javier cercas

O paraíso para Javier Cercas é uma casa simples, quase sem móveis, mas com uma piscina no quintal, numa minúscula vila da Costa Brava, a pouco mais uma hora de carro de Barcelona e a menos de 100 km da fronteira com a França. É ali onde esse espanhol nascido há 53 anos em Extremadura (do lado oposto da Península Ibérica, na fronteira com Portugal) e radicado na Catalunha se esconde para escrever. Fechado no escritório, com livros espalhados pelo chão, nas mesas e no sofá, Cercas só é incomodado por Duna, uma cadela meio velha que de vez em quando decide “bater” à porta porque quer deitar-se ao pé do dono.

“Tenho casa e também um escritório em Barcelona, mas cada vez passo mais tempo aqui. Gostaria de estar ainda mais, mas viajo muito”, responde quando pergunto se é ali que ele passa a maior parte do seu tempo. O refúgio de Cercas se chama Flaçà e está a quinze minutos de Girona, cidade para onde a família se mudou quando ele tinha 4 anos. A decisão de fazer uma casa na austera e tranquila vila de menos de mil habitantes tem uma explicação. “A família da minha mulher é desta região e sempre vínhamos. O mar está logo ali”, diz apontando para uma pequena montanha verde. Conto que li uma entrevista em que dizia que estar fechado meses naquela casa, passar o dia escrevendo e de noite assistir filmes com a companhia de garrafa de vinho era o mais próximo da felicidade que havia chegado. “Sim, concordo comigo. É isso mesmo”, diz entre sorrisos. No caminho da estação de trem até a casa o que mais vi foi campo — plantações de girassóis, sobretudo — e o que menos encontrei foi gente. Pergunto se os vizinhos sabem quem ele é. “Um escritor não é um jogador de futebol, não sou o Messi”, brinca.

Tem razão, mas dentro do mundo das letras Javier Cercas é hoje uma estrela, um fenômeno de público e de crítica. Até 2001, quando Soldados de Salamina foi publicado, Cercas era apenas um professor de Literatura em Girona que havia escrito alguns romances e ensaios — e vendido algumas poucas centenas de livros. Menos de cinco anos depois atingiria a inacreditável marca de um milhão de exemplares graças a esse romance que narra um episódio do final da guerra civil espanhola. Costuma dizer que o sucesso desse livro se deve à união ou coincidência de duas obsessões: a sua e a de todo um país. “Soldados de Salamina conta a história de um tipo que tinha a mesma idade que eu tinha naquele momento, 39 anos, e que, como as pessoas da minha geração, não tinha nenhum interesse pela guerra civil. Para ele aquilo era tão alheio e distante como a Batalha de Salamina, mas à medida que investiga um esquecido e obscuro episódio da guerra se dá conta que o passado é o presente, de que sem esse passado o seu presente não se entende, e de que o passado é uma parte, uma dimensão do presente.” A obsessão coletiva de que fala Cercas é o fantasma de uma conflito que vitimou entre 600 mil e 800 mil espanhóis e, durante décadas, dividiu o país em dois bandos. Após a morte do ditador Francisco Franco e o retorno da democracia o episódio foi dado por terminado, enterrado, mas as fossas comuns impediram que o passado passasse. “O passado nunca morre, nem sequer passa”, escreveu cerca vez Faulkner. Frase que Cercas costuma citar para justificar o reaparecimento desse fantasma que coincidiu com o surgimento do seu livro. Ou talvez o seu livro tenha ajudado a despertá-lo. “Agora percebo que meus livros, a partir de Soldados de Salamina, de um modo inconsciente, de uma maneira natural, são um ataque ao que eu chamo de ditadura do presente”, diz o escritor. “Vivemos com uma ideia totalmente falsa da realidade de que o presente se explica apenas pelo presente e que o passado está ali nos arquivos, nas bibliotecas e interessa a meia dúzia de loucos como a um tal de Javier Cercas. Sem o passado não se entende nada, nem a história, nem a política, nem a vida pessoal. Nada.”

