Grace Jones

Em termos tanto de progresso quanto de paranoia, somos hoje muito devedores dos anos 1970. Sim, aqueles 10 anos que colocaram em ataque as utopias flower power da década anterior, com crises de toda espécie, alfinetes pontiagudos do punk e que acabaram/ e se acabaram dançando disco music, num lusco--fusco que cobraria altos dividendos. Os exageros setentistas, no entanto, renderam narrativas das mais curiosas. Nos últimos anos, por exemplo, a cantora e poeta Patti Smith surpreendeu o mundo com o alto grau de apuro da sua prosa nas memórias de Só garotos, pequeno/grande precioso livro sobre sua relação com Robert Mapplethorpe, um amor punk rock no corpo e na alma. Agora outra sobrevivente conta o que viu e o que lembra do período: Grace Jones, cantora, ex-modelo e diva freak de primeira grandeza, com o seu I’ll never write my memoirs (Nunca escreverei minhas memórias – ainda sem tradução para o português).

Ao contrário da obra da sua contemporânea Patti, não se trata de um livro em que a curiosidade por um período histórico se converteu também em literatura. No entanto, o forte da biografia de Grace é justamente o tom de deboche e sem medo do nonsense que a obra tem, deixando claro que a construção que importa aqui é a captura da voz de Grace, da forma sui generis como ela apreendeu o mundo. Nascida na Jamaica, numa família enorme, de rédeas religiosas, a cantora se mudou para Nova York na adolescência, trabalhando como modelo e vendo surgir, sendo protagonista, uma indústria de celebridades das mais ferozes. Brigou com John Casablancas, que lhe disse que tentar arrumar trabalho para uma modelo negra era semelhante a tentar vender um carro velho que ninguém quer (e ela, claro, não escutou o insulto calada); foi amiga de Andy Warhol, que já compreendia o mundo descartável do star system e de como, cedo ou tarde, todos gostariam de fazer parte dele. Ainda que por 15 minutos. Ainda que por bem menos.

Mas a parte mais interessante do livro acaba sendo o momento em que Grace desvenda seus anos como disco queen, em que era o topo da cadeia alimentar do Studio 54, clube que infeccionou nossa memória sobre como deveria ser uma perfeita noite de excessos e também sedimentou padrões ainda vigentes na cultura noturna. Mas não só a Studio 54. Grace traz um olhar privilegiado sobre como os clubes dos anos 70 foram essenciais na luta pelos direitos dos gays nas décadas seguintes.
Ainda que rico em revelações, o livro peca por não detalhar os anos 90 e o princípio da década passada, períodos em que Grace não gravou qualquer disco e basicamente desapareceu da mídia, com exceção de um ou outro show. Dizem que estaria afundada nas drogas e com problemas financeiros. Provavelmente não tinha histórias dignas da disco queen que foi – e sempre será – em nosso imaginário.

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