FOTO: Janio Santos

Uma passagem retirada do conto Augusta guia a leitura de Anjo Noturno, de Sérgio Sant’Anna. Em um apartamento em Copacabana, Francisco observa a pintura, em tamanho real, de uma mulher nua retratada frontalmente. “Seu seio direito é magnífico e o esquerdo também, mas com uma perfuração sob ele, que se espraia, como se alguém houvesse revolvido aquela ferida.”

Augusta, a pintura, fora apunhalada pelo próprio criador, Carlos Rodrigues, um “realista anacrônico”, segundo a crítica especializada. Carlos, à época que partilhamos a admiração de Francisco por Augusta, já está morto. Lançou-se da janela do apartamento na Avenida Atlântica.

Na imagem do corpo/pintura apunhalado/a, na ferida de tela e tinta revolvida, permanece a pergunta: é possível rasgar o véu da representação e assim atingir a carne? As narrativas de Anjo noturno, assim como grande parte da obra de Sérgio Sant’Anna, jogam com os regimes significativos da linguagem, problema que as artes plásticas, menos os “realistas anacrônicos”, parecem ter resolvido. Se a própria palavra é signo que remete a algo “real”, seria possível apunhalar essa representação utilizando, para isso, a própria palavra? A mulher (pintada) esfaqueada remete a essa irresolução da condição da escrita de Sant´Anna. É nessa ferida, nesse espaço intersticial entre representação e consciência crítica da representação, que se instala a escrita de Sérgio Sant’Anna.

Não por acaso, artistas como Andy Warhol ou Balthus rondam os romances e contos do autor. Seja como em As meninas de Balthus (do livro O voo da madrugada) ou em Um conto límpido e obscuro (Anjo noturno) como tema central da narrativa, seja como no romance Crime delicado, trazendo à cena questões de ordem teórica, como a diluição das fronteiras entre espaço estético, cênico e espaço privado, biográfico.

A artista plástica brasileira Cristina Salgado, cuja obra já havia sido objeto de uma narrativa de tons ensaísticos em O voo da madrugada, reaparece em Um conto límpido e obscuro. Desta vez, personagem e artista se intercambiam; a personagem não nomeada aparece como autora das peças – reais – de Cristina Salgado. Por sua vez, o personagem masculino, igualmente sem nome, desliza entre o desejo pela mulher e o encantamento diante da produção da artista que aborda o feminino. Mulher e criadora assim se reduplicam diante do olhar do homem; “mulher dupla”, como a qualifica o narrador.

O espelho diante do espelho, a reduplicação contínua torna o espaço narrativo fechado, autônomo, enquanto coloca o leitor para fora da narrativa ao sinalizar a existência concreta de Cristina Salgado. Ou, ainda, possibilita ao leitor acostumado às teias de Sérgio Sant’Anna voltar à estante em busca de A mulher nua, conto do livro O voo da madrugada, e agora, lê-lo à luz da nova publicação, como em um jogo de peças móveis.

A investigação sobre a dobradiça representação real estende-se também pelas narrativas de teor memorialístico. Mãe, A rua e a casa, Amigos, O conto fracassado recuperam a infância e início da vida madura de Sant’Anna, ao explorar não apenas os registros familiares e a subjetividade do escritor-personagem, mas também reconstruindo, em detalhes, o cotidiano do Rio dos anos 1950 ou as vésperas do golpe militar de 1964. Sant’Anna adota nesses textos memorialísticos – “reais” ou “inventados”, mas sempre ficcionalizados – o papel de um observador distanciado dos acontecimentos. Em O conto fracassado, o uso da terceira pessoa produz, concomitantemente, a sensação de distanciamento e de cumplicidade, como se Sant’Anna-escritor instruísse diretamente o contista-personagem. “Durante a escrita do conto fracassado, a tentativa do contista de sair de si, de seu universo tão intimista, para tornar-se outro, mais duro, que em vez de mergulhar na subjetividade, retirasse das palavras ação.”

Nesse universo de duplicações, Talk show e Uma peça sem nome exploram, respectivamente, a linguagem televisiva e teatral, destacando o artifício, a encenação como única forma de aproximação com o outro. São textos que trazem o humor insólito do autor, diálogos e situações que beiram o kitsch, em uma aproximação exata com o sensacionalismo e os clichês.

Talk show, em especial, é uma narrativa necessária aos tempos atuais, quando a figura do escritor tomou proporções maiores que sua obra. Uma história que ri de si mesma, ri do status conferido ao escritor de literatura, ganhador de prêmios prestigiosos, mas que é obrigado a cumprir o ritual de exposição na mídia sendo entrevistado por uma apresentadora também ganhadora de um Jabuti pela sua autobiografia. No entanto, não seria Sérgio Sant’Anna, se o riso fosse mero reflexo cínico. Pelo contrário, interessa ao autor encontrar as brechas para o humano, para o contraditório, para a ferida revolvida sob a tinta.

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