resenha allan

 

 

Dona Cida! Licença!

Hoje quando meti meus chinelos e fui comprar abóbora e quiabo (que a senhora me ensinou a escolher, pelo talinho), quando ouvi o megafone da Variant vermelha do Tomás Parrudo passando arriada de frutas e legumes, larguei o livro que tinha terminado justo naquela hora. Tava eu paquerando o céu, as pipas e sabiás daqui da beira do córrego, tocado na barriga pela leitura.

Na rua, te encontrei e desci com a tua sacolona pesada, foi um prazer. Ontem perdemos a feira, aquela onde eu te vendia bananas quando era gurizinho, lembra? Carreguei a compra até à tua morada, sempre a mais arrumadinha da quebrada. Na função, já encontrei o seu Messias tratando os passarinhos, versando sobre a personalidade do pintangol, do canário-do-reino, do coleirinha. Consegui evitar comentar sobre o cárcere, a senhora percebeu na minha goela descendo seca, e fiquei bem. Observava o seu Messias limpando alpiste, cortando jiló e prendendo com palha de bambu na gaiola, pondo o coleirinha pra respingar em quem passa na paisagem da viela quando balança suas penas na banheira de pote de margarina. Teu companheiro tanto me deixou passar por baixo da catraca quando era cobrador da CMTC que hoje sempre estranho não lhe ver com camisa azul clara de botão. Aí eu golei quatro xicrinhas de teu café, dona Cida, sentado na beliche da tua netaiada e puxando conversa sobre o espanto e sobre o segredo, porque também foram temas que quero desenrolar um teco na linha sobre esse livro. Ouvia o seu Messias mais falar do espanto, a senhora dizendo sobre segredo e percebi cada um não querendo aprofundar nem cortar o assunto do outro. Imaginei o Muniz Sodré, autor do livro, no barraco em prosa com vocês e eu ouvindo entre a fumaça doce.

Agora ainda sinto o café nas veias da fronte e das mãos que arrumaram minha havaianas fajuta que estourou na calçada esburacada. E a senhora ainda com a rádio A/M acompanhando o assovio do pintangol. Sabe aquele programa de rádio que eu transmitia aos sábados de tarde, o das entrevistas com escritoras e poetas? Tem um com esse escritor aqui. Rádio pra mim é a maior fronteira acesa e voada entre palavra falada e escrita.

Trouxe o livro pra senhora ver. Me pôs mesmo pra pensar também sobre caminhar em jogo com o destino, sobre nossa resistência criativa, preta. Sobre o estilo em cada entalhe do dia, seja no prato ou no beiral da janela, no cumprimento ou na festa, em cada vez que a gente entra na roda. O livro é esse aqui, A lei do Santo. O autor é professor e escreveu outros sobre quais inteligências, giros e que jeitos de gerar no chão espinhoso o nosso povo desenrolou aqui nesse país que às vezes é uma draga consentida e que exibe a forca como se fosse uma medalha. Que de colorido prefere nosso sangue e nossas flores, essas que parecem sempre de prontidão pra um funeral.

Lendo outros livros do Muniz Sodré eu já flutuava, dona Cida. Mas firme no chão como um abacateiro. Ele ensinou sobre a soberania e o pé no chão dos nossos mestres, gêmeos de espírito dos monges e guerreiros do oriente. Entrelaçou o Axé e o Zen. Karateca há muitas décadas, ele foi aluno de Mestre Bimba também, aliás ele escreveu uma biografia do pai da capoeira regional, a Corpo de Mandinga, que é das mais cristalinas e porretas que já li.

Nas obras de teoria, quando ele não tá apresentando contos mas tá surfando e ao mesmo tempo sendo o mar da nossa cultura, viajando a mente na política do negro no Brasil de baixo pra cima, bebi o mel da nossa filosofia, a que a senhora cultiva um pouquinho todo dia na beirada da janela, a que rega no terreiro, a que mantém a linha colorida encaminhando as crianças, os coroas e muitos daqui faz tempo. Pelo baile da escrita, na entrevista lhe perguntei se uma letra cabulosa como a dele pode ser Axé, mesmo sendo no papel e sem saliva nem hálito. Palavra deitada, como dizem os guarani.

