Adriana Calcanhoto.Leo Aversa

 

"Este é um agrupamento de poemas armado por uma leitora de poesia diletante, não acadêmica ou crítica, que decidiu, em vez de levar nas férias de verão mais de quarenta livros de poesia contemporânea brasileira, levar um só. A reunião dos poetas sabe-se incompleta e é totalmente pessoal, intransferível, autoral, ou o contrário".

O trecho acima abre a apresentação de É agora como nunca – antologia incompleta de poesia contemporânea brasileira, organizada por Adriana Calcanhotto e editada pela Companhia das Letras. O excerto foi escrito pela artista, que reuniu 41 poetas na obra que será lançada dia 19 de fevereiro.

Apesar de ser uma reunião, a meu ver, com problemas significativos, é preciso reconhecer que sua publicação no atual contexto nos permite entender que alguns pontos positivos nos fazem vê-la com bons olhos. Esses pontos positivos são delineados pelo contexto em que a obra será publicada.

É agora como nunca tem a vantagem de apresentar nomes ainda pouco conhecidos ao lado dos que já têm a atenção do leitor de poesia. As aspas citadas mais acima parecem ter a intenção de justificar o fato de que a produção desses artistas não é a que melhor expressa a força de seus trabalhos. Um exemplo significativo é o caso de Angélica Freitas, cuja poesia política, tão potente, ficou de fora da seleta (recomenda-se da autora Um útero é do tamanho de um punho). Também nesse bojo ficam, por exemplo, Lívia Natália, Marília Garcia e Ana Martins Marques – não dá para ter qualquer ideia da obra delas a partir da seleção. As escolhas dos poemas foram pouco representativas.

Apesar de poetas como Bianca Lafroy, Alice Sant’anna, Laura Liuzzi ou Ismar Tirelli Neto estarem com boas amostras no livro, eles são exceção. A falta de poemas representativos, que acomete a maioria dos poetas escolhidos para a antologia, leva a entender que a intenção de É agora como nunca é mais próxima do comercial que do artístico: usar o nome de uma artista consagrada para atrair leitores/compradores. A proposta é ser um mergulho no “livro de férias” da antologista. Uma obra que poderia servir como introdução à poesia brasileira a um curioso limita-se a uma “encenação da intimidade”, pois parece mais um convite a adentrar no “mundo de Calcanhotto” do que ter contato com a produção poética contemporânea.

O curto texto da artista, intitulado “Dentro do agora”, é questionável desde o título. Qual o agora de Calcanhotto? Vivemos em um país em crise geral social, econômica, política. Produções com esses temas entraram de forma pontual em É agora como nunca. Ficaram de fora outras de reconhecida força e que um leitor diletante de poesia (ela afirma sê-lo na apresentação) certamente conhece, como as de Ricardo Domeneck ou Conceição Evaristo.

Frases como “depois do fim das vanguardas, ‘ficou ainda mais difícil’ escrever poesia”, soltas no texto sem grandes explicações, dão essa falsa ideia de uma conversa íntima em que, na urgência do momento, pouco se questiona do ponto de vista de quem fala. A poesia brasileira recente (anos 1980 em diante) é entendida pela ótica da pluralidade pacífica, em que coexistem diferentes propostas poéticas. Não existem mais as propostas estéticas unificadoras, o senso de coletividade das vanguardas. Mas isso conduz à conclusão de que está mais difícil escrever poesia? A afirmação é tão vaga que ainda permite questionar qual a noção de "escrever" ali posta: é o ato de escrever em si ou o termo ali envolve a publicação e circulação das obras? Calcanhotto não responde.

Outra incógnita: qual o critério que norteia a ordem dos poetas? Excetuando a abertura – um poema de Ana Martins Marques sobre a beleza de uma reunião de poemas – e o fechamento do livro (Laura Liuzzi em poema que fala sobre como chegar à última página não é chegar ao fim, sobre formas de continuar), cujas escolhas são evidentes, parece não haver um fio narrativo que conduza a organização do miolo.

