Piglia resenha ou17

 

 

COUBE A NÓS A MISSÃO DE ASSISTIR AO CREPÚSCULO DA PIEDADE.

Dá uma história? A obra de Ricardo Piglia reflete a sua necessidade de busca de um procedimento para escrever, a captura do centro de uma obsessão secreta, seja em Adrogué, Buenos Aires, Mar Del Plata ou Nova York; a síntese entre teoria e prática literária. Daí surgiram seus livros e suas ideias. Os leitores como escritores secretos. O complô chamado literatura. Para Piglia, assim como para Borges, o escritor constrói sua genealogia, sua tradição. Parentescos, exclusões, conflitos. Nestes diários de Emilio Renzi - seu alter ego - não é diferente. O primeiro volume - Años de formación - abre com o escritor quando criança com um livro nas mãos, uma sombra se aproxima e avisa que o livro está de cabeça para baixo. Essa imagem voltará muitas vezes a ser lembrada nos diários. “Acho que deve ter sido Borges (…) quem a não ser o velho Borges faria essa advertência a uma criança de três anos?” O diário, para Piglia, é o grande laboratório do escritor. “Uma forma ampla e existencial”, como diz Witold Gombrowicz. “Uma pessoa que não escreve um diário não é capaz de valorizar corretamente um diário”, anotou Kafka. E esses diários de Emilio Renzi estão repletos de trechos de diários como o do próprio Kafka, o de Gombrowicz, mas, sobretudo com trechos e análises de O ofício de viver, diário de Cesare Pavese, escritor e combatente antifascista. Um diário leva o leitor a outro. Foi a leitura do Diário de Gide, por sua vez, que convenceu Gombrowicz a adotar a forma. A escrita dos diários é um complô secreto contra a literatura publicada, poderíamos pensar. Ser o observador de si mesmo e do tempo. “O calendário encarcera os dias e é provável que essa mania classificatória tenha influído na moral dos homens (…) Não há outra coisa que possa definir um diário, não é material autobiográfico, não é confissão íntima, não é nem ao menos o registro da vida de uma pessoa. O que o define, simplesmente, é que se ordene por dias da semana e pelos meses do ano.” Se alguém anota, por exemplo, Quinta-feira, 16 de novembro, é um diário. Não é um romance, não é um ensaio, mas pode incluir romances, contos e ensaios. Pode incluir sonhos e crítica literária. Pode incluir a história recente da Argentina e pode incluir o dia simples de um homem que acorda, lê, prepara o café, sente dores nas costas e volta a ler. Aqui há o primeiro amor: “Uma tarde voltei para casa tão golpeado, que minha mãe pensou que estava louco ou que havia pego uma febre suicida”. Aqui, há o simples ato de beber com os amigos: “Beber é uma atividade séria, sempre associada com a filosofia. Aquele que bebe tenta dissolver uma obsessão”. Aqui, há o leitor apaixonado: “Me dei conta de que Borges sempre foi um contista clássico, seus finais são fechados, explicam tudo com claridade; a sensação de estranheza não está na forma - sempre clara e nítida - nem nos finais sempre ordenados e precisos, mas na incrível densidade e heterogeneidade do material narrativo”. Há, claro, a escrita: “Colocarei uma frase de Borges no começo do meu livro Nome falso, mas vou atribui-la a Roberto Arlt: “Só se perde o que realmente não se teve.” A frase resume o que é para mim o “tema” central desse livro: as perdas”. Há o homem que fantasia em deixar tudo para trás e ser outro, como em Wakefield. E há muito mais: sessões triplas de cinema, amores que vêm e que vão, amigos que não se veem, enfim, há o fluxo da vida que ninguém pode parar. Os finais são forma de encontrar sentido na experiência. Na sua tese sobre o conto, Piglia afirma que o relato se dirige quase sempre a um interlocutor perplexo, que vai sendo enganado e termina perdido. O que compreende, na revelação final, é que a história que tentou decifrar é falsa e que há outra trama, “silenciosa e secreta, a ele destinada”. Para ele, os contos de Borges têm a estrutura de um oráculo. “Há alguém que está ali para receber um relato, mas até o final não compreende que aquela história é a sua e que ela define seu destino”. Nesses diários, estamos sempre acompanhando a vida de um escritor argentino chamado Emilio Renzi, mas no final percebemos que o relato era sobre nós mesmos e com o que fazemos com o nosso tempo. Uma história pode ser contada de inúmeras maneiras, mas sempre há esse movimento duplo, o que aparece e o que está oculto. Os diários de Emilio Renzi querem abarcar a vida toda, mas, escritos por um homem, deixam uma história secreta de fora. O bom leitor lê os dois diários. O bom leitor é um detetive. “Não me interessa o gênero policial, me interessa relatos em forma de investigação.” O detetive é um Ulisses moderno perdido em um labirinto querendo ler o mundo.

 

UM DIÁRIO DO ANO DA PESTE.