Em praticamente todos os livros de Javier Cercas há um personagem que se repete e que tem sempre um papel central na história: o próprio livro, ou melhor dito, a construção desse livro. “Escrevo romances de aventura sobre a aventura de escrever romances”, costuma dizer. Além da história em si, o leitor fica sabendo das dificuldades e descobertas que surgem a partir do momento em que decide contá-la. Foi sempre assim, desde “El móvil”, o primeiro conto que publicou, até O impostor, seu livro mais recente — lançado no final de 2014 na Espanha e que agora desembarca no Brasil. “Eu não queria escrever este livro. Não sabia exatamente por que não queria escrevê-lo, ou sabia e não queria reconhecer”, dizem as primeiras linhas d’O impostor, um livro difícil de ser classificado. Transita entre a reportagem, o ensaio, a biografia (ou autobiografia), o romance e a crônica. Essa mescla entre vários gêneros literários é outra das marca do escritor. No caso d’O impostor, o autor o define como um “romance sem ficção”, mas isso das etiquetas preocupa-o pouco. “A literatura é sempre antiliteratura, é o que não parece literatura porque vai contra o cânone da época. Foi sempre assim. Shakespeare não era literatura em sua época, era divertimento para as massas. Cervantes nunca teria ganho o Prêmio Cervantes, como disse Valverde. Quando dizem que meus livros não parecem romances, mas reportagens, eu fico agradecido.”

Enric Marco, a mentira que somos

O velho maciço, bigode excessivamente escuro — melhor pintado que os poucos fios de cabelo que rodeiam a calva —, narra com voz firme e segura o terror da chegada ao campo de concentração nazista. “Arrancarão tudo o que trazes, uma medalha, uma corrente, uma fotografia (por pequena que seja) que possa fazer-te recordar algum contato com o mundo exterior. Estás só, trata-se de desarmar-te totalmente, que não sejas nada mais do que um instrumento em suas mãos.” As palavra saem da sua boca com rapidez, concatenadas, num discurso cheio de poesia e metáforas. “Eles eram a morte, nós éramos a vida.” Fala como se fosse o porta-voz da humanidade, e o que conta parece ser a história universal da maldade. “[O Soldado] Ao passar diante de mim se deteve e me apontou com o dedo, não disse nenhuma palavra, só sei que levantei a cabeça e creio que lhe dirigi o sorriso mais atraente que alguma vez dirigi a alguém, sequer a uma mulher para conquistá-la, e apenas sei que ele ficou me olhando seriamente, quase não moveu os lábios, mas disse [a frase lhe sai em alemão, e logo a traduz ao espanhol]: ‘O espanhol outro dia’, e continuou a caminhar.” Assim Enric Marco explicava num documentário como sobreviveu ao terror do Holocausto.

O carismático idoso catalão percorria instituições para contar essa e outras histórias relacionadas ao inferno que viveu. Durante três décadas apresentou-se como um herói, alguém que lutou contra os fascistas na guerra civil espanhola, que foi deportado a um campo de concentração nazista, que de volta à Espanha combateu o franquismo, que arriscou a vida e viveu na clandestinidade, mas nunca desistiu. Dirigiu uma das principais centrais sindicais da Espanha e foi o presidente da principal associação espanhola de vítimas do Holocausto. Foi condecorado dezenas de vezes, deu centenas de entrevistas e palestras, levou às lágrimas políticos no Parlamento espanhol e foi desmascarado em 2005, quando se preparava para representar o país — ao lado do presidente espanhol — num encontro mundial em homenagem às vítimas do nazismo. O falso herói nunca esteve num campo de concentração, nem lutou contra o franquismo, e sua participação na guerra civil, se é que houve, foi insignificante. “Era tudo mentira, Enric Marco é uma mentira ambulante. Um craque da mentira”, resume Cercas. Até os 50 anos esse sindicalista catalão viveu uma vida medíocre, sempre esteve com a massa, foi sempre um a mais. Até que começou a forjar um passado, a inventar uma vida que nunca havia vivido, uma vida heroica e grandiosa, uma espécie de Dom Quixote.