É difícil não cobrar “pés-no-chão” de uma antologista de nome expressivo que organiza livro para a maior editora do país. Qual a conexão que esse lançamento tem com o real? Em uma realidade tão urgente como a nossa, cobrar certas preocupações – como a de apresentar bem a obra de alguns artistas e trazer temas que nos levem a pensar a sociedade – é pertinente. Assumir a condição de incompletude não livra ninguém dessas questões. Porque publicar obedece lógica semelhante a do falar em público: existe um risco em proferir algo a uma coletividade, porque a pessoa se expõe a críticas. O cuidado de assumir algumas falhas não a isenta de problematizações, já que, de forma geral, uma fala pública é a proposição de ideias, de um olhar. E ideias devem ser questionadas, como forma de testar sua pertinência. Com uma publicação, seja ela literária, jornalística (o que inclui esse texto) ou de outra natureza, ocorre o mesmo.

Outro ponto: a Companhia das Letras tem nomes expressivos em seu casting de poetas – José Almino, Paulo Henriques Britto, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Eucanaã Ferraz e outros. Obras cuja divulgação hoje parece passar em brancas nuvens. Para ilustrar, cito o exemplo da Bienal de Pernambuco. Quando Ana Martins Marques veio conversar com o público, em 2015, a editora sequer havia enviado unidade de O livro das semelhanças para venda no evento. Um cuidado básico. Enquanto isso, volumes de O grifo de Abdera, de Lourenço Mutarelli, da mesma editora, chegaram aos montes.

Apesar de ser um corpo de autores bastante limitado, com maioria absoluta de brancos do eixo Sul-Sudeste, está na linha de frente que nos ajuda a pensar a produção contemporânea. Isso graças a diversos fatores: continuam produzindo, pesquisando e têm influência artística e intelectual nas produções dos mais jovens.

A ausência dos nomes citados mais acima em É agora como nunca reforça a precariedade da noção de contemporâneo da antologista. No texto de apresentação, ela diz que o livro pretende ser "um instantâneo da poesia brasileira agora, em volume único para viagem. 'Agora' quer dizer este momento, aqui mesmo, enquanto mal traço estas linhas e novos poetas estão surgindo em catadupas, produzindo e publicando em sites, blogues, revistas eletrônicas, recitais, saraus e até mesmo em livros".

Limitar a poesia contemporânea a autores jovens ou que estão começando a publicar é uma ideia falaciosa que indica certo deslumbre com a ideia do novo. Aqui vale repetir: um mea culpa sobre despreocupações críticas e incompletudes não isenta o trabalho de questionamentos.

Diante disso, qual o sentido em investir em mais uma obra de poesia se o grosso do catálogo permanece na mais sonora obscuridade? A pergunta só reforça a aura comercial de É agora como nunca.

É preciso lembrar que o contexto brasileiro de aderência à leitura é sabidamente agreste. Mas, em 2014, a surpreendente venda de 90 mil exemplares do Toda Poesia, de Paulo Leminski, deu novo frescor à publicação de poesia nas grandes editoras. A ele se seguiu outro sucesso de vendas, o Poética, de Ana Cristina César. A Cosac Naify publicou muitos títulos dentro da ótima coleção “Ás de colete”. Nesse cenário, outros atores importam: publicações online, como a Modo de Usar e o Escamandro, que se dedicam a publicar/olhar/traduzir/pensar poesia; editoras menores, como a Luna Parque, vêm fazendo um trabalho hercúleo de lançamento de bons títulos a preços acessíveis; a veterana 7 Letras continua publicando de forma firme.

Ainda que haja alguns números favoráveis e vejamos a disposição de poetas, editores e outros atores do mercado editorial em publicar (a maioria, iniciativas não-hegemônicas), não se trata de um trabalho que conta com ventos favoráveis. Então, mais uma obra de poesia no mercado, vinda de uma grande editora, capitaneada por uma artista de renome, termina sendo de alguma forma benéfica. Um outro meio de chamar a atenção para a produção poética do país.

Torço para que o cenário mude em curto prazo. Para que, daqui a algum tempo, não se comente apenas o ato de se lançar um livro de poesia como uma benesse por si, mas que possamos elevar nossos critérios, questionar a forma como certas obras são lançadas sem nos preocuparmos tanto com qualquer tipo de fator extraliterário. Enquanto essa época não chega, vivamos o presente; e, nele, É agora como nunca, com todos os seus problemas, pode ser vista como algo positivo.

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