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É fácil reduzir a importância da poesia de Noémia de Sousa (1926–2002) ao papel histórico que ela teve em Moçambique. Produziu, entre os anos 1940 e 1950, uma série de poemas politicamente engajados com o fim da opressão do povo negro e, por tabela, com a independência de Portugal. Somente em 2001, quando a autora finalmente cedeu, essa obra foi reunida em livro: Sangue negro, volume só agora lançado no Brasil pela editora Kapulana.

Na edição brasileira, os ensaios e depoimentos de escritores como Mia Couto, Luís Carlos Patraquim, Ungulani Ba Ka Khosa mostram como Noémia de Sousa influenciou gerações de artistas africanos – a ela foi atribuída a alcunha de “mãe dos poetas de Moçambique”. Foi a primeira mulher a publicar poesia naquele país.
Mas há um peso político relevante em lançar no Brasil uma autora que pauta, principalmente, o fim das opressões raciais. É ir contra o sistema das editoras hegemônicas, que publicam poucos autores negros; é também investir em uma produção que traz tema ainda delicado em um país clivado por racismo estrutural. Mais que um registro histórico e literário, Sangue negro nos leva a refletir alguns pontos sobre o que vivemos hoje.

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Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polêmica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss

O caso do continente africano é sui generis: quase todas as seitas satânicas, de vodu, são oriundas de lá. Essas doenças, como a Aids, são todas provenientes da África

(Duas declarações extraídas da conta no Twitter do deputado Marco Feliciano [PSC-SP], de 2011)

 

É uma coisa que não dá para entender: era pobre, macaca–pobre, pobre, mas pobre mesmo...

(De Marcos Ribeiro de Moraes, o “Marcão do Povo”, sobre a cantora Ludmilla, em programa ao vivo no último 9 de janeiro).

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Em Sangue negro, a construção poética nos faz observar a pessoa negra enquanto célula de um grupo oprimido e passar a sentir – ainda que parcamente – o que é uma existência que é forçada à ideia de inferioridade desde antes do nascimento. A célula é sempre vista em função do todo. O coletivo é o principal norte da identidade do indivíduo.

Noémia explora essas dimensões de diversas formas. No belo e pungente Deixa ir meu povo, o eu poético ouve vozes vindas da América: são os spirituals, os cantos das igrejas protestantes das comunidades negras nos subúrbios das metrópoles norte-americanas. A música, ela mesma militante, leva o pensamento do eu poético para seus pares e para o exercício da arte – Escrevo... / Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. / Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado / e revoltas, dores, humilhações, / tatuando de negro o virgem papel branco. / E Paulo, que não conheço, / mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique (..) / E Zé – meu irmão – e Saúl, / e tu, Amigo de doce olhar azul (...)/ Todos se vêm debruçar no meu ombro, / enquanto escrevo, noite adiante.

A defesa da unidade entre pessoas negras não excluía pessoas brancas. Nos poemas, ela expressou essa ideia de fraternidade entre uns e outros. Além disso, o grande “irmão” político da poeta foi João Mendes, branco de olhos azuis, a quem boa parte dos poemas de Sangue negro é dedicada.

No longo Poema da infância distante, ela parte de seu próprio nascimento para pensar a opressão. Naquele dia, o sol brilhava bonito; logo depois, não brilhou mais: veio a consciência do estigma social cravado na pele negra e no povo moçambicano, dominado pelos portugueses. Ela passa, no poema, a buscar a ideia de coletividade, de grupo, nos amigos de infância: Se hoje o sol não brilha como no dia / em que nasci, na grande casa, / à beira do Índico, / não me deixo adormecer na escuridão. / Meus companheiros me são seguros guias / na minha rota através da vida. / Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita / escrita a negro no dicionário da estante / mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante / são tão diferentes.

Os versos acima dão a entender que a artista se confundia com o eu poético. A ideia de encenação existe apenas no tocante à estética ritmada, como se sua poesia devesse ser falada ou inscrita em uma performance para causar maior impacto na audiência. São vários os poemas que, como este, seguem ritmados, quase ao som de tambores: Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara / sobre o branco egoísmo dos homens / sobre a indiferença assassina de todos. / Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão / nossa voz ardente como o sol das malangas / nossa voz atabaque chamando / nossa voz lança de Maguiguana / nossa voz, irmão, / nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade / e revolucionou-a / arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

Por esse desejo de se alastrar, é uma arte a serviço de um ideal coletivo. Para isso, deve ser acessível. Existe a recusa expressa em tratar de temas individuais, vistos como algo inferior: E a minha dor, / que é a minha dor egoísta e vazia / comparada aos sofrimentos seculares / de irmãos aos milhares? / Bem sei que as minhas frouxas lágrimas / nem o mais humilde poema valeriam... O trabalho de Noémia de Sousa não é o de alguém afeito a ginásticas conceituais ou acadêmicas, imparciais ou descomprometidas.

