HerbertoHelder

Sim, precisa ser agora. É uma de muitas conversas necessárias sobre a poesia portuguesa contemporânea, parece-me a mais urgente. Dizem ser o maior poeta contemporâneo do seu país, dizem que está para a segunda metade do século 20, assim como Fernando Pessoa está para a primeira. A crítica está segura de que é o maior desde Pessoa. É verdade que ela é sempre apressada em redefinir o seu cânone, e o Herberto rende aos nossos tempos um bom mito, mas não é disso que falo.
Não temos lido Herberto Helder, não temos experimentado e sofrido Herberto Helder, não temos, sequer, abandonado leituras interrompidas, porque os nossos poucos Herbertos Helders estão esgotados e a edição importada da Porto Editora já ultrapassa a margem dos R$ 300. É possível encontrar em sebos alguns exemplares das edições publicadas na década passada: O corpo o luxo a obra (2000), pela Iluminuras; Os passos em volta (2005), pela Azougue Editoral; Ou o poema contínuo (2006), pela A Girafa. Ainda assim, as lacunas são enormes.

À ocasião da morte do escritor, no dia 24 de março deste ano, os jornais brasileiros fizeram as honras fúnebres, noticiaram a perda, relembraram o folclore criado ao seu redor, repetiram a fórmula fácil: é o maior desde Pessoa. E todo aquele falatório remetia, certeiramente, às suas próprias palavras: “O melhor que disseram de mim foi quando estiveram calados”. Sabíamos mesmo do que falávamos? Sei eu do que falo quando escrevo este texto? É típico da nossa época: repetimos o discurso endossado pelos intelectuais que gostaríamos de ser e empenhamos tanto tempo na construção de um personagem de nós mesmos, um que seja digno de participar dos clubinhos literários, que a nossa experiência de leitura vai ficando rarefeita e superficial.

Talvez, por isso, seja tão difícil dar existência ao Herberto. Não existe superfície em sua obra, tudo é fundo. Se costumamos dizer que a poesia nos obriga a outra experiência do tempo, pois implica uma pausa, uma suspensão, aqui falamos de um autor que cobrará mais de você: cobrará renúncia. Removes primeiro a casca do automatismo e da velocidade do mundo para só depois voltar tua atenção às imagens e ao ritmo helderiano.

Um poeta sem rosto

O que Dalton Trevisan, Thomas Pynchon e J. D. Salinger têm em comum não é nenhum mistério: escritores que recusaram o movimento de exposição em que vivemos não concedem entrevistas, tampouco recebem fotógrafos. No entanto, como parecemos depender mais dos ídolos que das artes, ignoramos o quanto de escolha pessoal ou de projeto literário esteja envolvido, criamos o mito da obscuridade e da reclusão para venerar, para transformar em moeda de troca editorial, para vislumbrar uma estratégia de marketing.

“Vocês não digam a ninguém e deem o prêmio a outro...”, foi o pedido não atendido de Herberto Helder quando negou o Prêmio Pessoa, a coroação da poesia portuguesa com o bônus de US$ 30 mil. Herberto, que tinha muita clareza do porquê do seu gesto de retirada, não queria ser lembrado nem por prêmios, nem pela recusa aos prêmios – mas isso foi inevitável. Como disse o colunista do jornal Público, António Guerreiro, ele era o poeta “que não contribuía para os momentos festivos, nem respondia aos apelos do culto”. Os amigos tinham sincera consideração por sua escolha, o que pode ser visto no documentário Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro: dos 29 personagens convidados, 17 se recusaram a falar, e os que se colocam, com algumas exceções, já não eram mais próximos do Herberto ou nunca o foram.

Não digo com isso, no entanto, que a vontade dos artistas deva ser respeitada acima de todas as coisas; não faria bem ao mundo estar povoado por poetas mimados e blindados de frustração. Fazer de suas escolhas a lei, significaria ter obedecido a Kafka no seu desejo de ter todas as suas obras queimadas e não publicadas, por exemplo. Ao mesmo tempo, desmereceríamos também a inteligência dos escritores que ousaram se recolher ou direcionar suas obras por caminhos que acreditavam se enxergássemos neles ingênuos convictos do domínio sobre seus legados. Certamente, são atos que se propõem menos ao controle e mais à coerência.

