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Diz uma frase atribuída a Max Weber: “neutro é aquele que já se decidiu pelo mais forte”. Das leituras possíveis de O homem sem doença (Rádio Londres), do holandês Arnon Grunberg, essa é uma das mais evidentes. A trama é relativamente simples: um arquiteto chamado Samarendra, filho de indiano, mas nascido e criado na Suíça, é chamado para um projeto no Oriente Médio. Lá, se vê em meio a terroristas, sempre em situações permeadas pelo absurdo. Ao longo da obra, sempre proclama o seu lugar de fala: um arquiteto cuja crença é focada na estética e na neutralidade política.

É evidente que no centro dessa trama temos um corpo sempre em trânsito geográfico (e as viagens são muito importantes na história) clivado pelos choques de identidade que permeiam o presente. Sam – eis o apelido ocidentalizado - é constantemente confundido com indianos e começa a jogar o jogo da aceitação: uma namorada “civilizada”, limpa e com aparência nativa; torna-se feliz quando consegue socializar com pessoas em eventos; a busca pela legitimidade profissional; a constante negação das próprias raízes - ele enxerga indianos em situação subalternizada como inferiores, a certa altura. Sempre procura ser aceito negando muito de si mesmo.

A certa hora, Sam, em Dubai, segue dirigindo pela rua e quase atropela um pedestre, “mas pedestres estão mesmo fora de lugar em Dubai”. O livro fala sobre como a absorção de clichês nos transforma em medianos e como isso nos impede de exercer a alteridade.

Grunberg constrói uma narrativa kafkiana; Sam é, obviamente, um sujeito estranho e talvez seja essa estranheza que o leva a aceitar passiva e servilmente situações absurdas nas quais a neutralidade que nós, comuns, proclamamos no dia a dia, não faz qualquer sentido. Em situações extremas, os clichês são incapazes de nos salvar. É possível dizer que o autor usa um forte choque para mostrar como a ausência de questionamento perde sentido na época em que vivemos: por uma situação extrema e limite, ele expõe como precisamos ter noção de que a nossa época demanda posicionamento político nas pequenas coisas do cotidiano.

Sam se esforça pela diplomacia na sua vida social e o livro mostra como ela é inútil (pelo menos para ele). A mesma ideia é transposta na figura de dois diplomatas, que poderiam tranquilamente ser personagens de um livro de George Orwell. O autor lança mão dessas construções metafóricas duplas durante todo o livro: a irmã do protagonista e o teatro de ópera que ele deve construir no Oriente - que é o lugar onde Sam encontra o estranho e o extremo; o nariz deformado que deseja dizer algo, como o próprio Sam; a repetição de traumas que são, ao mesmo tempo, tragédia e farsa.

A história é construída com imagens que se desenrolam de forma clara, como em um filme. Isso torna a leitura ainda mais fluida. Grunberg narra cenas de tragédia com uma estrutura de comédia, criando cenários irônicos e absurdos. É possível enxergar nesse recurso algo do cinema neorrealista italiano, em filmes de Rossellini ou de De Sica, em que o drama é erigido como cômico, criando uma ambiguidade que pode nos deixar pasmos diante de algo “surreal”.

O final é inexorável, mas deixa margem a ambiguidades. Talvez a principal ideia que fique do livro seja a de que existir é, essencialmente, um teste de amor e inteligência. Precisamos nos esforçar nas mínimas coisas para nos darmos bem - seja lá o que isso signifique.

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