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A publicação de Sangue negro no país faz coro ao esforço diário de escritoras e escritores negros para tomar a frente da história que envolve seu presente à ancestralidade. Dados reunidos no livro Literatura Brasileira Contemporânea — Um território contestado, de Regina Dalcastagnè, mostram que pessoas negras são apenas 7,9% das personagens. São apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. São constantemente representados como bandidos ou contraventores (20,4%), empregados(as) domésticos(as) (12,2%) ou escravos (9,2%). Em contraponto, pessoas brancas são, em geral, donas de casa (9,8%), artistas (8,5%) ou escritores (6,9%).

Na ficção, a maioria das pessoas brancas morre por acidente ou doença (60,7%). Pessoas negras morrem mais por assassinato (61,1%).

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Negro de merda! Sai daqui, ladrão!

(De 2015, uma mulher não identificada xinga senegaleses em Curitiba. Após gritar a frase acima, ela atira bananas a eles)

 

Depois que você terminar de ler este texto e tomar um cafezinho, um jovem negro terá sido morto no Brasil. É este o país que salta do relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, que será divulgado esta semana em Brasília: todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos.

(Notícia do site BBC Brasil, junho de 2016)

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Em Sangue negro, não há exortação à violência, mas transmite-se a ideia de revolta. E tu bates-me, patrão meu! / Bates-me... / E o sangue alastra, e há de ser mar... / Patrão, cuidado, / que um mar de sangue pode afogar / tudo... até a ti, meu patrão! / Até a ti... Mas seu trabalho, dividido entre a esperança e o desespero, ainda opta por um humanismo que visa acolher o oprimido em sua raiva. Os dias da poeta são preenchidos pela ânsia desmedida que nunca me abandonou / de transformar o teu olhar, irmão, / torná-lo uma realidade brilhante de alegria, / e, principalmente sem raiva, sem raiva!.

Não advogam pela violência, mas a ideia de revolta nos faz pensar nos limites e na legitimidade do que seria uma manifestação pacífica e outra violenta. Principalmente em um país no qual os mais significativos processos de ruptura política ocorreram por meio de “acordos de cavalheiros”: proclamação da independência, da república, fim da ditadura. Momentos historicamente violentos ou foram rechaçados, como as manifestações do Período Regencial (1831–1840), ou foram camuflados, como na ditadura militar.

Diante dos dados da CPI do Senado, é possível entender o motivo que levou Abdias Nascimento a chamar seu clássico ensaio de O genocídio do negro brasileiro. E não só à morte violenta que essa população está submetida: Nascimento trata, na obra, da falsa ideia freyriana de democracia racial; do “branqueamento cultural”; da ausência forçada de discussões sobre raça. É um genocídio plural.

A partir de uma violência tão forte, como olhar a ideia de revolta?

Em artigo recente na London Review of Books, o editor Adam Shatz tece longas considerações sobre a obra de Frantz Fanon, cujos escritos são fundamentais aos estudos pós-colonialistas, com suas ideias sobre as contradições do sistema colonial e os problemas da relação entre colonizado e colonizador. Shatz lembra que Fanon não era um pacifista, mas que a ênfase dada por intérpretes nas suas ideias sobre violência obscureceu o humanismo de seu trabalho. “Violência nunca foi o remédio de Fanon para o Terceiro Mundo; era um rito de passagem para as comunidades colonizadas e indivíduos que tinham se tornado mentalmente doentes, na visão dele, como resultado de um projeto colonial saturado de violência e racismo”, pondera o editor. Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon pontua que o racismo era o operador psicológico do sistema colonial: é racista tanto quem discrimina quanto os que são cúmplices desse processo.

Independentemente da legitimidade da violência, os argumentos de Fanon apontam para um entendimento dela como ferramenta de libertação – e, talvez, a melhor síntese disso seja a frase do poeta abolicionista brasileiro Luís Gama: ao matar seu senhor, o escravo agia em legítima defesa.

Apesar de poder nos levar à digressão sobre violência e revolta, e de como podemos reagir a isso, a poesia de Noémia de Sousa, mesmo quando deixa entrever alguma chance de pensar que incita a violência, mostra sua vontade militante mais pelo esforço para incitar a solidariedade: Ai, abri-nos a porta, / abri-a depressa, companheiros, / que cá fora andam o medo, o frio, a fome [...] / Somos um exército inteiro, / todo um exército numeroso, / a pedir-vos compreensão, companheiros! [...] / Ai, companheiros, / abandonai por momentos a mansidão / estagnada do vosso comodismo ordeiro / e vinde!

É por meio de um humanismo assertivo que a leitura de sua poesia incita a revolta ao racismo estrutural das sociedades.

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