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O relógio marcava exatamente meio-dia e quarenta e cinco minutos no último dia 3 de novembro de 2015, quando uma multidão de jornalistas se entrechocava, murmurando, agitada, em frente ao tradicional restaurante Drouant, no segundo distrito de Paris, antigo estabelecimento frequentado por artistas como Renoir e Rodin, quando a região ainda não era um quintal hype de marcas de luxo europeias, mas simplesmente um grande canteiro de obras haussmannianas do século retrasado. Turistas desavisados se juntam ao movimento na calçada do restaurante, na esperança de um flash de algum pop star habitué da capital francesa, quem sabe uma Rihanna, um Johnny Depp. Da porta da frente do Drouant, no entanto, sai Bernard Pivot, vetusto jornalista de 80 anos e atual presidente da Academia Goncourt, instituição responsável desde o fim do século 19 pela consagração de livros e escritores franceses. O Prêmio Goncourt 2015 é enfim anunciado, como manda a tradição, para a euforia da imprensa: trata-se do romance Boussole, 380 páginas, publicado pela Actes Sud. O autor, Mathias Enard, 43 anos, natural da cidade de Niort, no oeste francês, mostra-se genuinamente surpreso: “a gente nunca sabe o que vai acontecer quando se trata do Goncourt”, declara, imenso sorriso no rosto, em frente ao bando de microfones e flashes. Emocionado, dedica o prêmio ao “povo sírio” e declara desejar que seu livro possa “lutar contra a imagem simplista e mistificadora de um Oriente muçulmano inimigo, mostrando tudo o que ele (o Oriente) nos trouxe de bom”. Exatamente 10 dias depois da entrega do Goncourt 2015, uma sexta-feira 13 de novembro, por volta de 21h30, três grupos de integristas islâmicos de origem europeia instauram o pânico coletivo a apenas alguns poucos quilômetros do prestigioso restaurante literário, numa série de atentados terroristas simultâneos que deixarão um rastro de 130 mortos e 350 feridos. No domingo, a França realiza um ataque massivo em solo sírio, com aviões Mirage e Rafale a partir de seus postos avançados na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos. O alvo pretendido: posições estratégicas protegidas pelo Estado Islâmico na cidade de Raqqa, quartel-general da organização na Síria, no que seria o quarto ataque francês no país após setembro de 2015.

Entre contradições francesas e tragédias contemporâneas, Boussole, de Mathias Enard, propõe-se, em diversos momentos ilustríssimos, à faraônica tarefa de reconstruir pontes metodicamente implodidas entre Oriente e Ocidente pela geopolítica moderna. Na melhor tradição orientalista europeia, Enard nos submerge en douceur com sua técnica impecável: uma erudição indiscutível, praticamente enciclopédica, que reativa memórias coletivas acenando para um passado não tão longínquo, quando ideias, filosofias, poemas, melodias, construções civilizatórias e personagens históricos ainda ousavam transpor sem grandes tabus o meridiano tão invisível quanto eficaz que arranca leste de oeste, e vice-versa. Cristo e Maomé. O idealismo alemão de Hegel e a mística muçulmana de Ibn Arabi. Demônios bíblicos e os djins, hinns, nisnas e hawatifs árabes. O imponente e sombrio schloss (castelo, em alemão) de Hainfeld de um lado, e de outro a poética quase histriônica do castelo de Fakhr-al-Din, no deserto de Homs, na Síria, que contempla solitário os tesouros de Palmira (recém-destruídos pela ocupação do Estado Islâmico em 2015). Viena e Constantinopla. Emires e reis. Mathias Enard nos guia como Tirésias no meio de tantas referências que não obedecem necessariamente a nenhuma ordem cronológica, afetiva, mística ou documental. Justamente, a bússola de Enard deseja se perder para sempre entre Ocidente e Oriente, como um bimotor que aterrissaria numa pororoca de civilizações, um lugar sonhado e ainda intocado por monarquias de petróleo, postos de guerra avançados europeus, novas guerras frias e massacres tribais. Um lugar que leva a marca da descoberta, da contaminação e da alteridade. A única ordem possível em Boussole é o fabuloso encontro que o escritor francês se esforça para promover (ou demonstrar) entre Meca e Jerusalém, Danúbio e Sinai, Mozart e a música militar turca. O Outro de Enard é contaminante e contaminado. Não é por menos que o autor descreve seu trabalho como um “romance da alteridade”. O caráter erudito de seu livro, no entanto, provocou dúvidas entre o afoito público literário francês: especulava-se, antes do anúncio do prêmio, se a enorme massa crítica e histórica levantada pelo romance de Enard não seria justamente um fator fragilizante no meio da concorrência. Pelo contrário, a Academia aplaudiu quase unanimemente a polifonia narrativa do autor francês.