Dona Cida, compreendi tanto mais sobre dançar nas frestas pra ir laceando os cantinhos. Sobre os vãos na história da cidade e nos desejos e espelhos trincados da sociedade, aquelas frinchas que volta e meia a gente percebe numa festa, numa surpresa repentina ou no encanto de uma obra de arte que chacoalha dentro e arde a vista. Essas frestas que desde a época da escravidão as mandingas e nossas coletividades iluminam por necessidade e por gosto de viver. A senhora manja disso, é mestra do verbo, planta no silêncio entre uma frase e um respiro. Tem que ver: ele despetala carninha por carninha dessa flor nuns livros emocionantes mas bem espessos chamados A verdade seduzida e O terreiro e a cidade. Mas eita enigma: ele despetala a ideia como uma flor, mas deixa ela ainda mais forte e aprumada, tanto mais macia quanto mais maciça, conforme vai mostrando a seiva do que são os fundamentos ancestrais de território e de espaço, de estilo e de jogo, de luta e de educação. A flor da ideia cheirando cor de esperança. Ele, escrevendo como um amante dedicado a perguntar com os lábios e a se prazeirar com o suspiro e o êxtase do seu amor se arrepiando e serpenteando, decifra cada tequinho, cada textura, cada vapor do corpo dessa cultura negra, sabido que é o conjunto do corpo, das unhas do pé até à nuca, o que amado chega a resvalar no infinito, nos gestos que não cabem num século, nem em dois e nem em dez, e que mora no sem-tempo vivido em cada noite e também em cada roda, em cada ebó, em cada gunga, em cada gameleira benzida. Como é joia isso, dona Cida. Quando o corpo arriado e calejado em receber pancada e vista de sanguessuga é coroado em se tocar reinando. Percebe como é refinado, sem marra. Sofisticado, sem frescura. Se não fosse isso a gente tava escangalhado até hoje na corrente enferrujada, sim? Essa poesia vivida no ritual mas também no pingos do cotidiano, às vezes rude, às vezes graciosa e singela e noutras horas raivosa, mas sempre balançando como uma marcação do surdo de segunda, entre o sublime e o chamado pro enfrentamento. Ele sabe mostrar isso. Esse saber é de louvar. Tem muito estudo pra parecer simples, nítido, de beber em conchinha da mão.

E nesse livro aqui de contos, o Muniz Sodré conta histórias sem escancarar nem arregaçar fundamentos, sem dar sermão, esse que cansa em uma penca das artes que se colocam como militantes, sabe? Aqui as minúcias latejam nas sugestões e na teia. Ele é aranha, dona Cida. É jogador de xadrez que gosta de um xeque-mate sem alarde. Às vezes, até exibe o fundamento, noutras diz que há, mas não mostra onde. E ainda tem as que ele ressalta o que já colocou antes pequenino na história só pra mostrar que sem atenção não percebemos os arrombos e os clarões que a vida acontecendo em volta revela. Mais de uma vez vêm personagens que não botam fé no saber das negras velhas, das crianças ligeiras, dos que brincam. Ele gosta de mostrar os que cheios de exclamação tomam rasteiras do contraditório de cada momento, esse espírito próprio das encruzilhadas que são mistérios e que também são tão nítidos. O escritor apresenta uma pá de personagens que desacreditam do trato com o destino e insistem em crer só numa linha reta pra frente, martelar seus pés sempre na mesma casa do tabuleiro que gira, lhes envolve, desliza e não dá trela. Nas histórias é muita lição. Seja com a mordida de um magrelo no peito musculoso de um ladrão mandada por um ancestral casca-grossa, seja num despejo iminente cancelado por causa de uma obrigação de ajeum pros ibejis, seja com um imigrante japonês ajoelhando pra agradecer um feixe de chuva que só molha a sua horta e deixa seca a plantação de um patrício pilantra; seja com um advogado que não atenta às diferenças entre a lei do fórum e a lei do santo, não compreende as razões da sua cliente silenciar o nome do patrão processado... Em vários lances, o livro sorri ladino pros enigmas, esses que nossas palavras conseguem entrar até o quintal e até mesmo farejar e mexer a panela na cozinha, mas onde nem sempre se pode se estirar no quarto.

