Adilia mai.18 HanaLuzia

 

Após a coletânea lançada pela extinta Cosac Naify, a poetisa portuguesa Adília Lopes volta às prateleiras brasileiras com edição de Um jogo bastante perigoso, seu primeiro livro. Os seus poemas de estreia, entre eles o conhecido O Luna Parque, estarão entre nós por meio da Editora Moinhos. Lançado no continente europeu em 1985, o livro número um de Adília Lopes, pseudônimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, renova a oportunidade de leitura, para os brasileiros, de um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa contemporânea. A poetisa possui uma obra extensa; o seu último livro, Estar em casa, foi lançado em Portugal em março deste ano.

Quando jovem, Lopes cursou Física na Universidade de Lisboa. Abandonou o curso por questões psicológicas, as quais são tema de suas entrevistas, textos, apresentações e poesias. Reclusa em seu cotidiano na capital portuguesa, ela se tornou uma escritora para a qual a ideia de autobiografia atravessa a ironia, o tédio e algumas técnicas como a colagem e a intertextualidade. Em Um jogo perigoso, Lopes inicia seu projeto poético no qual desenvolve a estética pós-moderna a partir de um ponto de vista do comentário. Ao longo de sua obra, a poetisa não se insere no modelo do pós-modernismo, mas sim apropria-se de seus aspectos e os menciona. Assim, existe uma elaboração da estética, um convite para que o leitor observe a forma e não se sinta pressionado, por exemplo, a ter lido tudo o que foi citado.

O primeiro poema do livro é Memória para Esther Greenwood, alusão à protagonista de A redoma de vidro, de Sylvia Plath. Lopes escreve: “quanto mais tempo permaneço na água quente/ mais pura me sinto/ e quando me ponho de pé/ e me embrulho numa toalha/ grande branca macia/ sinto-me pura e fresca/ como um recém-nascido”. A referência ao banho quente aparece como diálogo direto com a voz narrativa de Plath que, em seu clássico, afirmou: “Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não resolva, mas não conheço muitas delas”. Assim, Adília Lopes começa a sua obra fundada nos mecanismos intertextuais – a ver, alusão, citação, paráfrase –, porém, a escritora não os utiliza com a intenção de reconstruir um pensamento ou na tentativa de despertar, em seu leitor, a necessidade de investir nas leituras feitas por ela.

Do mesmo modo que Hilda Hilst, Maria Gabriela Llansol e Sophia de Mello Breyner Andresen, Lopes faz uso de sua memória literária, nos poemas, como uma espécie de brincadeira diante do leitor ideal. O que importa para a poetisa é que a costura de suas citações e as possíveis conversas que ela estabelece entre autores tanto contemporâneos quanto clássicos sejam observadas pelos leitores. Lopes não adota uma postura que exige a identificação do que se foi versado, ela alerta para a forma com que a poesia pode organizar, referir e apontar para o que se entende como contexto literário. Outro poema que se pode pensar a partir da chave intertextual é Algumas proposições a propósito de Mário Sá Carneiro, cujo interlocutor foi um importante nome para o modernismo português. Dessa maneira, Lopes “povoa” os seus versos com instaurações da pós-modernidade – a colagem, por exemplo, e a própria evidência do intertexto –, mas não as toma como rumo central de sua poética.

Mais à frente, no livro, a escritora portuguesa afirma que escrever um poema é “como apanhar um peixe com as mãos”. Já nesse verso, existe certo equilíbrio entre observar a poesia de forma escorregadia, ofício que se escapa mesmo quando se têm “em mãos” e, por outro lado, um tipo de metáfora que alude à vida simples, ao fato de que a poesia pode ser tão banal e estranha como um peixe fora d’água. A referência ao animal aquático volta em Os peixes brancos: “Um dos grandes temas da actualidade/ é sem dúvida esta panela de esmalte/ cheia de peixes brancos como panos”. Em sua obra, Lopes toca em uma espécie de “espírito da verdade” que atravessa não só a ideia de escritas de si, da autobiografia como escolha do discurso, mas também a proximidade com a vida, o ato ficcional que se pretende extensão da realidade cotidiana.

Nesse aspecto, Um jogo bastante perigoso é como aquele possível catálogo da exposição de estreia de um artista desconhecido. Existe qualquer coisa da ordem da procura pela imagem que unifique o processo criativo e, em seguida, estabeleça a narrativa de continuação. Qual o elemento unificador vislumbra-se no início de uma poética? Para Adília Lopes, essa resposta flutua entre temáticas que juntam alguns abismos: a angústia, estranheza e banalidade presentes n’O Luna Parque – “acabas por aprender vais ver/ a fazer das tripas coração/ habituas-te vais ver” – e a ideia de que a vida, em suas infinitas impossibilidades comuns, como o peixe que não se deixa apanhar ou a vontade de lamber feridas e mudar o lugar das joias, pode te levar a lugares brilhantes, afinal, “só goza/ as férias/ quem sofreu/ os desastres”.

 

* Priscilla Campos é jornalista e mestra em Teoria Literária (UFPE).

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