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A música pop dos anos 1970 esforçou-se em gerar odisseias em direção ao futuro. Assim fez o Kraftwerk com os sonhos elétricos dos seus robôs perdidos numa infinita“autobahn”. Ou Donna Summer nos orgasmos sintéticos de I feel love, que mais parecia uma invocação alienígena a vibrar nas pistas de dança. E, claro, o David Bowie fraturado após os excessos da sua fase glam em dois álbuns revolucionários, a saber Station to station (1976) e Low (1977). O primeiro, que começava com o som de uma locomotiva galopante sem direção; o segundo, com o incômodo das ondas de rádio da canção Speed of life. O futuro, seja lá o que fosse, parecia bem perto, tátil, ainda que não necessariamente redentor.

É possível ter uma ideia da narrativa dos anos 1970 apenas traçando os passos de David Bowie. Mas foi justamente no pico de criatividade de Station to station e de Low que melhor podemos “ler” essa década de excessos sexuais e químicos, de fascismos e de enormes vazios. O escritor australiano Hugo Wilcken propõe olhar o processo criativo desse período do artista britânico em Low, biografia do álbum, que acaba de ser lançada no Brasil pela Editora Cobogó. A obra faz parte da série “o livro do disco”, exímia em dissecar obras de importância chave para a música popular.

 

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Com uma escrita clara e próxima do leitor, o biógrafo oferece uma visão ampla da produção de Bowie. Ele sabe que as grandes obras do pop não são eventos isolados, mas produtos de um largo espectro cultural e social. Wilcken nos dá detalhes da highlife decadente que gerou Station to station (uma das lendas é que tanto o cantor não lembra de muito do período da produção desse álbum; em outra, a história de que ele vivia numa dieta maluca à base de leite e cocaína) e da época em que Bowie se exilou em Berlim, convivendo com outro grande junkie star dos anos 1970, Iggy Pop. Temos, então, a noção de que o estranhamento que a sonoridade do Low nos causa é gerada por uma mente perturbada à solta num mundo em crise. O fruto de uma larga convulsão.

Quem conhece a discografia de Bowie sabe que o Low causou uma rachadura na linha de montagem de músicas pop perfeitas que ele vinha fazendo desde o começo daquela década, como Young americans e Space odissey. Ainda que o artista flertasse com diversos estilos musicais, havia uma familiaridade em suas melodias que, fácil, fácil, ganhavam os ouvintes. Com Low isso não acontece.

O disco era a trilha sonora de um filme que ainda não havia sido feito, de roteiro incompreensível, como o de um sonho. Uma música narcísica, de um deus idem, que olha apenas para si próprio.

“Contra o pano de fundo de línguas imaginárias, zunidos, cantos e vocais sem palavras do segundo lado, as imagens do primeiro, tendo o quarto como refúgio, agora começam a ficar mais claras, a dar a sensação de um retorno psicanalítico. Deixamos Low com a sensação de termos feito uma jornada sem mapa, de trás para a frente, para o mundo cego e pré-lingual que permanecerá para sempre misterioso”, observa Wilcken, num trecho desse ensaio que luta para decifrar (ainda que seja devorado no final da audição, como todos nós também já fomos) o enigma da esfinge um dia proposto por David Bowie.

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