No caso de Herberto Helder, a sua escolha era em nome da autonomia incondicional de sua obra. Se o seu desejo soa utópico, pouco importa, ele “tudo fez para erradicar a pessoa do autor, ou melhor, para evitar que ele surgisse como mediação entre a sua obra e os leitores”, como disse Guerreiro. Queria ser um poeta sem rosto ou, antes, ter a sua poesia como a face ofertada. Sobre isto, a professora da Universidade da Madeira e ensaísta Diana Pimentel já havia declarado: “[ele] entende que mais importante do que a sua vida e as suas opiniões enquanto homem, interessa que a sua obra possa ser lida sem qualquer tipo de eco ou de ruído. E, no ruído, inclui a voz do autor e qualquer tentativa de explicar alguma coisa que a poesia não seja capaz de explicar por si mesma”.

Outra característica do seu projeto literário que também foi explorada de forma ambígua diz respeito à opção por tiragens únicas de seus livros, sem possibilidade de reedição. Cada obra, uma vez que estivesse esgotada, só poderia ser lida na subsequente publicação de suas obras “completas”. O motivo deste arranjo era a sua reescrita constante e obsessiva, sobre a qual a professora da Universidade de Sergipe, Maria Lúcia Dal Farra, autora do livro A alquimia da linguagem – leitura da cosmogonia poética de Herberto, comenta: “Era, de fato, um tormento contínuo para ele, creio que porque cada obra editada, uma vez relida pelo Herberto, passava por outro crivo, e ele modificava tudo, recusava uns tantos textos, atualizava outros, dispunha-os de outra maneira na próxima edição e assim por diante. Assim, cada reedição de um livro ou da obra completa do Herberto era um livro novo. E a obra minguava, na verdade, porque ele era pródigo em extirpar poemas”.

Responsável pela organização da edição brasileira O corpo o luxo a obra, o crítico literário Jorge Henrique Bastos, que morou em Portugal muitos anos e estreitou laços com Herberto, também compartilha do ponto de vista de Maria Lúcia: “Os futuros organizadores de uma edição crítica dele vão ter muito trabalho pela frente. A obsessiva busca de uma expressividade exata e límpida era o que o incitava nessa direção. Por essa razão, eliminou tanto, suprimiu, reescreveu, alterou. Eu acredito, radicalmente, inspirado pelo alemão Gottfried Benn, que o que fica de um poeta são no máximo seis ou sete poemas, o resto são acúmulos. O Herberto acreditava nisso, e talvez isso explique sua atitude”.

O episódio extremo de sua compulsão diz respeito ao livro Cobra, que o poeta foi alterando, de forma diferente, em cada exemplar, como lembra Maria Lúcia: “Imagine você que é impossível fixar esse texto, porque o Herberto mexeu em cada um dos exemplares, à mão e diferentemente de um para outro destinatário. A edição que cada um de nós tem é única e irrepetível”.

A outra face desta postura, no entanto, é certo comprometimento do acesso, uma vez que os países que pretendam editá-lo precisem fazê-lo por completo. Sobre a possibilidade de reedição do que já fora publicado no Brasil, não recebi respostas da Iluminuras, da A Girafa e da Azougue Editorial. O que existe de mais concreto, hoje, é o projeto da Oficina Raquel, editora profundamente dedicada à literatura portuguesa, que tenta fazer circular, em 2016, Photomaton & Vox, livro-chave da obra herbertiana. Sobre estes planos, o poeta, editor e professor da Universidade Federal Fluminense, Luis Maffei, relata: “Estivemos com a Assírio e Alvim/Porto Editora em Frankurt e a conversa foi produtiva. Em novembro, dias 23 e 24, comemoramos os 85 anos do nascimento do poeta em um colóquio na UFF. Na ocasião, lançamos a coletânea de ensaios sobre ele chamada Se eu quisesse, enlouquecia. Mas, de fato, é um livro que interessa mais ao leitor acadêmico. Por isso, tomara que consigamos mesmo lançar Photomaton ano que vem”. Maffei também deve lançar em breve, mas ainda sem data definida, o livro Do mundo de Herberto Helder, pela Azougue.