A epopeia intercivilizações de Mathias Enard é contada em primeira pessoa pelo personagem de Franz Ritter, musicólogo austríaco contemporâneo, morador de um apartamento na Viena dos anos 1990, e se desenvolve integralmente no período de uma madrugada insone, entre lembranças de viagens, deambulações poéticas, melancolia e febre. Interlocutora ausente, Franz se debate entre conversas imaginárias e passadas com Sarah, pesquisadora e especialista orientalista de origem europeia, como ele. É se endereçando a essa mulher brilhante e tão platonicamente desejada que o tímido e doente Franz constrói seu espelho de projeções entre Oriente e Ocidente. A identificação do protagonista por Mahler, Joseph von Hammer-Purgstall (primeiro grande orientalista austríaco), Beethoven, Goethe, Balzac e Kafka evolui e reverbera nas projeções que o personagem emula das grandes aventureiras europeias orientalistas, sombras marcadas de seu amor por Sarah: Lou Andreas-Salomé, Marga D’Andurain, Jane Digby, Thèrese Apponyi, Annemarie Schwarzenbach, Lady Hester Stanhope, elas estão todas lá, malucas, decididas, travestidas, dominadoras, imponentes, rainhas do deserto, na Turquia, na Síria, no Egito, no Líbano, na Argélia. A pletora de personagens históricos e as intensas ramificações entre cada um deles abre inúmeras janelas poéticas com o leitor. É preciso volume de alma e vontade de espírito para mergulhar junto com Mathias Enard em seu túnel do tempo, entretempos, entremundos. Quem se aventura, no entanto, não corre o risco de se afogar. Ao contrário, saímos deste mergulho com a respiração potente de outras atmosferas, com fome de novas imersões. De quebra, não passa imperceptível a sábia ironia e a (auto)crítica do autor francês à figura do europeu intelectual orientalista, quase numa desconstrução de seu alter ego: Franz Ritter é mole, triste, nada viril, medroso compulsivo, tímido e castrado pela figura materna, evocada em lapsos cômicos no meio de sua prosopopeia fascinante.

A prosa afiada do autor francês ilumina também analogias e questões históricas intrigantes. Não deixa de ser empolgante, para o público não habituado ao léxico orientalista de tradição europeia, descobrir, por exemplo, que Honoré de Balzac foi “o primeiro romancista francês a incluir um texto em árabe em seus livros”. Que a música militar sempre foi um enorme portal entre Oriente e Ocidente. Ou que foi a guerra, e não qualquer guerra, mas a guerra de Napoleão Bonaparte – estratégica, organizada e de conquista – que inaugurou o chamado orientalismo europeu, escancarando as portas para que ocidentais botassem pela primeira vez suas botas além dos Bálcãs. Saber que François-René de Chateaubriand foi o escritor francês precursor de todo o gênero conhecido hoje como “literatura de viagem”, com sua obra L’itinerárie de Paris à Jérusalem – o brilhante Chateaubriand, com quem o jovem Victor Hugo dizia querer ser igual quando crescesse. Descobrimos ainda todo um fabuloso índex dessa literatura nômade, de Stendhal à Balzac, passando por Goethe. Mas talvez o efeito presencial mais perturbador seja a reconstituição histórica das incríveis paisagens sírias destruídas pela guerra entre Bashar al-Assad, rebeldes e jihadistas do Estado Islâmico, além dos exércitos aéreos europeus do centro ou do leste. Boussole aponta seu norte para os tesouros de Aleppo, Homs, Damas, Raqqa. Palmira, “a noiva do deserto”, com seu templo dedicado a Baal, o campo do imperador Diocleciano. A descrição das peregrinações de Franz Ritter e sua Sarah por cada um desses lugares é um doloroso rito de memória, um sino que badala com sua presença narrativa a impostura de cada uma dessas ausências, cidades transformadas em buracos, destroços de guerra. Mathias Enard não se furta em nenhum momento a colocar jihadistas, mercenários e exércitos locais ou estrangeiros em cena. Eles já estavam lá, quando o autor, fluente em árabe e persa, visitou os passos de antigos orientalistas europeus. O autor tinha acabado de voltar de uma viagem à Beirute e à Alger, no Marghreb, quando recebeu a notícia da consagração pelo prêmio literário mais importante da França. Espécie de Sherazade francesa, Mathias Enard é nômade como seus personagens, francês morador de Barcelona, na Espanha, e um contínuo viajante intermundos. A literatura migrante, o recital da memória e a ficção de Enard repovoam de linguagem enormes buracos, espaços deixados no vácuo das guerras frias, dos drones, das decapitações, das mortes coletivas em botes no Mediterrâneo ou no frio tenebroso das tendas de Calais. É sem dúvida uma das funções civilizatórias da cultura, essa “necessidade da aceitação da alteridade como parte integrante de si mesmo”, essa “fértil contradição”, como formula a personagem Sarah em Boussole.

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