No terceiro e último volume dos diários, Un día en la vida, encontramos um Emilio Renzi doente, incapaz de se mover com liberdade, fechado em seu apartamento. Emilio cai, tenta se levantar. Sente muita dor. Cai novamente. O tempo de escrita dos cadernos se confunde com o seu próprio tempo de vida: “Há 20 anos que escrevo essa data (24 de novembro) nos meus cadernos. Eu poderia dizer que é essa a idade que tenho”. Os amigos o visitam para escutar sua versão de toda uma vida. É uma espécie de testamento que Piglia escreve já prevendo sua morte. É um acerto de contas com o passado, com a história. Como se a vida pudesse ser vista atrás de uma lente polida até a transparência, um objeto de cristal, invisível de tão puro, parecido ao que pudesse usar um narrador quando quer fixar na lembrança um detalhe do rio. Habitualmente, os narradores mais líricos e mais atentos à paisagem narram o rio, escreve Emilio Renzi. Zama, de Di Benedetto; El limonero real, de Saer; Sudeste, de Conti; La Ribera, de Wernicke; Hombre en la orilla, de Briante. Em Coração das trevas, enquanto espera que a maré suba, Marlow conta a sua história. Emilio Renzi sempre achou intrigante o modo irreal, mas muito matemático como dividimos e ordenamos os dias. Um diário, assim, seria uma prisão para a experiência, algo que impõe uma ordem cronológica ao que flui livremente. A anotação aparece em um momento que vai mudar a vida do país. Aqui temos Renzi e o Golpe Militar na Argentina, ele se indigna com a atitude geral achando que daí vem alguma espécie de ordem. A ordem é o desaparecimento. 30.000 argentinos estariam desaparecidos ao final do regime. Fantasmas dos nossos dias. Eu também não conheço outro sentimento que não seja a nostalgia, Renzi. Uma das características de um diário é que é escrito para ser lido no futuro. O diário de Emilio Renzi é essa garrafa jogada não no espaço, mas no tempo. O projeto embarca tantos anos, que o diário vai se dobrando sobre si mesmo, fazendo referências a fatos do passado como o episódio em que o jovem Renzi começou a ler para flertar com uma colega de classe. A lembrança do primeiro amor intimamente ligada à leitura. O narrador passa a traduzir cada vez mais episódios distantes. Os diários ganham a complexidade de uma vida. O trabalho incessante da memória. O efeito da falsa memória que a leitura traduz todos os dias. Um diário se escreve para dizer que não se pode escrever. A ditadura chega com a doença. “Tomo um comprimido para dormir. Os detalhes microscópicos do medo”, escreve se referindo ao barulho que faz o elevador do edifício onde vive. A preocupação constante com a segurança e a da família. Família, aliás, que ele define como “uma máquina de escrever ficção sobre si mesma”. A atividade social (produção de revistas, ensaios com os amigos para jornais, mesas redondas, palestras) praticamente se encerra com o golpe. Mas há o escritor e a sua imaginação. Procura definir de que maneira a ficção narra distintos âmbitos da vida literária, estuda a história dos escritores que os escritores inventam. Vai em uma feira de livros só para conhecer Juan Rulfo, lê Thomas Pynchon, escreve um livro “sobre o exílio e o fracasso”, escreve a obra-prima Respiração artificial. Os fantasmas sempre rondando. Obcecado com o diário de Cesare Pavese, pensa o suicídio e no suicídio. Adota um gato, rega as plantas, compra livros, vende livros, se desfaz da sua biblioteca. A felicidade das coisas simples. Um passeio. Escuta a conversa dos jovens na rua. “Para que escrevo um diário? Para fixar – ou reler – um desses dias de inesperada felicidade?” Começa a Guerra das Malvinas. O governo militar argentino leva o país a uma guerra contra a Inglaterra. ”A relação entre o suicídio e a escrita de um diário é íntima.” “O fracasso é a história secreta da minha vida, a história secreta das coisas, a história secreta dos personagens, a história secreta da Argentina e a história secreta da literatura. Um complô. Lemos o que Tolstói escreveu no seu próprio diário; “Escrever não é difícil, o difícil é não escrever”. Essa frase teria que ser, para Renzi, uma espécie de chave para a literatura contemporânea. Emilio Renzi, como um prisioneiro clandestino no tempo. A crítica literária é a mais afetada pela situação no país. Os melhores e mais influentes leitores, segundo Renzi, são historiadores. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado. A testemunha como sobrevivente de uma experiência extrema.“Chamem-me Ismael, sou o sobrevivente do Pequod, sou o caçador Gracchus, sou Malone.” Um Emilio Renzi velho em Nova York, que dá aulas em Princeton, observa os jovens com seus iPods, notebooks, headphones, cápsulas espaciais, crê Renzi. Alguém o recordou que o entardecer não existia como tema poético para os gregos. Todo o mérito para o amanhecer e suas múltiplas metáforas, a aurora, o despertar. Depois em Roma, com o declínio do império, Virgílio e seus amigos começaram a celebrar o ocaso, o crepúsculo, o fim do dia, escreve Renzi. A última entrada no diário: “O gênio é a invalidez”. Piglia, em Prisão perpétua, escreveu que narrar é transmitir à linguagem a paixão do que está por vir. Em 21 de outubro de algum ano, Kafka entregou seus diários a Milena. “Encontrou algo decisivo contra mim?”.

Quarta-feira, 4 de outubro de 2017.

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