A terceira face das tiragens únicas é o fetichismo, que pode ser mais bem observado no fenômeno dos seus três últimos livros (Servidões, A morte sem mestre e Poemas canhotos). Estamos falando de tiragens de 3 a 5 mil exemplares de livros de poesia que se esgotaram em um mês. Para a pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra, “a nova editora deve ter dado um jeito de tornar a própria recusa legítima e convicta do Herberto em um dado de especulação editorial”. Aqui, ela pontua a transição da Assírio e Alvim, que era responsável pela publicação das obras, para a Porto Editora, que assumiu este papel nos últimos anos. O fato é que, como escreveu o António Guerreiro em sua coluna, os livros do Herberto terminaram se tornando produtos com “o valor do provinciano prestígio e da falsa raridade”.

Editor das últimas publicações do H. H., Manuel Alberto Valente explicou que, atualmente, os trâmites relacionados à obra são coordenados pelos herdeiros junto à Porto, e disse que várias editoras brasileiras já sinalizaram interesse, mas não informou mais detalhes. Sobre as muitas críticas que atacam as escolhas para A morte sem mestre, que traz um CD com poemas falados e o embrulho, considerado “de luxo” por muitos, Valente apenas explica: “Essas escolhas foram aprovadas pelo autor e foi mesmo dele a ideia de se gravar lendo os seus poemas. Foi uma gravação completamente amadora, feita em casa, com um aparelho vulgar de Lineu, sem a presença de qualquer testemunha”.

Rimbaud elevado à enésima potência

Antes que me digam desautorizada para criar uma imagem que associe Herberto a Rimbaud, antecipo que não é minha a comparação, tampouco se tratava de um elogio. Por motivo do lançamento da edição brasileira de Ou o poema contínuo, Luiz Costa Lima escreveu uma crítica com o título “Rimbaud amplificado”, sobre a obra que não lhe agradou. O que ele percebia naquela poética era “uma organização sintática que se mantém impecável, enquanto a semântica tramada pelas frases se converte em aleatória”. Em breve troca de e-mails, o teórico disse manter sua impressão sobre o poeta português, o que não significa que veja como positiva a não circulação de sua obra entre nós.

No famoso texto publicado na Folha de S.Paulo, é perceptível certa angústia por sentido, “mas a tentativa de extrair sentido não funciona ante a constância do aleatório”, defende Costa Lima e, em seu arremate conclusivo, diz que, em alguns casos, o caos “se confunde com o verbalmente nulo”. De partida, percebe-se o quão desorientadora pode ser a obra daquele que versou “afastem de mim a inocência/ eu falo o idioma demoníaco” e a sua dicção repleta de fúria. O pesquisador Luis Maffei, entretanto, discorda da associação à figura do simbolista: “Acho a imagem infeliz, pois o Rimbaud hiperbólico do Costa Lima seria uma espécie de surrealista sem vínculo com o mundo, coisa que o H. H. não é de modo algum”.

Maffei acredita que a estranheza perante o Herberto Helder também se agrave “porque a poesia brasileira tem pouco do que H. H. tem muito, seus delírios sabiamente estruturados e sua capacidade de abraçar o cosmos com a maior humildade e a maior pretensão”. O poeta, por sua vez, não camuflava nem a humildade, nem a pretensão: “Também eu queria escrever um poema maior que o mundo,/ escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo”. E, sabiamente, Herberto percebia que seu canto conflitava com a contemporaneidade, nele que se pode ver não só as tão faladas nuances surrealistas, mas também marcas de uma modernidade muito pessoal e flertes com o que há de mais imaginativo no romantismo alemão.

