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O ator Chico Diaz na peça A lua vem da Ásia, baseada no livro de Campos de Carvalho (foto: Samuel Maciel/PMPA)

 

 

É difícil estipular limite entre imaginação e realidade em A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho (1916-1998), recentemente republicado pela Autêntica. Protagonizado por um homem que é, na verdade, “uma legião de criaturas como o louco do Evangelho”, o livro tem base nas aventuras cotidianas desse sujeito– que parece estar em um sanatório (que chama de “campo de concentração”). Ele chega a se dizer Astrogildo, mas reconhece que o nome é passageiro e que tem o costume de se rebatizar da forma como lhe convém, a depender do momento.

Com 60 anos de existência, A lua vem da Ásia se mantém com pé firme no presente por dois motivos: primeiro, por ser uma prosa acessível e cômica, que deixa entrever habilidade na construção de um texto, além de certa erudição, dadas as referências soltas pelo autor na obra; segundo, por tratar de temas que ainda hoje reverberam na nossa sociedade – em especial, a mediocridade da vida comum que vivemos aos milhares, com nossas torpezas e inconsciências, descaminhos, quando o corpo se torna sinônimo de cadáver.

Homem temente a Deus, mas capaz de toda sorte de crimes; uma vida (imaginária ou real, não se sabe) calcada em um acúmulo e perda de riquezas que ocorrem de forma rápida; dado a confusões; fundador de um partido anarquista. É um corpo que, diz, já passou e ainda passa por várias cidades, países e identidades. Em meio a isso tudo, reflexões: e, assim, com todas essas farsas e quase tragédias, felizmente sem maiores consequências, vão escoando-se as horas e os dias neste vale de lágrimas que, para nós é a derradeira das provações; “(...) tendes intestinos, e, na ponta desses intestinos, um lamentável cu, exatamente igual ao que têm vosso açougueiro (...). Vosso cu é a melhor arma que tendes para afugentar os maus pensamentos, que são aqueles que vos afastam da simplicidade humana e da humana aceitação da vida”.

Ao que indica a leitura, Campos de Carvalho escolheu um louco – o arquétipo do insano que também é o sábio – para tecer uma crítica à falta de reflexividade sobre nós mesmos e a coletividade na vida contemporânea. Há alguns flertes com o contexto político da época (quando o protagonista se envolve com o que parece ser a Intentona Comunista), mas sempre ou a serviço dessa reflexão ontológica, ou como crítica-satélite em relação às ponderações humanísticas - (...) chamando-se os Estados Unidos a capital de todas as merdas, como eles de fato o são.

Dentre essas reflexões coletivas, destaco o momento em que o protagonista lembra que, nesses tempos (o do narrador), um homem vivo nada vale: o livro foi escrito em 1956, mas continua pertinente em tempos de PEC 55 e afins. É a mesma sensação que temos ao ler Lima Barreto, por exemplo; autores que nos fazem pensar sobre o que realmente mudou no país ao longo das décadas.

A noite enluarada surge como o ambiente perfeito, belo e poético, ainda que distante. É um cenário parecido com o de parábolas budistas.Por esses motivos, sou levado a crer que o protagonista parece dialogar com o autor, que sempre se disse um clown, o sábio palhaço. Como se dissesse “prefiro ser pleno a ser bom”, como Jung certa vez proferiu.

A abundância de referências históricas – sempre para designar pessoas do presente – indica essa pretensão a uma reflexão universalizante sobre questões do que é ser humano. É por isso que a colocação que abre esse texto faz sentido apenas como constatação: é difícil estipular os limites entre imaginário e real em A lua vem da Ásia. Porque não importa, na verdade; o livro ganha por nos levar para as vivências desse Astrogildo ou Adilson ou Ruy Barbo, e encontrarmos algo de nós mesmos ali.

Vale ainda registrar o necessário resgate que a Autêntica realiza da obra de Campos de Carvalho – a editora lançará outros 4 livros do autor ou sobre ele. 

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