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Uma mulher deprimida, suicida, rancorosa, frígida e um tanto preconceituosa com as pessoas ao redor. A personagem em primeira pessoa que nos é apresentada em um recorte de tempo que vai julho de 2006 a outubro de 2014 parece, em um primeiro momento, uma versão pós-moderna ansiolítica blogueira da poeta Sylvia Plath. Mas o que esse primeiro golpe de vista aponta é também parte de um jogo em que essa Ana de Amsterdam te julga por todos esses julgamentos prévios que você faz dela.

Porque a depressão da personagem não é apenas um diagnóstico clínico, mas sobretudo uma licença poética, um tanto cínica até, para que ela consiga ter voz legítima para falar de outras mulheres igualmente suicidas. É preciso compreender as pessoas que não conseguem viver para escrever sobre elas. E o grande mérito desse livro é evitar, a qualquer custo, que nós tenhamos piedade dessas pessoas ou mesmo empatia ou simpatia por elas. Não há autocomiseração, há somente a constante sensação de inadequação.

Nessa personagem de Ana de Amsterdam, descoberta primeiro na música homônima de Chico Buarque para depois achar a história da mulher que, por sua vez, inspirou Chico a escrever sua música, a escritora portuguesa Ana Cássia Rebelo busca pistas para construção dessa mulher (que é também ela mesma), casada, mãe de três filhos, absolutamente insatisfeita com sua vida sexual, para nela espelhar uma condição tão comum em várias outras mulheres asfixiadas pelos ditames sociais e pelo machismo, sedadas pela medicina que nivela em nome da mediocridade e das instituições patriarcais.

Sem pudor em escrever exatamente aquilo que pensa seu corpo envolvido e contaminado de tristeza (“Cuidado com a tristeza, dizia Flaubert, pode tornar-se um vício"), ela usa as palavras como se fossem baforadas secas em um ambiente pequeno e fechado. Entre Portugal e o estado de Goa, na Índia, de onde vem parte de sua família, a personagem oscila entre a acidez e uma ironia tão lusitamente melancólica: “Pobres plantas que, lá fora, enchem de cor a minha varanda. Mal sabem o que o futuro lhes reserva.” Os jardins desconhecem a tristeza de quem os regam.

Descoberta na internet pelo editor João Pedro George (ele assina também pelo prefácio da edição brasileira), que fez uma seleção dos posts do blog em que Ana Cássia Rebelo desenvolvia seu alterego mais perverso, essa escritora mostra ser possuidora de um texto que, ele próprio, é um tanto bipolar: altera entre desabafos que não fazem concessões e frases de efeito pensadas para soar burguesamente inteligentes. O texto está também sempre a se usar de desvios do pensamento e conclusões banalmente catastróficas sobre a vida, porque a vida, em primeira e última instância, é para a personagem uma repetição de gestos (tais como se repetem posts de um blog), de pessoas que passam a vida inteira trabalhando em ruas feias, “onde homens compram revistas de automóveis e comem de boca aberta”. Não é de se estranhar que cada ponto final em uma postagem sua se assemelha a goles secos. Inevitáveis.

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