Rulfo resenha.mar18 fzuker

 

 

“Existem escritores que sentam e escritores que caminham. Rulfo era dos segundos. Todos leem, de preferência vorazmente, mas nem todos leem o mundo com o corpo (...) o caminhar retarda as coisas (...) um método de conhecimento. Uma maneira de estar no mundo e uma maneira de escrever o mundo’’, afirma Cristina Rivera Garza sobre o escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), em seu Había niebla o humo o no sé qué. O comentário de Rivera Garza abre luz sobre Rulfo como um escritor cuja obra se constrói precisamente no ato de caminhar, e talvez essa seja a melhor forma de aproximar-se de O galo de ouro.

Escrito entre 1956 e 1958 e publicado pela primeira vez no México em 1980, o livro era aguardado há décadas com ansiedade como a próxima obra de Rulfo, após a expectativa gerada pelo longo silêncio que se seguiu às publicações de O chão em chamas (1953) e Pedro Páramo (1955). De certo modo, a vida e a produção de Rulfo passam a ser vistas como presas a um passado marcado por uma obra breve, curta e não por isso menos estarrecedora para o panorama literário de sua época, e um devir marcado pela espera de uma nova obra.

Muitas vezes referido pelo autor como um conto, embora por muitos críticos considerado um romance, O galo de ouro toma forma, inicialmente, como um roteiro cinematográfico que é então filmado em 1964 por Roberto Gavaldón, um dos principais nomes da chamada “Época de Ouro” do Cinema Mexicano (1936-1959).

 

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O livro, que ganha nova edição no Brasil pela José Olympio, traz a história de Dionisio Pinzón, um jovem pobre originário de um pequeno povoado no interior do México chamado San Miguel del Milagro que, por não ter um braço, é impossibilitado de trabalhar na terra e ganha a vida como pregoeiro e gritador em rinhas de galo. Certo dia, com a sua mãe muito doente, recolhe um galo moribundo, que havia acabado de ser trucidado em uma competição local. Juntos, cuidam do galo, fazendo ataduras e enterrando-o até o pescoço para curá-lo. Quando esse finalmente está bem e começa a sua trajetória de vitórias nas rinhas locais, a mãe morre. Sem dinheiro para enterrá-la apropriadamente, Pinzón faz uma espécie de caixão com pedaços de madeira da porta de sua casa. É então alvo de gozações por parte dos moradores locais, que acreditam que ele levava algum animal para ser enterrado.

Decidido a deixar San Miguel del Milagro com o galo dourado que iniciava uma brilhante trajetória, Pinzón parte de povoado em povoado rumo à cidades maiores, destroçando adversários em todas as rinhas que lhe surgem no caminho. Entre as andanças é a história da própria vida do protagonista que se constrói, diante de embustes e trapaças, enriquecimento e derrotas, até que conhece a cantora de briga de galos Bernarda Cutiño, apelidada de La Caponera, e que, disposta a acompanhá-lo em suas perambulações, converte-se em sua esposa e espécie de talismã da sorte.

O galo e Pinzón têm algo de pícaro, embora de modo muito particular, já que suas desventuras México adentro e por diferentes ambientes sociais se dá menos pela sua malícia, sagacidade e astúcia que por uma mistura de ambição, sorte e força do destino. A oposição entre o desejo de Pinzón em se estabelecer e fazer fortuna e a ânsia de La Caponera por uma vida livre, fora dos muros, constitui um dos conflitos centrais da obra.

 

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Desde aquele dia Dionisio Pinzón e Bernarda Cutiño vagaram pelo mundo, de feira em feira, alternando as brigas de galos com a roleta e o baralho.’’

Em 1983, quando recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias, um dos mais prestigiosos da língua espanhola, Rulfo concedeu uma entrevista a um canal de televisão espanhol, em que o entrevistador lhe questiona os motivos de escrever tão pouco. A resposta de Rulfo foi: “Lo que pasa es que yo trabajo”. Se existe um tom materialista na frase, a maneira como Cristina Rivera Garza a explora aponta para o modo como Rulfo inventou o seu fascinante mundo a partir da própria condição de alguém que trabalhava rodando o México, e envolvido em diversos projetos de modernização – ou seja, de destruição e de criação - do país durante o governo desenvolvimentista de Miguel Alemán.

E essa espécie de condição material, de um escritor mexicano que decide trabalhar para viver, mantendo-se assim afastado dos centros de poder e privilégios concedidos a escritores, como bolsas e cargos diplomáticos, lhe permite conhecer e viver diversos mundos para além dos grandes centros urbanos. De fiscal de produção em uma fábrica de pneus e responsável por escrever guias de turismo sobre o México que então nascia com as novas estradas, até o seu trabalho não sem contradições junto às comissões para o desenvolvimento da região da Bacia do Papaloapan - então uma das zonas mais isoladas do país; e a sua não menos importante atuação enquanto editor de livros de antropologia acerca dos povos indígenas para o Estado mexicano, é um México profundo em que Rulfo viaja.

Seria mais preciso dizer que se trata de uma escrita como uma viagem terrestre. Não exatamente uma descrição, nem representação do México que então deixava de existir com a modernização. Mas, sim, de uma criação: de uma paisagem melancólica, uma espécie de purgatório terrestre na Comala de Pedro Páramo, ou o mundo que surge com aqueles cuja vida gira ao redor das brigas de galo de San Miguel del Milagro, e tantas outras localidades às quais Rulfo nos leva, ou que Rulfo inventa, nas quais passado e futuro se encontram em um presente existente apenas em seus livros.

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