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O ser político em Ben Lerner não sabe descansar. Pelo menos a se tomar por seus dois livros publicados no Brasil, existe uma latente inquietação com o mundo lá fora, com os modos de fazer e ver as coisas. Há um desconforto também com a marcação branca eurocêntrica de quem ele é e o que isso representa. E sua poesia não fica imune a tudo isso - como assim deve ser. Em meados do ano, com o romance Estação Atocha (Rádio Londres) fomos introduzidos a um Ben Lerner num exercício de autoficção sobre um jovem rapaz mimado e pedante na Madri antes, durante e depois dos ataques terroristas na Estação Atocha, em 2004. Agora, a editora e-galáxia, que vem fazendo uma curadoria afinada para publicação de e-books, lançou em epub Ângulo de guinada (tradução de Ellen Maria), título que, stricto sensu, se classifica como poesia.

Mas o que ocorre, na verdade, é um exercício poético por cima de teorias filosóficas, em que o autor, ora buscando uma unidade formal da escrita, ora colando frases aparentemente aleatórias em um mesmo bolo de pensamento, discorre sobre a humanidade do pós-11 de Setembro. Os atentados, as explosões, torres e trens desabando, parecem, são as vias condutoras do debate que Lerner quer jogar pro alto, revelando também nessa ação que existe uma não-atmosfera, uma não-gravidade onde as questões da humanidade flutuam sem saber onde e como pousar. Daí então a recorrência do astronauta em Ângulo de guinada, uma figura que nesse livro se repete como que para pontuar tanto que os conceitos estão, cada vez mais, à deriva no espaço, quanto que eles devem ser sempre que possível vistos de uma perspectiva panorâmica.

Então quando fala de amor, Lerner fala sobre a insuficiência e o excesso do querer, quando fala da literatura das palavras deitadas, evoca a escrita vertical do cinema (e usa Walter Benjamin para introduzir esse embate), e quando fala da arte, fala da necessidade de se renunciar a ela. As coisas estão ausentes em si mesmas, e com frequência se contradizem, se chocam como aviões atravessando edifícios. Como a política que atravessa a estética, e vice-versa: “Só admitirei que o mundo não precisa de outro romance, se você admitir que o romance não precisa de outro mundo”.

É natural que, imerso no debate filosófico sobre o olhar, jogando a própria literatura e a ideia de poesia na berlinda de um mundo utilitário, Lerner peque por uma recorrência de ideias que, às vezes, parecem prender demais a sua escrita. Em algum ponto, as referências ao cinema, aos games e ao próprio astronauta se esgotam um pouco. De qualquer modo, a repetição dos temas não deixa de ser também uma forma do autor nos fazer caminhar em círculos, nos deixando também presos à armadilha de um debate político que força a contragosto esse olhar no espelho: “Tudo o que temos é projetado para ser fácil de lavar, exceto os aventais de açougueiro que somos”.

Lido lá fora como um promissor nome de literatura norte-americana, Ben Lerner é alguém para se anotar no caderninho, particularmente nesses dias tensos onde tudo, não apenas as torres, parecem estar desmoronando ao nosso lado.

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