Quando a verdade vem à tona, graças ao trabalho de investigação de um desconhecido historiador, Javier Cercas imediatamente se interessa pela história. “Senti uma coisa aqui”, diz apontando para o estômago, “e pensei: que merda é essa? O que está acontecendo aqui?”. Escreveu algumas colunas sobre o assunto — que foi amplamente comentado na Espanha e na Europa — e, curioso para saber mais, reuniu-se com pessoas que conviveram com Marco. Mas demorou para admitir que queria escrever sobre aquela mentira e aquele mentiroso. Abandonou o projeto várias vezes (tudo isso está contado n’O impostor), escreveu dois livros pelo meio, até que, em 2013, retomou o projeto. Durante meses reuniu-se com Marco para entrevistá-lo, fez uma intensa pesquisa de documentos e, pouco a pouco, foi confrontando o “impostor” com cada uma das suas mentiras. “Escrevo esse livro não para responder, mas para formular perguntas, e da maneira mais complexa possível. São várias, mas há uma pergunta inicial que é: ‘Como é possível que alguém minta sobre o crime mais monstruoso da história da humanidade?’ A resposta é: ‘Faz isso porque quer ser amado’. Uma resposta básica. Ele quer o que todos queremos: que as pessoas gostem dele. Uma segunda pergunta: ‘Como é possível que todo mundo acredite nessa mentira?’ Há muitas respostas, mas há uma que é fundamental: ‘Porque esse homem contava aquilo que todo mundo queria escutar’.” Para Cercas, a versão de Marco era uma “versão adocicada, sentimental e digerível” dos campos de concentração. “Nela não estão as zonas cinzentas de Primo Levy, onde os carrascos se convertem em vítimas e as vítimas em carrascos”, argumenta. E é por isso, por ser algo kitsch, que a história que falsário contava tinha tanto sucesso. “As pessoas gostam das mentiras, mentiras doces e agradáveis. É terrível, mas é assim: nós não gostamos da verdade, gostamos das mentiras. Se é uma verdade desagradável, procuramos afastá-la”, argumenta o escritor.

Cercas diz que a vida de Marco é tão repleta de falsidades e mentiras que a única maneira de escrever um livro sobre ela era fazê-lo sem inventar nada. “Não tinha sentido que eu inventasse Enric Marco ou a sua vida. O que fazia sentido era contar a realidade, ou melhor, colocar a realidade e a ficção para batalharem.” E é por isso que escreve um “romance sem ficção”. Mas há um capítulo do livro em que essa regra não vale. É quando Cercas relata um diálogo imaginário que nunca teve com Marco em que o impostor o acusa de também ser uma fraude, de mentir e enganar, de querer os holofotes e a glória. “Foi a primeira coisa que escrevi deste livro, assim que estourou o caso, quando eu nem tinha certo se escreveria um livro sobre essa história”, conta. O que busca com esse diálogo, explica, é demonstrar ao leitor que todos temos um pouco de impostor, que também mentimos e falseamos as nossas vidas. “Fazemos isso porque queremos ficar bem na foto, queremos mostrar a nossa melhor cara, queremos que os demais nos amem e nos admirem. O que acontece é que fazemos isso respeitando, ou fingindo, ou tentando respeitar algumas normas. Basicamente a verdade. Mas Marco não. Para ele isso não importava. É claro que todos nós gostaríamos de viver outra vida. O que acontece é que Marco, como Dom Quixote, leva isso até o extremo.”

Cercas diz que ao colocar-se dentro do livro — é um personagem importante da história — pretende trazer consigo o leitor. Transportá-lo para aquele mundo, incluí-lo no relato e assim fabricar dúvidas na sua cabeça. “O que eu quero é que o leitor se meta ali e veja que ele também tem algo disso, o que pode ser uma experiência desagradável, mas é bom saber que temos algo de impostor. É a única forma de evitar males maiores. A literatura não tem que ensinar nada, mas podemos aprender muito com a literatura.” “Então a literatura, ao contrário do que muitos defendem, tem sim uma utilidade?”, pergunto. “É uma estupidez pensar que a literatura não serve para nada. A má literatura não serve para nada, a boa serve para tudo. Sei que soa antiquado, mas é assim”, me responde com convicção. E acrescenta: “Não posso com um romance solucionar a crise migratória que há na Europa, essa não é a maneira de mudar o mundo com a literatura. Ela muda o mundo alterando a percepção do leitor. Ou seja, revolucionando-o por dentro, mostrando-lhe a realidade como ela é. Isso é como dizia Kafka: ‘Um bom livro tem que ser como um soco no crânio, como um machado que rompe o mar de gelo que há dentro de nós’.”

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