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Alejandra Pizarnik (1936-1972) é um dos nomes mais relevantes da poesia argentina contemporânea. Sua obra agora chega ao mercado brasileiro em par: Os trabalhos e as noites (1965) e Árvore de Diana (1962), ambas vertidas ao português por Davis Diniz e publicadas pela Relicário Edições. Um duplo cartão de visitas aos procedimentos de que se vale para representar um eu lírico que manifesta um ardor (de uma lembrança, um rosto, um amor) com a consciência de seu embotamento. O vento e a chuva me apagaram/ como a um fogo, diz um poema de Os trabalhos e as noites. Começo por este livro.

O mundo da poesia de Pizarnik é claustrofóbico. As figuras se repetem: o vento, a chuva, a noite, o lilás. Como diz a poeta Ana Martins Marques no prefácio, não é de graça que a noite se mostra no título. Os poemas são soturnos, melancólicos, frutos de labor noturno. Só se consegue mapear as cartografias do próprio quarto, nos quais as paredes rachadas desvelam a insegurança de quem sabe estar diante de um facho prestes a se extinguir. Por isso, a memória em Pizarnik surge sempre fadada ao esquecimento, e o ruído, fadado ao silêncio.

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O que está fora é agressivo, seja o vento que lhe parte a cara ou a chuva que apaga o dito fogo, o muro da rua como lugar certo para o olvido. Diz um poema: Dama pequeniníssima/ moradora do coração de um pássaro/ sai à alba a pronunciar uma sílaba/ NÃO. O “não”, que vem centralizado e em caixa alta, pode ser visto tanto como negação do eu lírico ao que está fora quanto, como diz Ana Martins Marques, uma alusão à força da imagem da noite. Em espanhol, a palavra Não é No, primeira sílaba do termo “noite” (“noche”).

Destacado mais acima, o verbo partir denota tanto a fratura quanto a ausência e as transforma em sinônimos. Essa ideia tem certa centralidade, já que o eu sempre se dirige a um outro que não está lá. Por uma partida sugerida desse interlocutor, partiu-se a parede que serve de fronteira ao mundo do poema. E partir em busca do repouso é empreitada fracassada – Alguém mede soluçando/ a extensão da alba./ Alguém apunhala a almofada/ em busca de seu impossível/ lugar de repouso.

O livro se estrutura pelos espaços, sejam os da página, representando os ruídos, soluços e silêncios em algumas quebras e intervalos no branco do papel; o espaço surge também no esforço de cartografar a claustrofobia da solidão e a iminência da morte. Mas é no tempo que surge outra referência pertinente para a obra. O título Os trabalhos e as noites traça uma ponte com a obra Os trabalhos e os dias, de Hesíodo. O segundo foi construído como um épico sobre a História da humanidade e a necessidade do trabalho – ou seja, volta-se para fora. Pizarnik ruma para dentro em poemas curtos que criam a geografia limitada de uma pessoa, que se choca com a coletividade e a extensão do épico. Uma economia de palavras que é antieconômica, posto que brota à noite, horário não comercial.

Após dizer algumas coisas, chega o momento de falar do embuste. Porque o poema é arredio à inteligência, dado a traições. Com Pizarnik não é diferente. Por vezes, o “tu” a quem se dirige o eu pode ser o poema por si mesmo. E a caAda verso soturno surge uma chama. Na poesia de Pizarnik vê-se uma chama prestes a fracassar para que outra possa ser perene. A fagulha que permanece é o próprio poema e toda a potência das encenações que nele tomam corpo, pungentes como o vento a arrasar nossos rostos.


ÁRVORE DE DIANA

A árvore de Diana é um procedimento químico que faz um mineral tomar a forma de um vegetal. Alquímico talvez seja um termo melhor, já que o processo tem fundo filosófico. Árvore de Diana é a quarta obra de Alejandra Pizarnik e antecede Os trabalhos e as noites.

Os poemas deixam evidente a influência surrealista que marcou a poeta. Eles são numerados em ordem crescente, como etapas de um procedimento. Como observa a poeta Marília Garcia no prefácio, o livro é cruzado por duplos: eu e a que fui sentamos/ no umbral do meu olhar, diz um poema. Árvore de Diana começa com um “eu” no passado, enquanto Os trabalhos e as noites principia com um “tu” no presente. O duplo (que alude ao surrealismo, como em Claude Cahun) surge, por vezes, como a memória do eu lírico como era antes de entrar no mundo da linguagem, da poesia (a “luz”, como sugere o primeiro poema da obra), uma pureza que alude à deusa Diana.

A alquimia criada, na verdade, ocorre no plano das formas: é o bem-sucedido esforço em unir imagens díspares no poema. O desejo de segurar um eu anterior fracassa, mas é apenas uma performance. Neste livro, há presença da luz (que remete ao dia). No livro seguinte, reina a noite. Ambos são de pungência soturna e marcante.

 

* Igor Gomes, editor-assistente do Pernambuco, é jornalista

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