Roberto Bolaño e seu Os detetives selvagens).

Após uma série de livros que pode ser considerada sua trilogia mexicana (Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorro), Villalobos decidiu voltar o olhar para a cidade onde hoje habita, onde formou família, onde constituiu uma ideia qualquer de normalidade e cotidiano. Seu México natal ficou distante, quase irreal, quase para turistas, como o gazpacho e o Gaudí da Barcelona dos folders. Sobre a mudança geográfica, o autor chegou a comentar em artigo para o Pernambuco: “O México não era mais aquele país onde eu morava, aquela pátria que eu conhecia. Dentro de mim, o México estava deixando de ser um espaço real de interação para virar um cantinho de lembranças. Um lugar, até, imaginário. Cada vez que eu colocava a bunda na cadeira para escrever, sentia que o cenário do enredo escorregava entre minhas mãos. Eu pressentia o perigo iminente de tornar folclórico, exótico, aquele que tinha sido meu lar”.

Ninguém precisa acreditar em mim é um romance policial, com cobertura de autoficção – o protagonista se chama Juan Pablo Villalobos e, assim como o autor um dia, foi para a capital catalã fazer uma pós-graduação em literatura –, que flagra uma cidade barata, suja, veloz, ímã potente para imigrantes da América Latina, boludos que recebem olhar de desdém dos nativos. Uma Barcelona incomodada com a pecha de cosmopolita, mas já é tarde demais para retirá-la, uma cidade que se perde pelas ruelas invisíveis ao lado de suas luminosas ramblas, de habitações minúsculas, sem eira nem beira. Uma Barcelona que pedia para ser escrita.

Na escrita, o autor reacende não apenas seu talento em construir tramas à beira do nonsense com passagens violentas (nas cenas e na linguagem). Também se consagra como artesão de histórias engraçadas, algo entre o riso solto e a desfaçatez da ironia. Após ser comprometido num negócio esdrúxulo pelo primo, o Villalobos-personagem acaba tendo sua pós-graduação comandada por um grupo criminoso envolto em mistérios. O que mesmo eles teriam a ganhar com esse aluno de Letras? O romance parece prestar homenagem a Bolaño, que já foi um latino-americano perdido pelas ramblas catalãs e que tanto gostava de meter seus intelectuais (estudantes, professores, escritores, críticos, etc) por peripécias absurdas.

Mas Villalobos é um narrador tão exímio que sabe usar o fantasma de Bolaño sem ser petrificado por ele (o que acontece com muitos dos seus contemporâneos). Ninguém precisa acreditar em mim é um dos bons lançamentos de língua espanhola a chegar ao Brasil este ano. Um romance selvagem, mas com uma selvageria toda própria. 

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