Dona Cida, ele sempre mostra o miolo mais miudinho e mais vasto das grandes dúvidas do viver como algo encarnado numa matéria, num corpo, num bicho, num instrumento. Considera e resguarda a verdade do que tenha eletricidade, do que seja de pegar, do que pesa, do que tem calor e nunca é estático, como até a tinta numa parede. Na carne do mundo, a ponte com os mundos.

Eu lia esses personagens espantados e pensava nas ladeiras avariadas aqui do Jabaquara, na noite aqui em Diadema, no passo da cangaia curva, mas em riste pra peleja em Minas Gerais, nas praias daqui do Rio até Cuba. Cada vez que alguém nos contos se depara com o espanto, reage diferente: uns se subordinam ao destino, e aí nesse mapa se abrindo traçam seus passos autônomos, jogam; outros se aliam ao que se mostrou força maior e rendem devoção e compreensão; ainda outros, trancando cadeado nas veias, sem se abrir querem permanecer inalterados mesmo tomando as lapadas. O texto é de parágrafos, mas, às vezes, parece uma chula cantada, dona Cida Uma quadrinha de Aruanda, um versado balanceiro mesmo em contação de uma prosa em páginas. Aquele papo que oralidade colocada no papel é muito mais que catar e espalhar vocabulário da praça, sabe? No jeito dele entrançar as frases, retomar de um ponto o passo como quem vai em espiral em torno do mesmo tronco mas vai longe, no uso da primeira pessoa contando com um “eu” o caso sério, frisando que é de dentro pra fora que tá se falando o que se testemunhou ou o que se ouviu de quem ouviu sobre um tombo e o gemido de quem levantou, sobre uma porta rangendo e o desenho da mão de quem abriu a tramela. É isso, esse escritor tem um traquejo de contar ritmado que faz a história serena, elegante, feita melodia raiada entre batidas de marcação, dona Cida. E ele explicou o que é síncope, a admiração que ele tem por essa vaga entre as notas e na harmonia das canções dos batuques. Até anotei pra senhora: “Allan, o corpo se apresenta na letra, é o caso da síncopa. E Exu é o pai do corpo. O dono do corpo. Exu é o principio da individuação, é quem transporta a fala. É o orixá da comunicação, da língua, do discurso. E cada um tem seu Exu. E acho que esse tempo que falta aí é Exu, que tá sempre faltando no culto... e ‘faltando’ quer dizer que não tá ali presente mas tá suspenso, tá ali abrindo espaços”.

Se Muniz Sodré evita o sarcasmo, é da fonte de Exu que percebo como ele afina sua ironia cada sílaba do livro. Ele ensina que o sarcasmo é da boca que agride, mas ironia, se é desenhada na lábia, é colorida mesmo na orelha de quem lê. Ironia tão própria da presença negra aqui chegada, plantada e frutificada. Ironia chacoalhando o entendimento ao mesmo tempo que o instiga. Como um mestre que é pedagogo não por ensinar, mas por abrir condições de aprendizado. Assim ele me disse no papo pro rádio, assim concebi na leitura gostosa. E se Exu é maestro, esse Muniz Sodré é dos seus regentes formados. Ele que é Obá Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, que é encantado em estudar como os tons da língua ioruba têm valor no significado do dizer e nos sentidos que podem virar do avesso a mesma frase. Que é daquela linha entre a sombra e o sol.

Quero que a senhora leia, tá aqui. Fica com este beijo em tuas mãos.

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