Neste sentido, Maria Lúcia explica a grandiosidade da sua poesia: “Quando o estudei ativamente, nos anos 1980, a maneira que eu encontrara para precisar essa coisa estonteante que é a sua letra poética foi atribuir-lhe uma ‘ilegibilidade’ – expressão complicada que pode dar-lhe um quê de elitismo e de incompreensão, mas que foi a única que me ocorreu para designar tamanha densidade. É porque quando você pega o Herberto para ler, você se sente inaugurada – nunca fizeram aquilo com você antes, percebe? É como se você se tornasse vítima de um assédio poético – algo extremamente violento para aquilo que você é ou que sabe”.

Ela ainda compreende que este fator estético, para além dos percalços editoriais, também torna difícil a circulação do Herberto aqui e alhures: “Ele te bota em outro patamar, e a própria língua portuguesa vira uma estranheza só. Talvez isso explique, de um lado, o receio brasileiro em topar com esse ser. Não quero dizer com isso que a língua do Herberto seja castiça ou coisa que o valha, e por isso fugimos dela. Não. É que, nele, entramos numa temperatura tão cerrada, num texto que carrega uma história arqueológica tão íntima a uma língua, que faz com que nós, que a partilhamos, nos sintamos, na verdade, desparceirados dela e, ao mesmo tempo, tão próximos daquele vórtice devorador que nos desqualifica, que precisamos de hausto, de distância, de tempo”.

Aqui chegamos a um ponto muito caro para quem o lê: a sua língua, aquela por ele fundada. Escreveu a Matilde Campilho: “Eu só queria saber inventar uma língua/ que não existisse”. Não é só ela, é o desejo mais íntimo de muitos – quiçá todos – poetas. O próprio Herberto também grafou: “a faca não corta o fogo,/ não me corta o sangue escrito,/ não corta a água,/ e quem não queria uma língua dentro da própria língua? eu sim queria, jogando linho com dedos, conjugando/onde os verbos não conjugam”.

O jornalista Luís Miguel Queiroz, certa vez, falou a respeito do Herberto que existia a “sensação de estar perante alguém que escreve diretamente em poesia. Como se esta fosse, por assim dizer, a sua língua materna”. E como nós sabemos, em última instância, a poesia não fala “sobre” ou, como disse Octavio Paz, ela não descreve a cadeira, ela coloca a cadeira na nossa frente. No Herberto, esta dicção mágica, que faz e instaura em vez de exprimir e representar, toma conta de tudo. Sua língua é antirrepresentativa e antimimética, pois extremamente consciente de que “o mundo torna-se um fato novo no poema, por virtude do poema – uma realidade nova”. Está sempre lá, na sua escrita, o seu mais preciso rosto: “levar a linguagem à carnificina, liquidar-lhe as referências à realidade, acabar com ela – e repor então o silêncio”.
No ensaio Em que língua escreve Herberto Helder?, a professora da Universidade do Porto, Rosa Maria Martelo, dá atenção à língua dentro da própria língua: “O criador herbertiano obedece a uma ‘gramática profunda’, desde logo porque infixa, infixável (o estilo é a sua maneira de procurá-la). Mas essa gramática é profunda porque toda ela converge para um acerto que é, antes de mais nada, uma sintaxe transferida para o plano rítmico e imagético”. Já Diana Pimentel enfatizou em entrevistas passadas o caráter orgânico desta materialidade poética: “Aquilo que os poemas do Herberto Helder fazem é falar do modo como o ar entra nos pulmões e depois se dilata no nosso sangue. O que os poemas fazem é criar uma imagem e depois expandi-la por dentro do próprio poema ao ponto de obrigar os nossos sentidos a trabalharem ao mesmo tempo para conseguir compreender”.

O que de mais preciso fica do seu retrato é a entrega de Herberto Helder ao seu ofício, a entrega íntegra e despudorada de quem defendia que “a paixão é a moral da poesia”, de quem sabia que “as coisas têm entre si relações de mistério, não relações de causa e efeito”, de quem conhece por dentro os abismos do mundo e os abismos da língua, pois só assim se chega a mapas tão precisos: “do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,/ nem de mim mesmo, à força/ de morrer de mim na minha própria língua,/ porque eu, o mundo e a língua/ somos um só/ desentendimento”.

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